BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - Quem passou pela Estação das Docas, ponto turístico de Belém, nos últimos dias e viu uma série de barcos atracados nem desconfiou que três deles foram desenvolvidos para funcionar com os chamados combustíveis do futuro. Nas semanas da COP30, a conferência de mudanças climáticas da ONU, a capital paraense virou exposição de uma indústria ainda cambaleante, a do hidrogênio verde.
Produzido a partir da separação das moléculas da água por meio de energia limpa, esse combustível é tido por técnicos como um dos mais eficientes em despoluir setores de difícil descarbonização, como o marítimo. Nos últimos dois anos, o entusiasmo com ele levou a anúncios de grandes projetos ao redor de todo o mundo, inclusive no Brasil, mas dificuldades técnicas e econômicas provocaram a suspensão de alguns.
Agora, essa indústria ainda recém-nascida tenta voltar a caminhar, ainda que em passos mais lentos. E os apoios popular e governamental são fundamentais para isso.
No domingo que antecedeu o início oficial da COP30, empresas como GWM, Itaipu Parquetec, Heineken e Grupo Náutica organizaram um coquetel, regado a drinks com frutas amazônicas, para recepcionar jornalistas, executivos e autoridades interessadas em conhecer seu barco movido a hidrogênio verde, o JAQ. Entre os presentes estavam o ministro do Turismo, o paraense Celso Sabino, e o prefeito de Recife, João Campos.
A embarcação, de 36 metros de comprimento, tem 14 cilindros armazenando 150 quilos de hidrogênio verde, que, quando passam por uma célula de combustível, dão origem à energia elétrica que permite o funcionamento da hotelaria do barco, como iluminação e ar-condicionado.
Hoje, o barco ainda se move a partir da queima de diesel, um combustível fóssil, mas a previsão é que em janeiro seja implantado um motor capaz de misturar diesel e hidrogênio. De acordo com os responsáveis pelo projeto, a mistura com 20% de hidrogênio verde permite evitar a liberação de até 80% dos gases de efeito estufa que a queima integral do diesel emitiria.
O próximo passo é desenvolver uma nova embarcação capaz de gerar seu próprio hidrogênio verde, o que permitirá ao projeto se desvincular de fornecedores do combustível ainda escassos no Brasil. A ideia é implantar, em 2027, um sistema de eletrólise dentro do barco capaz de dessalinizar e separar as moléculas da água do mar. A energia, nesse caso, pode vir tanto de placas solares quanto da própria rede elétrica, quando o navio estiver atracado.
"A queda recente da indústria do hidrogênio verde não me afeta, porque eu vou fabricar meu hidrogênio e vou fazer o meu caminho. Eu posso instalar placa solar na embarcação, mas também posso apenas ligar o barco na tomada", diz Ernani Paciornik, presidente do Grupo Náutica e entusiasta do projeto.
Por convenção global, o hidrogênio é considerado verde quando produzido a partir de energia solar ou eólica. Mas, no Brasil, como a rede elétrica chega a quase 90% de renovabilidade em determinados horários do dia, ele é considerado de baixo carbono quando gerado a partir da energia elétrica advinda do "grid", vinda sobretudo de hidrelétricas.
O Itaipu Parquetec, por exemplo, produz hidrogênio verde a partir de energia gerada pela usina de Itaipu. Técnicos do parque são considerados hoje alguns dos maiores especialistas nessa tecnologia no Brasil; eles participaram da fabricação do JAQ, além de desenvolverem sua própria embarcação, o Boto H2.
Essa última também foi apresentada em Belém durante a COP. Na última quarta-feira (12), o barco levou jornalistas de um terminal da capital paraense à turística ilha do Combú. Com apenas 9,5 metros de comprimento, a embarcação carrega seis cilindros de hidrogênio verde que dão a ela autonomia de até três horas navegando.
A operação é semelhante à do JAQ, no qual uma célula de combustível converte o hidrogênio em energia elétrica. Mas o Boto H2 também conta com um pequeno sistema de placas solares como backup.
O projeto foi desenvolvido para auxiliar a coleta de resíduos sólidos em rios do oeste do Paraná, onde está localizada a usina de Itaipu. "Os catadores fazem isso com barquinhos soltando CO2, o que não tem nenhum nexo. Então, como a gente já tinha a tecnologia, decidimos fazer um barco a hidrogênio verde para eles", diz Alexandre Gonçalves Leite, diretor de tecnologias do Itaipu Parquetec. O barco lançado na semana passada ficará com uma cooperativa de Belém, que tem 42 ilhas.
Para Leite, modelos de barcos menores com hidrogênio verde são mais eficientes e responsáveis ambientalmente que os elétricos, outra rota de descarbonização para o setor de navegação. "O hidrogênio é mais recomendável para esse tipo de operação, devido a pegada de carbono e a densidade energética. O elétrico precisa de baterias de lítio, que é muito difícil de ser reciclado", afirma. "Mas o problema dele é a falta de escala."
A falta de escala, aliás, impediu que a Fortescue, uma das maiores mineradoras do mundo, apresentasse seu navio cargueiro em Belém já abastecido com amônia verde, um combustível feito a partir da adição de nitrogênio do ar ao hidrogênio verde. A mineradora, de propriedade do bilionário Andrew Forrest, organizou um coquetel na semana passada com vários executivos e autoridades, inclusive o presidente da COP30, André Corrêa do Lago.
O navio tem 75 metros de comprimento e foi desenvolvido para navegar longas distâncias apenas com amônia verde. A ideia da mineradora, que tem vários projetos de hidrogênio verde no mundo, inclusive no Brasil, é usar em 2026 navios de amônia verde para transportar minério de ferro da Austrália para a China a principal rota da empresa. Neste momento, no entanto, a amônia que abastece a embarcação é de origem fóssil.
"O objetivo deste navio é validar o uso da amônia como combustível, que tem a mesma molécula, independentemente do nível de intensidade de carbono", diz Andrew Hoare, chefe de transporte marítimo verde da Fortescue. Para o ano que vem, a previsão da empresa é que a amônia verde venha de fabricantes no norte da China.
A embarcação da Fortescue, que foi embora de Belém na terça-feira (18), já esteve em portos dos EUA, da Europa e de Singapura, sempre como demonstração.
"Fazer essas demonstrações envolve muita interação com o governo e com as autoridades portuárias para fazê-los se sentirem confortáveis. Esta é a razão pela qual estamos aqui em Belém; queremos fazer as pessoas se sentirem confortáveis com essa amônia."
Além da amônia verde, o e-metanol, que também é feito a partir do hidrogênio verde, é tido como uma alternativa de descarbonização para o setor marítimo, responsável por 3% das emissões globais. Caminham ainda nesta corrida os biocombustíveis, uma aposta do governo e do agronegócio brasileiros.


