Bolsonaro usa teorias desmentidas para alegar fraude nas eleições e entra em contradição

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

30/07/2021 13h37 — em Política

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há alguns dias, o presidente Jair Bolsonaro vinha prometendo que, em live nesta quinta-feira (29), apresentaria provas de que as eleições de 2014 foram fraudadas.

Entretanto, mais de um ano depois de dizer que tinha provas de fraudes nas eleições de 2018 --afirmação que fez em março de 2020-- o presidente não apresentou nenhuma prova de fraude em nenhuma das duas eleições.

Bolsonaro apresentou vídeos da internet e teorias já desmentidas que circulam na internet, com cálculos errados, como supostas provas de fraude nas eleições. Admitiu, porém, que na verdade não tinha provas, apenas "vários indícios".

Ao fazer acusações de fraudes, sem ter provas, mesmo dizendo que tem, Bolsonaro reforça a ideia de que sua defesa do voto impresso é um meio de gerar desconfiança e um plano B para o caso de perder as eleições.

Qual é a contradição de Bolsonaro?

Apesar de diferentes especialistas na área de segurança e computação apontarem que o voto impresso aumentaria a segurança e transparência do sistema eleitoral brasileiro, as reiteradas acusações de fraude do presidente demonstram que sua preocupação, ao exigir o voto impresso, está mais em gerar desconfiança no processo eleitoral do que em melhorar a segurança das urnas efetivamente.

Um exemplo disso é que o presidente diz, desde março de 2020, que tem provas de que as eleições foram fraudadas. No entanto, durante a live em que apresentaria provas, Bolsonaro disse que tinha apenas indícios. "Um crime se desvenda com vários indícios. Vamos apresentar vários indícios aqui", disse.

Na primeira vez em que disse que apresentaria provas de fraudes o discurso era outro: "Eu acredito, pelas provas que eu tenho nas minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu fui eleito em primeiro turno", afirmou Bolsonaro na ocasião. "Nós temos não apenas uma palavra, nós temos comprovado. Nós temos de aprovar no Brasil um sistema seguro de apuração de votos", disse.

Outro exemplo é que boa parte da argumentação do presidente é centrada na fase da apuração dos votos, fase que não seria alterada com o voto impresso. Diferentemente do que Bolsonaro diz, a contagem das eleições hoje não é feita secretamente.

O momento da totalização dos votos já tem inclusive um recurso impresso para verificação: o boletim da urna.

A implementação do comprovante de voto impresso, de cada eleitor, não alteraria a segurança do momento da transmissão e totalização dos votos. A proposta impactaria o momento do registro do voto, quando o eleitor vota na urna.

Além disso, ele não se restringe a apontar possíveis melhorias da urna com dados corretos, mas se utiliza teorias mirabolantes e dados mentirosos.

Acusação de fraude em 2018

Bolsonaro utilizou a variação de seus percentuais durante a apuração nas eleições de 2018 como indicativo de que teria havido fraude. Também aponta essa informação para outras eleições, como na eleição para a prefeitura de São Paulo, em 2020.

No pleito de 2018, Bolsonaro chegou a marcar 49% dos votos quando as parciais começaram a ser divulgadas. Ele terminou com 46,03% dos votos.

Naquele momento o status da apuração por região divulgado pela televisão e mostrado na live de Bolsonaro era o seguinte: Norte (48,02%), Nordeste (43,93%), Centro-Oeste (73,51%), Sudeste (10,99%) e Sul (85,38%).

Bolsonaro aponta que o fato de o Nordeste estar mais adiantado e o Sudeste mais atrasado, sendo que neste último ele tinha vantagem, e sua porcentagem cair seria indício de fraude.

No entanto, nada disso faz sentido. "A evolução ao longo do tempo não tem significado algum exceto a ordem em que as urnas são apuradas", afirmou Leandro Tessler, professor do Instituto de Física Gleb Wataghin e membro do Grupo de Estudos de Desinformação em Redes Sociais (Edres) da Unicamp.

Além disso, se houvesse alguma adulteração dos resultados durante a apuração, isso poderia ser comprovado por meio de auditoria com os boletins de urna.

Isso porque, com uma fraude, os resultados impressos nos boletins não corresponderiam aos totais apresentados pelo TSE como resultados finais.

Os boletins são impressos quando as urnas eletrônicas são encerradas. Ou seja, nas seções eleitorais os resultados já são conhecidos e estão registrados em papel, o que ocorre depois disso é a transmissão dos resultados e a totalização.

O resultado das seções eleitorais são transmitidos ao TSE por meio de uma rede exclusiva da Justiça Eleitoral, o que impediria uma tentativa de interceptação por hackers.

Em que se baseia a acusação principal de Bolsonaro de que haveria fraude em 2014?

Para construir sua teoria de fraude no segundo turno das eleições de 2014, Bolsonaro diz que, por 240 minutos, Dilma e Aécio apareceram intercalados na apuração.

A tese é a mesma apresentada em vídeo de 2018 publicado por Naomi Yamagushi, então eleita como suplente no cargo de deputada federal pelo PSL, partido pelo qual Bolsonaro concorria à Presidência.

O nome do vídeo é "Prova das fraudes nas urnas! Exclusivo e Urgente" e foi postado dois dias antes do segundo turno, em que concorriam Bolsonaro e Haddad.

Nele, Naomi entrevista uma fonte anônima que diz ter encontrado um padrão nos dados divulgados minuto a minuto pelo TSE, no segundo turno de 2014, e que indicariam que houve fraude, pois tal padrão só poderia ser possível por meio do uso de um algoritmo.

Ao trazer esses números, o vídeo traz análises escritas como "início, sem o algoritmo acionado, compreendendo o cenário".

Tal tese foi desmentida por checagem da Agência Pública à época. Ao observar o gráfico com os votos apurados a cada minuto pelo TSE, é possível ver que não há um padrão, tampouco que Dilma e Aécio aparecem continamente intercalados por 241 minutos.

O que o gráfico mostra é que, no início da apuração, Aécio ganha sempre mais votos do que Dilma e que, a partir das 18h25, Dilma apresenta quase sempre um ganho maior de votos.

Na planilha mostrada no vídeo, no entanto, é possível ver que, além de utilizar uma metodologia que não é explicada, o homem faz contas erradas para chegar ao resultado em que Dilma e Aécio estariam intercalados.

Por exemplo, segundo os dados do TSE, às 17h05, Dilma ganhou 25.263 novos votos, enquanto no minuto anterior ela tinha ganhado 11.452 votos. Ao calcular o que chama de variação do incremento de Dilma, de um minuto para o outro, o resultado mostrado na planilha do vídeo é de 31.608, um número que não poderia indicar a variação entre os dois números anteriores.

O mesmo acontece com Aécio Neves. Às 17h05, Aécio ganhou 62.226 novos votos e, no minuto anterior tinha ganhado 23.206 votos. Ao calcular a variação do incremento de Aécio às 17h05, o autor do vídeo chega ao número 71.444, algo que também não faz sentido.

E é com base nesses cálculos errados de variação de incremento, ou seja a variação da variação, que o vídeo chega a conclusão de quem estaria levando vantagem a cada minuto da apuração.

Apesar de a própria metodologia em si ser questionável, especialistas consultados pela reportagem apontam que, de fato, seria bastante estranho caso tivesse havido valores de crescimento intercalados por 241 minutos, dado que seria algo muito improvável.

No entanto, nem mesmo com essa metodologia a alternância existiu, pois os cálculos não batem com os dados da apuração.

As supostas provas apresentadas pelo presidente não causaram surpresa. Ao longo do mês de julho, em entrevistas à imprensa e em conversas com apoiadores, Bolsonaro já vinha fazendo falas praticamente iguais às deste vídeo.

No vídeo, o homem que apresenta a susposta prova de fraude na urna afirma: "Se você jogar uma moeda e der cara e, na vez seguinte, der coroa; e na vez seguinte der cara; e na outra coroa... 241 vezes. É a mesma probabilidade".

"Momentos antes de as curvas se tocarem, era Aécio ganhou, Dilma ganhou, Aécio ganhou, Dilma ganhou, Aécio ganhou, por 271 vezes. É vocês jogarem uma moeda 271 vezes para cima e dar cara, coroa, cara, coroa, cara, coroa... Isso deve ser a quantidade de átomos aqui na Terra. Então isso é fraude. É fraude. É roubalheira".

Alteração nas porcentagens são indício de fraude?

Nesta mesma conversa, em 9 de julho, em conversas com apoiadores, Bolsonaro disse: "Minuto a minuto no segundo turno do Aécio Neves, começou o Aécio Neves lá em cima e a Dilma lá em baixo. Com o tempo essas curvas foram se cruzando até que se estabilizaram na horizontal com a Dilma na frente."

Assim como no vídeo, Bolsonaro coloca em dúvida a queda de Aécio, que nos primeiros minutos da eleição teria alcançado 67,7% dos votos.

No vídeo, tanto o entrevistado anônimo como Alexandre Chut tratam com estranheza que o candidato tucano tenha alcançado 67% dos votos no início da apuração e sofrido uma queda até ser ultrapassado por Dilma depois de 2 horas e meia de apuração.

Lógica semelhante à utilizada por Bolsonaro também em relação ao primeiro turno de 2018.

Nos primeiros minutos da apuração, de fato, Aécio tinha vantagem maior sobre Dilma. Essa variação, entretanto, não comprova nada.

Como a quantidade de votos apurados até aquele momento era baixa, poucas urnas com diferenças significativas entre os candidatos poderia representar uma grande variação na porcentagem, o que já não ocorreria mais perto do fim da apuração, em que é preciso um número maior de votos para impactar a porcentagem. Além disso, a distribuição dos votos de cada candidato varia conforme a região.

Às 17h05, Aécio tinha 67,7% dos votos contra 32,3% de Dilma. Até 17h05, no entanto, tinham sido apurados menos de 140 mil votos.

A título de exemplo, às 17h01, Dilma tinha 48,38% dos votos e Aécio tinha 51,52%, ao todo tinham sido apurados pouco mais de 5 mil votos. Ou seja, em menos de 5 minutos, ela também caiu de 48% para 32% e isso não é indicativo de fraude.

Aécio esteve à frente de Dilma em todas as parciais até às 18h25, depois disso, ainda que se mantenha à frente na porcentagem de votos, os votos apurados minuto a minuto começam a apresentar valores maiores para Dilma, que ultrapassa Aécio às 19h32.

Horários do início da transmissão dos votos:

17h: Sul, Sudeste, Goiás e Distrito Federal

18h: Nordeste, Amapá, Tocantins, Pará, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

19h: Roraima, Rondônia, e parte do Amazonas

20h: Acre e 13 municípios do Amazonas

"Enquanto os votos apurados vinham predominantemente dos estados das regiões Sul e Sudeste, onde Aécio Neves venceu, a apuração indicava a vitória parcial do candidato tucano. Mas, na medida em que começaram a ser computados os votos dos estados do Norte e do Nordeste, onde Dilma Rousseff obteve ampla vitória, esse placar foi mudando até que se consolidou numa vitória apertada da petista, com uma diferença de apenas 3,28% dos votos", afirmou o TSE em nota sobre o vídeo.

Como funciona a totalização dos votos?

O resultado das seções eleitorais são transmitidos ao TSE por meio de uma rede exclusiva da Justiça Eleitoral, o que impediria, segundo o tribunal, qualquer tentativa de interceptação por hackers.

Na planilha do vídeo de Naomi Yamagushi, aparecem pequenos comentários indicando que a variação de Aécio e Dilma seria explicada pela atuação de um algoritmo.

Nas primeiras linhas em que Aécio teria crescido mais, de acordo com a metodologia inventada pelo homem anônimo, a planilha possui comentários como "início, sem o algoritmo acionado, compreendendo o cenário".

Depois, entre 17h06 e 17h18, quando menos de 4 milhões de votos tinham sido apurados, a planilha indica "Quando viram que o Aécio estava muito à frente, acionaram o algoritmo com forte intensidade para reverter o quadro. (formação do bico com inversão de sentido e queda abrupta)".

Se houvesse algum algoritmo adulterando os resultados durante a apuração, como o vídeo indica, isso poderia ser comprovado por meio de auditoria com os boletins de urna.

Isso porque, com uma fraude, os resultados impressos nos boletins não corresponderiam aos totais apresentados pelo TSE como resultados finais.

Os boletins são impressos quando as urnas eletrônicas são encerradas. Ou seja, nas seções eleitorais os resultados já são conhecidos e estão registrados em papel, o que ocorre depois disso é a transmissão dos resultados e a totalização.

Ao comentar a argumentação do vídeo, segundo o qual a fraude ocorreria por meio de um algoritmo que estaria dentro da urna, o professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e doutor em Física Computacional Mario Alexandre Gazziro explica que a teoria não faz sentido.

"Ele cai em contradição total, porque o que acontece, se o software que faz a adulteração da apuração está dentro da urna não teria como ele agir lá no sistema de totalização. Principalmente porque a urna não se comunica com a internet, ela gera o papel e um arquivinho, que vai desconexo da urna e vai tramitar até lá [TSE]."

A variação das porcentagens ao longo da apuração depende tão somente da ordem em que as urnas são apuradas.

Especialistas em segurança que defendem o voto impresso apontam que a utilidade do boletim de urna, para garantir que não há fraude na totalização, é mais um ponto a favor do voto impresso, conforme está sendo discutido na Câmara.

Do mesmo modo que o boletim garante a totalização da eleição, o voto impresso seria uma forma a mais de auditar se o registro de cada voto é feito corretamente durante a votação.

Atualmente já há diferentes auditorias, no entanto, os especialistas consideram que elas não são suficientes.

O TSE, por outro lado, aponta que as auditorias hoje existentes já seriam suficientes para atestar a lisura do pleito. Além disso, o tribunal aponta uma série de pontos negativos ou obstáculos para a implementação do voto impresso.

O professor Paulo Matias, do Departamento de Computação da Universidade Federal de São Carlos, é um dos defensores de que o voto impresso seja implementado, por mais que não veja urgência.

"A cobrança dos pesquisadores não ocorre por existirem evidências de fraude, nem por existir risco iminente de fraude, mas sim porque esse é o padrão-ouro da literatura científica e é importante que o país eventualmente adote esse tipo de sistema", afirma.

"Não há urgência nenhuma em implementá-lo, o sistema precisa sim ser devidamente discutido, prototipado, testado, e depois implantado aos poucos ao longo de diversos pleitos. O que precisamos é somente de um cronograma para que ele não seja adiado indefinidamente."

Bolsonaro já chegou a dizer que sem voto impresso, o Brasil poderia não ter eleições em 2022.

Uma auditoria independente promovida pelo PSDB entre 2014 e 2015 concluiu que não foi possível identificar fraudes na votação de 2014. No entanto, os autores fizeram várias sugestões de mudanças e sustentaram que não era possível fazer uma auditoria externa independente e efetiva do sistema. O tribunal contesta e sustenta que o sistema já é completamente auditável.

Em julho deste ano, Aécio Neves disse não acreditar que tenha ocorrido fraude nas eleições de 2014 e Aloysio Nunes (PSDB), que concorreu na mesma chapa como vice, afirmou à reportagem que a "eleição foi limpa" e que perderam a disputa "porque faltou voto".

Ataque hacker

Bolsonaro também tem utilizado o ataque hacker realizado em 2020 em sua narrativa de que há fraudes nas eleições.

O hacker Marcos Roberto Correia da Silva, cujo codinome é VandaThegod, teve a prisão preventiva decretada pelo ministro Alexandre de Moraes do STF (Supremo Tribunal Federal), no contexto das investigações do megavazamento envolvendo dados de 220 milhões de brasileiros.

Ele também é investigado pelo ataque hacker ao TSE nas eleições de 2020.

No entanto, de acordo com o que foi divulgado, o ataque só envolveu informações administrativas do TSE, ou seja, o hacker não teria acessado dados que poderiam afetar a apuração das eleições ou dados sensíveis relacionados aos sistemas da urna, por exemplo.

Apesar disso, como o ataque, que teria ocorrido em setembro de 2020, só se tornou de conhecimento público no dia das eleições, em um dia em que houve atraso na apuração, o episódio serviu como motor de desinformação nas redes sociais.

A lentidão na apuração, segundo o TSE, ocorreu porque 2020 foi o primeiro ano em que a totalização dos votos de todo o país foi centralizada no TSE, o que antes era feito pelos tribunais regionais eleitorais.


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