Bolsonaro repete padrão e entrega último anel ideológico com saída de Salles

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

23/06/2021 18h35 — em Variedades

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - De todas as joias da coroa ideológica, se tal metáfora é cabível, Ricardo Salles era a mais vistosa ainda em pé no governo de Jair Bolsonaro.

Claro, sempre sobra uma titular do time como Damares Alves (Mulheres), uma versão diluída como Milton Ribeiro (Educação) ou a miríade de agentes secundários e histriônicos como Sérgio Camargo (Fundação Palmares) ou Mário Frias (Cultura). Mas Salles era estrela.

Num governo dado a mesquinhezes em suas escolhas, não deixa de ser sintomático que um de seus mais aguerridos soldados tenha sido entregue como oferenda pública em mais um dos aparentemente infinitos momentos de crise do Planalto.

No caso, a revelação das suspeitas acerca do contrato de aquisição da vacina contra a Covid-19 indiana Covaxin. Políticos de todas as colorações concordam que o caso tem um potencial danoso de nova magnitude ao Planalto: um escândalo de corrupção envolvendo a pandemia.

Com o cheiro de queimado, a entrega de uma cabeça já dada como rifada há poucos meses foi o que Bolsonaro tinha a fazer. É um padrão: sempre que o noticiário vira contra si, o presidente busca uma alternativa midiática.

A queda de Salles era de todo modo dada como favas contadas por pessoas do entorno presidencial com o adensamento da investigação acerca do esquema de exportação de madeira ilegal.

Mesmo um ministro muito próximo dele dizia, no fim da semana passada, que a situação do titular do Meio Ambiente era insustentável.

Ele ressaltava não saber se o colega era culpado ou inocente, mas a pressão política tornara-se impossível de contornar. Esfregavam as mãos em contentamento militares próximos e no governo, que nunca toleraram o ministro do "passar a boiada" da famosa reunião ministerial do ano passado.

Isso porque Salles era Salles. Apesar de sua relativa flexibilidade política, que o levou do tucanato à Geraldo Alckmin ao bolsonarismo radical, ele nunca conseguiu agradar ao centrão. E é o grupo encarnado na presidência da Câmara sob Arthur Lira (PP-AL) quem dá as cartas hoje no Brasil.

Como outros expoentes do bolsonarismo raiz, como Abraham Weintraub (ex-Educação) e Ernesto Araújo (ex-Itamaraty), Salles foi até o fim com a crença de que a fidelidade a Bolsonaro o protegeria de tudo. Não foi assim.

No caso do ex-chefe do Meio Ambiente, o agravante era claro: ele também estava sob pressão por um caso de suspeita de corrupção.

Assim, demiti-lo, ainda que apelando ao expediente do "a pedido", Bolsonaro ganha tempo.

Parece pouco, do ponto de vista eleitoral, visando 2022. Mas o governo está vendendo o almoço para pagar o jantar em várias áreas, e o centrão agradece: a ala ideológica foi expurgada de ministérios de maior relevo, ao fim.

Ambientalistas mundo afora teoricamente têm o que comemorar. Poucas gestões foram tão destrutivas para a imagem externa do Brasil quanto a de Salles no Meio Ambiente --rivalizando seriamente com Ernesto, o chanceler mais danoso que já passou pelo Itamaraty.

Qualquer conversa desde 2019 com empresários estrangeiros passava pelas dificuldades em justificar investimentos no Brasil devido à má imagem no campo ambiental, isso mesmo antes da tragédia da gestão da pandemia da Covid-19.

Diplomatas reviravam os olhos ao ouvir o nome da dupla ora defenestrada Salles-Ernesto.

Bolsonaro agora entregou seu último anel e só tem a si para chamar de expoente ideológico do próprio governo, em especial quando se considera que o presidente é uma unidade entre Jair e seus filhos. A ilha do bolsonarismo no poder está mais deserta.

A Salles, talvez caiba uma candidatura à Câmara no ano que vem, além de lugar garantido em palanques sem máscara contra Covid-19 do presidente enquanto o caso das madeireiras estiver em apuração.


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