Vigilância da ditadura militar a movimentos negros é resgatada em pesquisas

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

28/11/2021 11h03 — em Política

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Do bloco afro Ilê Aiye, na Bahia, ao grupo gaúcho Palmares, que idealizou a criação do Dia da Consciência Negra, organizações negras despertavam desconfiança de agentes da ditadura militar (1964-85) nos anos 1970 e foram espionadas e vigiadas pela repressão ao longo daquele período.

Pesquisas acadêmicas pelo país têm resgatado nos últimos anos detalhes e motivações do acompanhamento mantido à época pelos órgãos de inteligência do regime.

Um dos aspectos mais levantados nos trabalhos é a persistente preocupação dos militares com grupos culturais da comunidade negra, como o Ilê Aiye e os bailes black, que viraram moda no período seguindo a tendência americana.

O pano de fundo dessa vigilância, diz a pesquisadora Marize Conceição de Jesus, era a preocupação do regime com o acirramento do "antagonismo racial" no Brasil que, para os fardados, vinha sendo difundido nessas manifestações culturais.

A estética, os penteados, as roupas coloridas -e o consequente reforço da identidade negra- eram compreendidos como um questionamento ao discurso governista de que havia no Brasil uma "democracia racial", ideia ainda hoje comum nas Forças Armadas.

Conceição produz tese de doutorado na Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) com o tema "olhar do SNI (Serviço Nacional de Informações) sobre o movimento negro" no Brasil. O trabalho será concluído em 2022.

"Era um período em que essas questões estavam em voga no mundo inteiro. A luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, a emancipação de colônias africanas: era uma discussão mundial. Havia uma grande preocupação de que houvesse um despertar da questão racial no Brasil", diz ela.

Nos arquivos de documentação do antigo SNI, há dossiês sobre as organizações negras, fichamentos e dados sobre infiltração de agentes.

Um dos memorandos, por exemplo, elaborado em 1977, relata show do cantor Tony Tornado em São Paulo com jovens "em sua quase totalidade negros, com camisas extravagantes".

Dizia que o movimento black pregava a discórdia, o "preconceito racial" e "o desentendimento nocivo à comunidade brasileira", seguindo um padrão americano.

Para Conceição, os movimentos culturais "não deixavam de ser políticos".

"A fala dessas lideranças chama a juventude para a consciência racial, a compreender o lugar do negro na sociedade brasileira, discussões em torno dessa questão. É monitorado porque há toda essa lógica de possibilidade de conflito racial."

A quantidade de documentos a respeito da questão racial, segundo a pesquisadora, tem um salto no fim dos anos 1970, com a criação do MNU (Movimento Negro Unificado).

A carta de fundação foi lida em ato no centro de São Paulo, em julho de 1978, com cerca de 2.000 pessoas. Era uma reação ao assassinato de um trabalhador negro pela polícia e à discriminação vivida por jovens em um clube de regatas.

Além da ampla vigilância de agentes do regime, segundo Conceição, houve episódios de censura a grupos teatrais. Em uma ocasião nos anos 1970, o governo mandou as autoridades baianas retirarem o apoio a um congresso de culturas negras em Salvador.

Conceição afirma que outro foco dos órgãos de inteligência era o monitoramento do que era dito no exterior a respeito da questão racial brasileira.

Nessa área, um dos casos mais simbólicos foi o do ativista Abdias Nascimento (1914-2011), intelectual e fundador do Teatro Experimental do Negro, que passou 13 anos exilado e se manifestava sobre a situação do negro brasileiro.

O regime via possível efeito sobre a imagem do país em decorrência das críticas à tese de que havia uma "harmonia" no Brasil nesse aspecto.

"Todo o respirar de Abdias é monitorado. E o tempo todo classificado como comunista, o que ele nunca foi."

No Sul do país, também há trabalhos acadêmicos que apontam que uma das organizações mais atuantes do movimento negro à época era seguida de perto pelo aparato repressivo.

O grupo Palmares, fundado em 1971 e composto em grande parte por universitários, foi o idealizador da celebração do 20 de novembro --data da morte de Zumbi em 1695 e hoje feriado em muitas cidades.

A pesquisadora Greice Adriana Macedo, que apresentou dissertação de mestrado em 2020 na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) sobre a entidade, diz que havia vigilância sobre os líderes e as viagens feitas para difundir a ideia da criação da data.

Como estratégia para evitar essa perseguição, os nomes de membros eram omitidos de estatutos e registros mantidos pela organização.

"Pessoas negras naquele momento, reclamando do que acontecia, significava que o governo estava dando errado", diz ela.

Também no Rio Grande do Sul o monitoramento feito pelo aparato estatal das manifestações culturais era constante, diz a pesquisadora, que hoje desenvolve trabalho de doutorado.

"As escolas de samba [de Porto Alegre] foram as que sofreram mais policiamento ostensivo, a cada evento. Clubes sociais que não eram negros não tinham esse policiamento. Muitos deviam estar à paisana, disfarçados, entre a população."

Em São Paulo, a Comissão da Verdade do estado, criada para apurar crimes do regime, publicou em seu relatório, em 2015, um capítulo que analisa a perseguição aos movimentos negros.

O trecho dizia que "qualquer manifestação cultural, política, reivindicação ou atitude política de oposição, que viesse de encontro com os padrões estabelecidos da ordem vigente, poderia ser considerada subversiva e cuidadosamente vigiada e duramente reprimida".

Afirma que relatórios do regime atribuíam a luta contra o racismo a uma infiltração, nessas organizações, da esquerda socialista.

O aparato de vigilância do regime era centralizado no SNI, criado após o golpe de 1964 e extinto em 1990. Seus braços de espionagem se espalhavam por centenas de órgãos e repartições do governo em todo o país.

O professor de história da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Carlos Fico, que pesquisou as engrenagens do SNI e sua documentação, diz que havia a preocupação do regime de monitorar "todo tipo de manifestação social".

Para o professor, é visível nos papéis um incômodo dos agentes da ditadura com o que soasse "liberalidade excessiva" já que havia entre os agentes "um grande moralismo, típico da direita brasileira".

"Eles se incomodavam muito com a expressão artística, roupas diferenciadas, cabelo comprido, movimento hippie, imprensa gay. Acompanhavam mesclando olhares preconceituosos em relação ao comportamento com a preocupação mais estritamente política. As duas coisas estavam presentes."

Andersen Figueiredo, que fez pesquisa de mestrado em história na UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia) sobre os movimentos negros baianos, diz que havia na ditadura duas correntes de mobilização: uma mais política, que pregava mais o enfrentamento, e outra culturalista, que mirava uma ação com base "na formação de uma identidade comunitária, coletiva".

O trabalho acadêmico, concluído em 2016 e que tem por base depoimentos dos militantes, será editado em um livro chamado "Ativismo Negro em Salvador".

"Apesar desse embate entre setor político e setor cultural, existia uma mesma meta que era desmistificar a ideologia da democracia racial."

Ele afirma que houve repressão nas ruas a um bloco cultural de perfil mais crítico, sob o argumento de que promoviam baderna.

Figueiredo diz que o legado da mobilização naqueles anos foi a aproximação com os partidos mais à esquerda, já no período de redemocratização, com uma atenção maior às pautas desses grupos e ocupando mais espaços políticos.

"Foi a militância na década de 1970 que propiciou conquistas que hoje negros têm."


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