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Nome de Lira para TCU tem ligação com chefes da saúde yanomami sob Bolsonaro

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Reeleito para a presidência da Câmara com apoio recorde, Arthur Lira (PP-AL) usou seu capital político para emplacar no TCU (Tribunal de Contas da União) um deputado com conexões com coordenadores do órgão responsável pela saúde yanomami no governo Jair Bolsonaro (PL).

O nome de Lira para o cargo é o deputado Jhonatan de Jesus (Republicanos-RR). Ele venceu a disputa na Câmara para a vaga no TCU ao receber o voto de 239 deputados --seus rivais, o ex-deputado Fábio Ramalho (MDB-MG) e a deputada Soraya Santos (PL-RJ) receberam 174 e 75 votos, respectivamente. Agora, a indicação do deputado precisa ser confirmada pelo Senado, em sessão prevista para esta quarta-feira (8).

Jhonatan e o pai, o senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR), têm ligações com três dos últimos coordenadores do Dsei (Distrito Sanitário Especial Indígena) yanomami: Francisco Dias Nascimento, Rômulo Pinheiro e Ramsés Almeida.

O Dsei é criticado por má gestão nos últimos anos, o que contribuiu para o agravamento da crise envolvendo os indígenas.

Jhonatan e Mecias são citados em apuração sobre o desvio de verbas para o combate à Covid-19, além de serem abertamente defensores do garimpo.

Procurados pela reportagem, Jhonatan e Nascimento não responderam. A reportagem não conseguiu entrar em contato com Pinheiro e Almeida.

Mecias, por sua vez, afirmou que não há ligação entre sua família e os coordenadores do Dsei yanomami. "Temos fotos com milhares de pessoas das mais diversas matizes sociais sem que isso implique qualquer relação da maneira que vocês estão insinuando", disse o senador.

Major da reserva, Nascimento foi chefe do Dsei entre julho de 2019 e junho de 2020, conforme consta no Portal da Transparência. Meses depois, em dezembro de 2020, foi nomeado auxiliar parlamentar no gabinete de Mecias e lotado para trabalhar na presidência do Republicanos.

Após sua saída, quem assumiu a saúde yanomami foi Rômulo Pinheiro, que ficou no cargo entre julho de 2020 e o início de 2022. Ele é filho de Socorro Pinheiro, que em 2018 concorreu a deputada estadual por Roraima na mesma chapa de pai e filho --inclusive, todos eles promoveram eventos juntos e dividiram santinhos, como mostram fotos nas redes sociais.

A principal fornecedora para a campanha de Socorro foi a empresa J. Pereira de Jesus, que está no nome das filhas de Mecias, irmãs de Jhonatan.

Ramsés Almeida sucedeu Rômulo no Dsei, de janeiro a novembro de 2022, justamente o período de forte agravamento na situação sanitária da Terra Indígena Yanomami.

Em 2020, tentou se reeleger vereador em Mucajaí (RR) pelo Republicanos de Jhonatan e Mecias, mas acabou como suplente. Os três aparecem juntos em fotos de eventos públicos e reuniões.

Jonathan é citado em um julgamento do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre desvio de verbas destinadas ao combate à pandemia. Uma petição cita o caso de uma licitação para compra de testes rápidos com R$ 5 milhões de emendas parlamentares direcionadas justamente por ele e por Mecias.

Segundo depoimento de um integrante da Secretaria de Saúde no estado, ele teria sido pressionado a favorecer aliados do deputado nos contratos.

O episódio teria ocorrido em uma reunião com um vereador e um empresário. Em uma ligação, o deputado "teria confirmado ao denunciante" que ambos "atuariam em seu nome" no processo licitatório.

Foi durante as gestões dos apadrinhados por Jhonatan e Mecias que a situação de saúde da região chegou ao ponto de o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decretar estado de emergência, após o alastramento da malária, da desnutrição e da contaminação dos rios --consequências do avanço do garimpo ilegal na Terra Indígena.

A ligação de Jhonatan com envolvidos na crise yanomami repercutiu negativamente na campanha do deputado ao TCU.

Caso ele seja confirmado para o tribunal, poderá ficar no cargo por até 36 anos.

Lira convocou a eleição para a vaga no TCU como um dos primeiros atos após sua recondução ao comando da Casa.

O presidente da Câmara apontou Jhonatan como seu nome para a disputa nas reuniões que realizou com bancadas estaduais para pedir voto à sua reeleição. O candidato ao TCU participou de muitas delas, pedindo apoio aos colegas.

Jhonatan e Mecias são investigados na operação Yoasi, de novembro de 2022, que apura aparelhagem política, fraude em licitações e desvio de dinheiro e medicamentos a saúde indígena.

Em dezembro do ano passado, o Ministério Público Federal pediu que o Ministério da Saúde realizasse uma intervenção no Dsei yanomami e nomeasse para ele um interventor.

Segundo o MPF, "a gênese de todas essas irregularidades decorre da preponderância de critérios políticos sobre os técnicos para as nomeações dos coordenadores distritais".

"Os últimos dois titulares do Dsei yanomami [Pinheiro e Rômulo] eram agentes sem nenhuma experiência em saúde pública ou povos indígenas e que o traço comum a ambos é o estreito enlace com atores políticos locais", segue a recomendação do procurador Alisson Marugal.

Mecias de Jesus também é autor de um projeto de lei para a liberação do garimpo em terras indígenas.

O senador afirmou à reportagem que não defende nenhuma atividade ilegal e que seu projeto "visa coordenar os interesses dos vários atores envolvidos com o objetivo maior de pacificar a relação indígena-garimpeiro em todo o Brasil".

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