RIO — Tradicional, sim. Conservadora, nem pensar. É com essa filosofia que a Mangueira levará este ano para o Sambódromo a primeira alegoria toda grafitada do carnaval na Sapucaí. Trata-se de um tripé, na verdade. Que, na Cidade do Samba, já ganha as cores e a marca do artista Tomaz Viana, o Toz, famoso por obras que modificam a paisagem urbana da cidade. Na Avenida, comporá o visual de uma verde e rosa “moderninha”, como o carnavalesco Leandro Vieira costuma definir esta nova fase da escola.
Foi dele a ideia de convidar Toz — que nunca havia pisado num barracão — para se juntar à missão da Mangueira de buscar o bicampeonato. Dentro do enredo sobre a fé popular (“Só com a ajuda do santo”), o tripé concebido para o artista pintar virá no setor da umbanda e retratará o malandro. Mas Leandro não queria representar o personagem em seu arquétipo mais comum.
Já que a malandragem é que comanda o universo da rua, ele pensou em recriar alegoricamente um casarão da Lapa, de arquitetura antiga, mas grafitado — como realmente são alguns deles no bairro boêmio atualmente. Em meio aos personagens de Toz, surge o malandro, imponente na fachada.
— As alas em volta trazem outras entidades da umbanda, como os caboclos, os boiadeiros e os pretos velhos. Todos coloridos, moderníssimos também, com inspiração, por exemplo, numa África pop — afirma Leandro, contando por que resolveu inserir o grafite na Sapucaí. — Minha formação é de artes plásticas. E, como carnavalesco, minha ideia tem sido dialogar com um universo contemporâneo, fazendo uma espécie de coletivo artístico. O grafite faz parte disso. Mas haverá outras referências à arte urbana no desfile — adianta ele.
Toz, acostumado com muros, paredes, quadros em galerias de arte e painéis em lugares como a sede da Nações Unidas, em Genebra, se animou logo com a possibilidade de experimentar uma nova plataforma para seu trabalho. Nas últimas semanas, ele tem dado expediente na Cidade do Samba com dezenas de latas de spray. E enquanto grafita, presta atenção a tudo no seu entorno, um universo diferente para ele.
— São impressionantes a capacidade de improviso e os materiais que eles usam. Tenho feito muitas esculturas com produtos mais pesados. No barracão, eles fazem igual, só que com isopor. Estou aprendendo muito aqui dentro. E levando para meu trabalho várias inspirações de cores, técnicas, formas... Como o nome já diz, está sendo uma escola de samba para mim — diz Toz.
Mas, apesar de estar se aventurando num mundo tão diferente, o grafiteiro também vê semelhanças entre o que ele e os artistas da folia fazem:
— Além de meu trabalho ter uma relação com a brasilidade, minha arte também é efêmera. A do carnaval é feita para durar o desfile. Quando faço um painel num muro, não sei quanto tempo vai durar nem se vou virar as costas e um sujeito vai lá apagar.
Leandro e Toz chegaram à concepção final do tripé juntos. Eles ainda guardam segredo sobre o resultado final da alegoria. Afinal, é preciso manter o elemento surpresa. Mas já dá para ver que estará lá um dos personagens mais recorrentes na obra de Toz, o Shimu, com suas caras redondas, coloridas e sorridentes, que também estão espalhadas pelas ruas do Rio.



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