A começar pelo badalado Anora , de Sean Baker, Palma de Ouro em Cannes, ao retratar a vida de uma garota de programa de origem russa, Ani, ou Anora (Mikey Madison), que exerce a profissão em Nova York e vive uma espécie de Uma Linda Mulher às avessas. Essa anti-Cinderela conhece um playboy russo, Ivan (Mark Eydelshteyn), desmiolado filho de um oligarca do pós-comunismo, e engata com ele um namoro que termina em casamento em Las Vegas.
Mas a história não termina aí, como poderão ver os espectadores desse filme dirigido por um cineasta que adora trabalhar com as margens da sociedade de seu país - vide os anteriores Tangerine e Projeto Flórida .
O questionamento da ilusão americana prossegue com A Cozinha , do mexicano Alonso Ruizplacios, que transforma os bastidores de um restaurante em Manhattan numa espécie de microcosmo ao retratar a vida de imigrantes hispânicos na "terra das oportunidades".
O filme é coral, isto é, distribuído em uma série de papéis que têm sua função dramática: há o negro americano que convive com seus companheiros de origens diversas, homens e mulheres vindos de vários países. Mas, se existe um polo narrativo, este é composto pelo casal Pedro (Raúl Briones) e Julia (Rooney Mara). Ele, cozinheiro temperamental vindo do México; ela, uma loira anglo-saxã de vida problemática, ambos vivendo um tormentoso caso de amor. O sonho se rompe num caso individual que vale como reflexão coletiva sobre uma situação de alta instabilidade.
Ruizpalacios, diretor de filmes como Güeros e O Museu , retrata com agudeza essas relações de exploração entre patrões e empregados fragilizados por não terem documentação legal. Elege esse polo assimétrico - a relação entre Pedro e Julia - como estopim de todas as contradições que encontram na cozinha do restaurante seu palco privilegiado.
PÓS-GUERRA
Outro exemplo é O Brutalista , de Brady Corbet, que, em suas 3h37 de duração, traz a saga nada heroica de László Tóth (Adrien Brody), imigrante húngaro que parece ter tirado a sorte grande ao poder usar, em terra americana, seu talento de arquiteto formado pela Bauhaus. Ele chega antes, no imediato pós-guerra, e tenta trazer da Europa para os EUA sua esposa Erzsébet (Felicity Jones). Trabalha para um milionário temperamental e racista, Len Van Buren (Guy Pearce), que o contrata para erigir um monumental centro de cultura em homenagem à mãe recém-falecida.
O filme é grandioso - tanto nos acertos quanto nos vacilos -, mas, considerações estéticas à parte, é um valioso testemunho de tudo o que exige uma terra de eleição dos seus novos moradores, vindos de países empobrecidos ou destroçados por uma guerra. Como definiu uma das personagens: "Este país (os EUA) nos apodrece por dentro".
Um quarto exemplo seria o distópico Megalópolis , de Francis Ford Coppola, que fecha a Mostra na quarta, com a presença do diretor, e estreia nos cinemas no dia seguinte. Pelo que se sabe, Coppola, autor da trilogia O Poderoso Chefão e do alucinante Apocalipse Now , compara a decadência do sonho americano à queda do império romano. É um projeto de 40 anos, que ninguém quis financiar e foi bancado pelo próprio diretor.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



