Doria deixa Bolsonaro em segundo plano e aposta em antipetismo ao se inscrever em prévias do PSDB

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

20/09/2021 20h05 — em Política

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O governador de São Paulo, João Doria, se inscreveu, nesta segunda-feira (20), nas prévias presidenciais do PSDB fazendo críticas aos governos do PT e afirmando que o antipetismo será predominante em sua eventual campanha à Presidência da República.

Doria também alfinetou o governo do presidente Jair Bolsonaro, mas de forma menos incisiva. ​

As prévias tucanas estão acirradas entre Doria e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Ambos são defensores do impeachment de Bolsonaro —posição rechaçada por boa parte da bancada de deputados do PSDB, que hesita em fazer parte da oposição por depender de votos de bolsonaristas e verbas do governo federal.

Apesar de o presidente do partido, Bruno Araújo, ter convocado uma reunião de dirigentes que definiu que o PSDB é oposição a Bolsonaro, os deputados não levaram adiante discussões sobre crimes de responsabilidade do presidente. A resolução de que a sigla faz oposição veio após os discursos golpistas de Bolsonaro no 7 de Setembro.

Nesta segunda também venceu o prazo de inscrições para prévias do PSDB ao governo de São Paulo —o vice-governador, Rodrigo Garcia (PSDB), já havia apresentado inscrição. O ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), que pretende disputar mais um mandato à frente do Palácio dos Bandeirantes, não se inscreveu —vai deixar o partido e deve ingressar no PSD.

Durante a manhã, Doria foi o primeiro tucano a se inscrever nas prévias nacionais, na sede do PSDB em Brasília. Além de Doria e Leite, também se inscreveram o senador Tasso Jereissati (CE) e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio —os dois últimos devem desistir até o final.

Ao fazer sua inscrição, Doria leu uma carta à nação em que faz críticas diretas aos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT) e indiretas a Bolsonaro.

"Os governos de Lula e Dilma representaram a captura do Estado pelo maior esquema de corrupção do qual se tem notícia na história do país. Fazer políticas públicas para os mais pobres não dá direito, a quem quer que seja, de roubar o dinheiro público. Os fins não justificam os meios", disse Doria.

Questionado se o antipetismo fará parte de sua campanha, Doria afirmou que sim. "Esse antipetismo será predominante dentro da nossa campanha, com muita clareza", disse.

​Em referência velada a Bolsonaro, o tucano afirmou que "os tempos são de retrocesso". "Retrocesso institucional, democrático, econômico, ambiental, social, político e moral. Nossas instituições têm sido atacadas, mas dão provas de independência e coragem ao defenderem o que temos de mais sagrado: respeito à Constituição, ao Estado democrático de Direito, com eleições livres, diretas e com voto eletrônico."

Ao final da carta, voltou a fazer críticas implícitas a Bolsonaro e ao PT.

"Vamos [...] investir no equilíbrio e harmonia entre os Poderes, como valor inatacável ao Estado democrático de Direito. Trabalharemos por um Brasil mais digno e justo, que recupere seu prestígio internacional e atue na vanguarda do processo civilizatório. [...] Unidos venceremos a corrupção e a incompetência. Venceremos as trevas e o negacionismo", afirmou.

À imprensa, ao falar sobre o impeachment de Bolsonaro, Doria afirmou: "pela democracia, pelas liberdades, pelo Estado democrático de Direito, eu estarei no palanque com todos aqueles que fizerem essa defesa".

O governador, no entanto, não participou de manifestações da esquerda pela saída do presidente. Ele esteve, no último dia 12, em protesto pelo impeachment organizado pelo MBL (Movimento Brasil Livre) e pelo Vem Pra Rua.

O governador também elogiou Araújo pela iniciativa de declarar que o PSDB é um partido de oposição.

Doria afirmou ainda, em seu pronunciamento, que o candidato que vencer as prévias do PSDB deverá ser o candidato presidencial da chamada terceira via. As articulações a favor de Leite ou de Doria dentro do PSDB já levam em conta qual dos dois teria mais capacidade de atrair os partidos desse mesmo campo.

Segundo tucanos, hoje Leite tem mais condições de unir siglas aliadas em seu entorno, enquanto Doria é uma figura de maior resistência. O receio de parlamentares do PSDB é o de que o paulista, caso vença as prévias, insista em ser candidato de qualquer forma, mesmo num cenário de fragmentação, o que só contribuiria para um segundo turno entre Lula e Bolsonaro.

"Ao término das prévias, [...] teremos um candidato vencedor. E esse candidato vencedor das prévias do PSDB será naturalmente um candidato da terceira via, da melhor via. Porque ele estará legitimado pelas prévias. [...] Terá toda legitimidade para, ao lado de Bruno Araújo, dialogar com as lideranças dos demais partidos, com o centro democrático liberal e amplo que esteja distante dos extremismos de esquerda e de direita", disse Doria.

Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (17) mostra que tanto Doria quanto Leite marcam 4% das intenções de voto –bastante atrás do ex-presidente Lula (PT, com 44%) e de Bolsonaro (com 26%). Em cenários variados, Doria chega a 6%.

O gaúcho, que é menos conhecido da população, leva vantagem no índice de rejeição, que é de 18%, contra 37% de Doria.

Questionado sobre o fato de a vacinação, que foi viabilizada no Brasil a partir do governo Doria, não ter alavancado sua candidatura, o governador afirmou que "isso virá ao longo dos próximos meses, naturalmente, com o processo de vacinação se ampliando".

​Doria afirmou também que a população só começará a pensar em eleição em 2022.

Em suas falas, Doria acenou aos demais adversários nas prévias, buscando pacificação interna. Reportagem do jornal Folha de S.Paulo deste domingo (19) mostrou que evitar um racha na sigla é uma preocupação dos tucanos.

"Será uma disputa sem fraturas. Foi assim em 2016, em 2018, e será assim em 2022", disse Doria. Na verdade, porém, as prévias anteriores do PSDB, das quais ele participou, foram marcadas por divisões.

A de 2016 causou a desfiliação de Andrea Matarazzo (PSD), que acusou Doria de compra de votos. Houve ainda, na ocasião, pancadaria entre apoiadores de Ricardo Tripoli (PSDB) e Doria em um dos pontos de votação. Na confusão, um apoiador de Doria caiu e chegou a perder a calça. Ao menos um homem, um adolescente e duas mulheres se feriram.

Araújo afirmou que as prévias primeiro dividem o partido, mas que haverá união ao final. "O líder escolhido irá conciliar posições e trazer a unidade. ​[...] Temos homens públicos maduros e estou confiante de que vamos sair unidos", disse o presidente da sigla.

Ainda nesta segunda, em Brasília, Doria participou de almoço organizado pelo senador Izalci Lucas (DF) em seu apoio e de um jantar com militantes tucanos.

Tasso e Leite fizeram a inscrição de maneira remota. O governador gaúcho, que participou nesta segunda dos festejos farroupilhas, tradição no Rio Grande do Sul, estará na capital federal nesta terça-feira (21) e será recebido em um jantar de apoio organizado pelo deputado Adolfo Viana (BA).

Em São Paulo, o prazo para inscrição nas prévias estaduais também se encerrou nesta segunda com apenas Garcia inscrito. A ideia das prévias paulistas era promover uma competição entre o vice-governador e Alckmin pela vaga de candidato tucano.

Aliados de Alckmin, porém, afirmam que o processo está desenhado para beneficiar Garcia, que é o candidato apoiado por Doria. O Datafolha mostra que Alckmin lidera a corrida, com 26%, enquanto Garcia marca 5% em cenários distintos.

As articulações de Alckmin para sua candidatura o aproximaram do PSD, de Gilberto Kassab, e do PSB, de Márcio França. A ideia é repetir a chapa com França como vice. O ex-governador ainda não anunciou formalmente a saída do PSDB e sua nova filiação. No sábado (25), Alckmin, França e Kassab estarão juntos em evento partidário que pode selar a aliança.

Na disputa pela vaga ao Senado, em São Paulo, o presidente do PSDB paulistano, Fernando Alfredo, registrou formalmente, nesta segunda, seu interesse em ser candidato.


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