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Backer não tinha 'controle ou critério' para usar substância que causou mortes, diz delegado

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - A cervejaria Backer não tinha "controle ou critérios" para utilizar a substância apontada como a causa da morte de dez pessoas intoxicadas depois de consumirem a bebida Belorizontina, diz o delegado responsável pelas primeiras investigações do caso agora em julgamento em Minas Gerais.

A primeira fase do julgamento de três donos da fábrica --Ana Paula Lebbos, Munir Lebbos e Halim Lebbos-- e sete funcionários acusados de homicídio culposo (sem intenção) foi encerrada nesta quinta (26). Ao todo, foram ouvidas 27 pessoas, entre testemunhas de acusação e vítimas sobreviventes.

A próxima fase, ainda a ser marcada, será para ouvir testemunhas da defesa.

O suposto mau uso do dietilenoglicol consta em investigação da Polícia Civil e foi citado no depoimento prestado nesta quinta pelo delegado Flavio Grossi.

A Backer, segundo a corporação, utilizava o produto para resfriamento de tanques usados para armazenar a produção da Belorizontina. O dietilenoglicol era colocado em dutos que circulavam os compartimentos.

Conforme a Polícia Civil, a substância entrou em contato com a cerveja por buracos que existiam tanto nos dutos como nos tanques. As investigações apontaram que a causa das mortes foi via intoxicação pelo dietilenoglicol.

A Backer afirma nunca ter comprado a substância.

Em seu depoimento, o delegado afirmou que as apurações detectaram aumento nas compras de dietilenoglicol pela empresa e que a própria Backer já havia informado que o sistema de refrigeração que utilizava a substância era fechado e, portanto, o produto não deveria ser "consumido" no processo.

"A investigação concluiu que o sistema passou a necessitar de reposição do dietilenoglicol [para a refrigeração], mas não havia qualquer controle ou critério", disse o delegado, conforme divulgado pelo setor de comunicação do Fórum Lafayette, a primeira instância da Justiça de Minas Gerais em Belo Horizonte. A imprensa foi proibida de acompanhar os depoimentos na sala de audiências.

O delegado também afirmou ter estranhado que os acusados, "com grande conhecimento técnico do processo e qualificação técnica", não tenham se preocupado com esse aumento de necessidade da reposição do dietilenoglicol".

Grossi declarou ainda que a empresa foi omissa ao não suspender de imediato a comercialização da cerveja, mesmo depois de já identificada a contaminação.

A Backer contesta as investigações da Polícia Civil e cita o uso de monoetilenoglicol, e não de dietilenoglicol, em sua fábrica. "A perícia de engenharia em curso nos autos da ação civil pública demonstrará o equívoco do delegado. O consumo do monoetilenoglicol é absolutamente compatível com as atividades da empresa e jamais houve qualquer excesso de consumo", diz a empresa, em nota.

"O fato é que o delegado tirou as próprias conclusões sem considerar a expansão do parque industrial; os eventos em que o produto era utilizado para as chopeiras e os pontos de vendas nos quais também instaladas essas chopeiras, que também usavam o anticongelante para funcionar", afirma o texto.

A empresa também nega ter mantido a venda dos produtos após as notícias de contaminação. "Tão logo apontada pelos órgãos competentes, além de paralisada a comercialização, iniciou-se o recall", diz o comunicado.

Histórico Os primeiros casos de problemas de saúde associados ao consumo da Belorizontina começaram a surgir na capital mineira em janeiro de 2020.

No início foram tratados como síndrome nefroneural, por terem como principais características distúrbios neurológicos e paralisação no funcionamento dos rins.

Depois de troca de informações entre familiares das vítimas que estavam internadas e médicos foi identificado como ponto comum entre os pacientes o consumo da cerveja.

As autoridades sanitárias foram acionadas e a fábrica da Backer foi interditada. Houve ainda ordem para retirada dos produtos da marca no mercado.

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