Antecipação de reforço contra Covid não tem base na ciência, dizem médicos

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

02/12/2021 20h07 — em Variedades

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Para infectologistas, a decisão do estado de São Paulo de antecipar a dose de reforço da vacina contra Covid não tem justificativa científica. O anúncio foi realizado nesta quinta-feira (2) e ocorreu por conta do surgimento da variante ômicron e pela proximidade com as festas de fim de ano.

Antes os paulistanos deveriam esperar cinco meses após a segunda dose para receber o reforço do imunizante. Agora a espera caiu para quatro meses.

O calendário de início das aplicações varia conforme o município. Na cidade de São Paulo, a nova medida passa a valer a partir desta sexta-feira (3) --será usado o imunizante da Pfizer, independentemente de qual produto tenha sido aplicado no esquema vacinal primário.

Renato Kfouri, pediatra e diretor da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), afirma que "não há nenhuma evidência para se fazer isso em indivíduos com menor idade".

"Temos dados que mostram que há uma perda de proteção acima de 50 anos --e com o passar do tempo. Essa perda é mais rápida de acordo com a vacina e a idade, então a Coronavac perde primeiro a proteção do que a AstraZeneca, assim como os idosos perdem primeiro", explica ele.

Kfouri afirma ainda que dados sobre perda de proteção contra o coronavírus para pessoas abaixo de 50 anos não existem no Brasil.

No entanto, o médico destaca que tomar o reforço mesmo com menor idade e no prazo mais curto não deve trazer malefícios às pessoas. "Todos vão precisar do reforço, mas nesse intervalo mais curto eu não vejo vantagem. Fazer um reforço com intervalo de cinco meses, privilegiando aqueles que mais precisam, é uma ideia melhor", diz.

"O programa de imunização se faz com estratégias, recomendações que não são mudadas a toda hora e com evidências. No Ministério da Saúde, a conta que fizemos é que até o final do ano estaríamos oferecendo dose de reforço para todos acima de 50 anos cinco meses após a segunda dose", afirma.

Quanto à ômicron, Kfouri diz que não há evidência, ao menos por enquanto, de que, com a nova variante, seja necessária uma mudança no esquema de vacinação.

"Não acho que é uma atitude que trará benefícios, só serve para criar confusão. As pessoas podem se perguntar 'por que São Paulo está fazendo assim?'. Parece que sempre querem criar um programa diferente do resto do país", completa.

Nesta quinta, após o anúncio do governo de João Doria (PSDB), membros do Ministério da Saúde informaram que atualmente a pasta não pretende recomendar a redução do intervalo de doses de cinco para quatro meses. Até o momento, dizem esses integrantes da pasta, não há benefícios comprovados dessa redução.

Ao informar o novo calendário, o governo paulista diz ter levado "em consideração que São Paulo é porta de entrada, via portos e aeroportos, de pessoas de todo o mundo e o Brasil ainda não tem a obrigatoriedade da apresentação de comprovante de esquema vacinal completo para os viajantes".

Raquel Stucchi, professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e consultora da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), concorda com Kfouri que faltam evidências para essa antecipação do reforço.

Para ela, já foi observado por cientistas que as pessoas até 50 anos mantêm uma proteção boa por até cinco meses, que passa a diminuir a partir de 60 e 70 anos. "Antecipar mais um mês parece um desperdício de vacina", diz ela.

De acordo com Stucchi, seria mais recomendável que o estado doasse doses para países que mais precisam.

"Outra atitude que o governo do estado de São Paulo deveria fazer é buscar quem não tomou a primeira dose e os faltosos da segunda dose. Esforços deveriam estar concentrados para isso e não ficar mudando a política", afirma.


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