SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O cancelamento dos debates antes do primeiro turno entre os candidatos a prefeito de São Paulo no SBT, na Record e na CNN Brasil deixou frustradas as campanhas dos adversários de Celso Russomanno (Republicanos), por considerarem que o cenário favorece a estratégia do atual líder nas pesquisas. O deputado federal e apresentador de TV, que segundo o Datafolha alcança 29% das intenções de voto, adotou uma tática de exposição controlada na campanha eleitoral, para evitar o derretimento que o acometeu nas tentativas anteriores de chegar à prefeitura, em 2016 e 2012. Aliados chegaram a aconselhá-lo a se ausentar de todos os debates, mas ele compareceu ao único encontro realizado até agora, o da Band, na quinta-feira (1º). Nos bastidores ou em público, marqueteiros e coordenadores da campanhas ouvidas pela Folha reagiram negativamente à escassez de debates. Embora reconheçam a dificuldade de fazer os encontros em meio à pandemia, eles dizem que as iniciativas ajudam a esclarecer o eleitor e são vitrines para os postulantes. A avaliação é a de que os cancelamentos podem beneficiar Russomanno, ao poupá-lo de ter explicar suas propostas -a promessa de criar o auxílio emergencial paulistano, por exemplo, é considerada frágil-- e questões da vida pessoal e da atividade parlamentar que já o desgastaram nos pleitos anteriores. Adversários consideram ainda que, levando em conta sua atuação no encontro da Band, o deputado não tem bom desempenho nesses embates e, após cada programa, poderia ver reduzida sua vantagem nas pesquisas. Russomanno tem contrato com a Record, onde apresenta o quadro "Patrulha do Consumidor", e estava no ar até agosto deste ano -o limite permitido pela lei eleitoral. Ele só oficializou a candidatura no último dia do prazo da Justiça Eleitoral, em 16 de setembro. A assessoria de Russomanno divulgou nota na semana passada para informar que o deputado só compareceria a debates com a presença de todos os postulantes que, por lei, têm direito a participar (10, de um total de 14 candidatos)-Russomanno também já anunciou que não participará do debate Folha/UOL, marcado para 11 de novembro. A regra eleitoral determina que todos os candidatos cujos partidos tenham elegido ao menos cinco representantes na Câmara dos Deputados devem ter a participação assegurada nos debates nas TVs. O excesso de concorrentes foi um dos obstáculos encontrados pelas emissoras de TV na organização dos programas, assim como as medidas para evitar a disseminação do novo coronavírus. Ao contrário dos adversários, o marqueteiro da campanha de Russomanno, Elsinho Mouco, diz não haver prejuízo ao eleitor pela ausência de debates. Na avaliação dele, a quantidade de concorrentes fez com que o tempo de cada um fosse insuficiente para explicar propostas e só possibilitou ataques. "O formato da Band mostrou que fica inviável. É um 'debício', debate com comício. Em 30 segundos só dá para atacar, não dá para desenvolver proposta, tanto que os candidatos chamavam para suas redes sociais para apresentar propostas", diz. A TV Globo, que usualmente tem o debate de maior audiência, sempre a três dias da votação no primeiro turno, por ora mantém a data prevista para o encontro (12 de novembro), mas a realização é considerada incerta. A Globo pretende fazer o evento somente com os quatro primeiros colocados nas pesquisas, mas a condição é rejeitada pelas campanhas --por lei, dois terços dos candidatos aptos a participarem devem concordar com as regras elaboradas pelas emissoras. Com isso, a tendência é que os únicos debates na TV durante o primeiro turno sejam o da Band, já ocorrido, e o da RedeTV!, que está marcado para 23 de outubro e continua mantido, segundo a emissora. O evento da Band transcorreu cercado de cuidados, como distância maior entre os debatedores, uso de máscara, ausência de plateia e limite de dois assessores por postulante. Em nota divulgada nesta terça-feira (6) para anunciar o cancelamento, a Record disse que "preza pela saúde de seus colaboradores e de seus convidados" e que, após consultar uma comissão de médicos, "entendeu que não há condições de promover o encontro com segurança". A emissora também cancelou o debate no Rio de Janeiro. A CNN Brasil também anunciou nesta terça ter desistido de fazer os encontros em São Paulo e no Rio de Janeiro. A emissora da TV paga disse que tomou a decisão "por não chegar a um acordo com os partidos sobre o número máximo de participantes". O plano do canal era restringir a seis a quantidade de candidatos no estúdio, "por medida de segurança". O SBT, ao cancelar os debates em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belém, disse que tomava a decisão "em virtude da pandemia e do elevado número de postulantes às prefeituras". A Globo, que também cancelou as entrevistas individuais que costumava fazer em seu telejornal local SPTV, afirmou em nota à Folha que "não há controle possível sobre os cuidados que os candidatos adotam para si", o que se reflete nos riscos de contaminação caso haja mais de quatro debatedores. Para a campanha do prefeito Bruno Covas (PSDB), que é candidato à reeleição e aparece em segundo lugar no Datafolha, com 20%, a ausência de debates vai reduzir um espaço que o tucano usaria para exaltar sua gestão e se defender de críticas dos oponentes. Auxiliares de Covas comentam que a exposição do prefeito nas ruas e em entrevistas poderá preencher essa lacuna, mas dizem que o embate frente a frente permite ao cidadão comparar os candidatos mais claramente. Entre membros da campanha, a avaliação é a de que Covas se saiu bem na Band e estava preparado para os debates. Os cancelamentos, dizem, são ruins para a democracia e favorecem Russomanno. Coordenador de comunicação da campanha de Jilmar Tatto (PT), o deputado estadual José Américo (PT) também afirma ser "ruim que as emissoras, que são concessões públicas, não cumpram seu papel social na democracia". Segundo Américo, a falta de embates beneficia não só Russomanno, mas também Covas --alvos de Tatto no encontro da Band. O petista, no entanto, também ouviu ataques a seu partido e seu padrinho político, o ex-presidente Lula (PT). A situação também foi lamentada no entorno de Márcio França (PSB), que apostava nos debates para repetir o desempenho alcançado em seus enfrentamentos com João Doria (PSDB) na disputa pelo governo do estado em 2018. "O cancelamento é bom para quem está na frente, para não ter que se expor", diz o marqueteiro da candidatura de França, Raul Cruz Lima. "E, para os outros concorrentes, é uma oportunidade a menos de aparecer." Para ele, debates ajudam a criar um clima de eleição e a despertar a população. O prejuízo da falta de debates é ainda mais sensível para concorrentes que possuem pouco tempo no horário eleitoral gratuito de TV e rádio. É o caso de Arthur do Val (Patriota). Sua campanha quer propor aos oponentes a realização de debates independentes para suprir a ausência dos espaços na TV. Os aliados de Arthur consideram que os debates o favorecem eleitoralmente -ele cresceu nas redes após o embate na Band. Marqueteiro da campanha de Guilherme Boulos (PSOL), Chico Malfitani diz que o candidato "é o maior prejudicado" pelos cancelamentos, por ser preparado para fazer as discussões. "Para mim, o cancelamento dos debates vem de uma submissão das emissoras de TV [ao governo federal], agora que ficou claro o apoio do Bolsonaro ao Russomanno. SBT e Record estão no campo do Bolsonaro", afirma Malfitani. Malfitani afirma ainda que, assim como o presidente da República --que foi a apenas dois debates de TV na eleição de 2018, ambos antes de sofrer a facada durante a campanha--, Russomanno "é o mais fraco nos debates, muito ruim". "É triste a população não ter acesso ao debate e a mídia não cumprir o seu papel de informar", diz o estrategista de Boulos. A opinião de que SBT e Record agem politicamente a favor de Russsomanno também é partilhada por membros do PT, por aliados de Joice Hasselmann (PSL) e por auxiliares de Arthur do Val. A Record, onde Russomanno apresenta seu programa, é ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, que também exerce grande influência no Republicanos, partido do deputado. Já o SBT tem relações com Bolsonaro --seu ministro das Comunicações é genro de Silvio Santos. Em nota à Folha, o SBT diz que "vincular o cancelamento do debate ao benefício a algum candidato é especulação que não encontra respaldo na realidade". A emissora reafirma que o cancelamento se deu por "excesso de candidatos e pandemia" e diz que a cobertura da eleição não se resume ao debate, mas se dá também por meio de entrevistas e reportagens diárias. Procurada, a Record não comentou até a publicação deste texto as afirmações dos adversários de Russomanno.