Decisões recentes dos ministros têm alimentado os fóruns de discussões bolsonaristas nas redes sociais. O Estadão acompanhou trocas de mensagens em grupos públicos no Telegram e WhatsApp nos últimos dias. Políticos ligados ao governo têm propagado ataques ao STF em paralelo à convocação para os atos de 7 de Setembro, como forma de se opor ao "arbítrio" dos membros da Corte.
O próprio Bolsonaro deu início à saraivada de ataques aos magistrados em evento de campanha no último sábado, 3. Sem fazer menção direta ao ministro Alexandre de Moraes, o presidente voltou a criticar sua decisão que autorizou operações de busca e apreensão nas casas de empresários suspeitos de integrarem organização criminosa com objetivos antidemocráticos. Em alusão aos jornalistas que revelaram o escândalo e a Moraes, ele disse que "mais vagabundo que esse (repórter) ouvindo a conversa é quem dá canetada após ouvir o que ouviu esse vagabundo".
Os ataques a Moraes ecoaram nas redes sociais no final de semana, mas logo deram lugar a um novo alvo: o ministro Luís Roberto Barroso. O magistrado foi duramente criticado, inclusive em setores da esquerda, por sua decisão de suspender a lei que estabeleceu o piso salarial de R$ 4.750 mil para os profissionais da enfermagem.
Fiel apoiadora do governo, a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) escreveu no Twitter que o "ativismo judicial do STF seria sentido por todos" e que, desta vez, foram atingidos os profissionais da enfermagem. Ela ainda completou a publicação com uma convocação para os atos do 7 de Setembro em São Paulo.
O ex-ministro do Turismo Gilson Machado (PL-PE), atualmente candidato a senador por Pernambuco, compartilhou um vídeo irônico relembrando que Barroso votou a favor do reajuste do próprio salário durante a discussão do Projeto de Lei (PL) que reajusta o orçamento do Supremo para 2023.
A militância bolsonarista mudou de alvo mais uma vez nesta segunda-feira, 5, depois que o ministro Edson Fachin decidiu suspender trechos de decretos editados por Bolsonaro que flexibilizaram o direito à posse e ao porte de armas no País. O assunto mobilizou alguns dos maiores grupos públicos de apoiadores do Bolsonaro em torno da narrativa de que o Supremo cerceia direitos.
Filho do presidente e candidato à reeleição neste ano, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) publicou no Twitter que Fachin "tem um pensamento militante e a margem da lei". Ele ainda relembrou que o vencedor das eleições deste ano terá direito a duas indicações ao Supremo em 2023.
O vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos-RS), que concorre a uma vaga ao Senado, também usou as redes sociais para criticar a decisão de Fachin. Ele escreveu no Twitter que "novamente o judiciário extrapola suas atribuições, fazendo ingerência indevida". "As liminares de hoje interferem em decisões já aprovadas pelos outros poderes, nos direitos de autodefesa e dos CACs. Liberdade não se negocia e absurdos como esses não podem continuar", completou.
Na tarde desta segunda-feira, 5, dois magistrados da Suprema Corte foram parar entre os assuntos mais comentados do Twitter, superando a marca de 56 mil menções. Fachin esteve no centro das discussões com mais de 43 mil publicações que o colocaram em segundo lugar no ranking de interações na rede social, tendo como revés o volume de comentários negativos lançados por apoiadores do governo.
Na contramão, o ministro Kassio Nunes Marques saiu quase imune aos ataques e ficou em 6º lugar na lista de engajamento dos usuários com 13 mil menções. Ele foi o responsável por suspender o julgamento sobre a legalidade dos decretos favoráveis à flexibilização da legislação sobre armas.
Ex-secretário especial da Cultura, o ator Mário Frias disse que a decisão de Fachin "é mais um absurdo sem precedentes". O ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles (PL-SP) disse que o despacho do ministro não terá efeito sobre "marginais", que continuarão a exercer "sua cidadania plenamente". Esses tuítes muniram grupos bolsonaristas no Telegram que organizam as manifestaçoes de 7 de Setembro.


