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Ex-chefe do Exército foi criticado por bolsonaristas por submergir em reuniões sobre golpe

Por Folha de São Paulo

10/02/2024 10h30 — em
Política



BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Comandante do Exército no fim do governo Jair Bolsonaro (PL), o general Marco Antônio Freire Gomes, 66, se ausentou do cargo por uma semana em dezembro de 2022 após a morte de sua mãe, Maria Freire Gomes.

Militares aliados de Bolsonaro usaram o afastamento de Freire Gomes para criticá-lo e acusá-lo de falta de firmeza —já que, no momento em que ele deixou Brasília, o ex-presidente discutia planos para um golpe de Estado com auxiliares.

A crise militar e o luto fizeram Freire Gomes submergir, segundo generais ouvidos pela reportagem. As conturbações foram apresentadas pelo ex-comandante como justificativa para entregar o cargo antes da posse de Lula (PT).

A posição da maioria do Alto Comando do Exército contra o golpe, porém, já estava consolidada —e foi repassada por Freire Gomes para Bolsonaro e aliados que queriam reverter o resultado da eleição de Lula, ainda segundo fontes militares.

"A culpa pelo que está acontecendo e acontecerá e [sic] do Gen FREIRE GOMES. Omissão e indecisão não cabem a um combatente", escreveu Braga Netto em mensagem encontrada pela Polícia Federal. O ex-ministro ainda chamou o chefe militar de "cagão".

A avaliação de integrantes da cúpula do Exército é a de que Freire Gomes articulou nos bastidores contra a escalada golpista de Bolsonaro. Em oposição, investigadores da Polícia Federal avaliam se a decisão do comandante militar de se manter em silêncio sobre os planos antidemocráticos que estavam sendo debatidos pode configurar omissão.

Freire Gomes assumiu o Comando do Exército em 31 de março de 2022 —aniversário do golpe militar de 1964. Para ocupar o principal posto da Força, ele decidiu recusar um acordo pré-estabelecido para que fosse nomeado ministro do STM (Superior Tribunal Militar).

É comum que generais de quatro estrelas, que compõem o Alto Comando do Exército, fechem acertos internos para ocupar cargos quando passam para a reserva. Era o que estava previsto com os generais Freire Gomes, Valério Stumpf (indicado para presidência da Poupex) e Estevam Theophilo (indicado para assessoria militar da representação do Brasil na ONU, entendimento que acabou cancelado).

No comando do Exército, Freire Gomes teve momentos de aproximação e distanciamento de Bolsonaro. Em agosto de 2022, Dia do Soldado, por exemplo, o general afirmou em evento com o então presidente que "notícias infundadas e tendenciosas" não poderiam manchar a imagem da Força.

O discurso foi lido como um aceno à pauta crítica à imprensa promovida por Bolsonaro.

Freire Gomes também teve papel central na definição da política do Exército de não criar resistência para o estabelecimento de acampamentos golpistas em frente a organizações militares —como o quartel-general da Força, em Brasília.

Ele disse a generais próximos que a decisão foi tomada por Bolsonaro, mas não apresentou oposição. Pelo contrário, em 11 de novembro, Freire Gomes assinou nota com os demais chefes militares em tom crítico ao Judiciário.

De volta a Brasília após o afastamento por razões familiares, Freire Gomes ficou irritado em 29 de dezembro quando a Polícia Militar do Distrito Federal e a agência de fiscalização fizeram uma operação para o desmonte de estruturas do acampamento golpista em Brasília.

A PM foi recebida com pedras e paus, e algumas pessoas chutaram os carros oficiais. A operação foi abortada.

Com a escalada de tensão, Freire Gomes ligou para o general Gustavo Dutra, chefe do Comando Militar do Planalto, e o chamou de irresponsável e inconsequente. Segundo relatos, o ex-comandante ainda disse que Bolsonaro sairia do Brasil no dia seguinte —e uma operação de desmonte mal-ajambrada poderia incendiar os ânimos.

Logo após a derrota na eleição, Bolsonaro decidiu ficar isolado no Palácio da Alvorada. Até seu ajudante de ordens, Mauro Cid, aproveitou o período para viajar com a família e tirar férias não programadas por São Paulo, Rio de Janeiro e Goiânia.

Freire Gomes, porém, passou a ser chamado semanalmente para reuniões com Bolsonaro, segundo relatos de generais e agendas do Palácio da Alvorada enviadas à CPI do 8 de janeiro.

Nos encontros, segundo a Polícia Federal, Freire Gomes ouviu planos de golpe de Estado e viu a minuta de decreto formulada por integrantes do governo Bolsonaro.

"O presidente tem recebido várias pressões para tomar uma medida mais, mais pesada, onde ele vai, obviamente, utilizando as Forças, né? Mas ele sabe, ele ainda continua com aquela ideia que ele saiu da última reunião, mas a pressão que ele recebe é de todo mundo. Ele está… É cara do agro. São alguns deputados, né? É né… Então é a pressão que ele tem recebido é muito grande. E hoje o que que ele fez hoje de manhã? Ele enxugou o decreto né? Aqueles 'considerandos' que o senhor viu e enxugou o decreto, fez um decreto muito mais é resumido, né?", disse Mauro Cid a Freire Gomes, em mensagem encaminhada em 9 de dezembro de 2022.

A reportagem tentou contato com Freire Gomes, mas não obteve resposta.


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