Abraço foi gesto de gentileza, diz Cury ao Conselho de Ética da Assembleia de SP; Isa vê prova indiscutível

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

24/02/2021 19h35 — em Política

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O deputado estadual Fernando Cury (Cidadania) afirmou ao Conselho de Ética da Assembleia de São Paulo, nesta quarta (24), que abraçou a deputada Isa Penna (PSOL) como um gesto de gentileza e que não tocou em seu seio. A deputada, por sua vez, afirmou que a prova de assédio é indiscutível.

Em dezembro, Cury foi flagrado pelas câmeras da Casa apalpando a deputada em plenário. Isa o acusa de quebra de decoro parlamentar por tê-la importunado sexualmente. A denúncia foi acolhida pelo Conselho de Ética no último dia 10. O caso é investigado também pelo Ministério Público de São Paulo. ​

A sessão desta quarta foi dedicada a ouvir Cury e suas testemunhas de defesa. Ao final, Isa solicitou que mais deputados sejam ouvidos, que haja nova perícia e que ela própria também preste depoimento.

Cury e seu advogado protestaram contra a oitiva da deputada, afirmando que a defesa deve ter a palavra final —o deputado foi o último a falar nesta quarta. O relator do caso, Emidio de Souza (PT), afirmou que não haveria problema em colher o depoimento de Isa e, novamente, o da defesa.

Os membros do conselho acertaram, então, que os deputados listados por Isa, além dela própria e da defesa de Cury, serão ouvidos na próxima segunda (1º).

Emidio planejava entregar seu parecer na próxima quarta (3), mas agora seu cronograma pode atrasar. Como mostrou o jornal Folha de S.Paulo, a punição considerada por ele no momento é um afastamento de 120 dias ou mais, por considerar que a cassação não será endossada pela maioria no colegiado.

​A cassação ou suspensão, além de obter maioria no Conselho de Ética, precisa também do aval do plenário.

“Tendo em vista o amplo apoio recebido da sociedade a deputada reafirma que a luta para a cassação de Cury é significativa, mas entende que o Conselho de Ética parece apontar para a suspensão do deputado. Caso este seja o caminho escolhido, Penna acredita que para a suspensão corresponda à gravidade do caso, esta deveria ser, no mínimo, de um ano”, afirma a assessoria de Isa em nota.

No depoimento, Cury voltou a pedir desculpas aos 93 deputados da Assembleia pelo constrangimento à Casa e afirmou esperar um julgamento justo e desprovido de posições políticas ou ideologias.

“Vocês conhecem minha índole e esse meu jeito de abraçar, beijar e demostrar carinho. [...] Esse episódio me traz muito aprendizado. Meu jeito não é tolerado por parte das pessoas. Preciso rever porque muitas das pessoas se sentem constrangidas com isso”, disse.

O deputado afirmou ainda que tem sido tratado como ícone do machismo no Brasil e pediu que o julgamento se atenha aos fatos daquela noite.

Nesta quarta, Isa enviou ao conselho um manifesto pela cassação de Cury que conta com 120 mil assinaturas, além de manifestações de organizações da sociedade civil.

A sessão desta quarta, em ambiente virtual, foi marcada por problemas técnicos e pela tentativa dos deputados de dar celeridade aos depoimentos.

Os deputados do conselho, por meio de perguntas às testemunhas, se concentraram em questões que consideram centrais no caso —se Isa e Cury são amigos ou próximos, se houve reação ao assédio ou não e qual foi o teor da conversa entre Cury e Alex de Madureira (PSD) antes do toque.

A deputada Erica Malunguinho (PSOL), próxima a Isa e membro do conselho, ressaltou, em suas indagações aos envolvidos, que, embora Isa e Cury sejam deputados e colegas de trabalho, não há relação de amizade e proximidade —o que fez com que seu toque não fosse consentido ou esperado pela deputada.

Em seu depoimento, Cury afirmou não ser íntimo de Isa, apenas colega, e que conversaram e se cumprimentaram até hoje somente em plenário.

O deputado também foi questionado sobre a reação de Isa e afirmou que a deputada reagiu ao sentir sua chegada pelo lado esquerdo.

Houve ainda o momento em que o deputado Barros Munhoz (PSB), membro do conselho, questionou o teor da conversa entre Alex e Cury. Pouco antes de se aproximar de Isa, Cury fala com Alex, que tenta segurá-lo.

Segundo Cury, a conversa com Alex não foi sobre Isa, mas sobre a sessão em andamento, que, de acordo com ele, se alongava. Por isso, afirmou Cury, ele decidiu ir ao presidente da Casa, Cauê Macris (PSDB), que conversava com Isa, para pedir que a votação não se delongasse e para questionar sobre votações de projetos de deputados.

Ainda na versão de Cury, Alex tentou segurá-lo no sentido de que não valia a pena conversar com Macris porque a sessão já se encaminhava para o fim. A versão é parecida, mas não totalmente semelhante a que o deputado Estevão Galvão (DEM) contou no conselho com base no que ele apurou.

O próprio Alex, membro do conselho e presente na sessão, não se manifestou.

Cury disse que se aproximou de Isa com um abraço como um gesto de gentileza para compensar o fato de que iria interromper sua conversa com Macris.

"Tenho minha consciência tranquila, não cometi crime nenhum. [...] Nunca tive em minha vida qualquer tipo de acusação semelhante. O abraço foi um gesto que quis fazer de gentileza, porque eu ia interromper a conversa dela com Cauê Macris. Um gesto no meu entendimento completamente sem maldade, sem segundas intenções", afirmou o deputado.

Cury negou ter ingerido álcool naquela noite, embora Isa tenha dito que ele cheirava a álcool. Outros deputados ouvidos pela reportagem afirmaram que ele estava bêbado.

A suposta falta de reação de Isa foi apontada em laudo de perícia e na peça de defesa apresentados ao conselho pelo advogado de Cury, Roberto Delmanto Jr.

Munhoz também levantou o fato de que o assédio foi exposto pela deputada somente no dia seguinte e não na mesma noite. “Houve um fato grave, uma coisa errada que precisa ser punida, mas não é a bomba atômica que se criou e foi criada nos dias seguintes.”

"Se não houve uma reação é porque os senhores que estavam lá não reagiram", contestou Isa, afirmando que ela reagiu no momento e que outros deputados a procuraram na mesma noite para se solidarizar.

O Conselho de Ética também ouviu as testemunhas indicadas pela defesa de Cury —sete mulheres que já conviveram com o deputado e o conhecem há anos, mas que não presenciaram o assédio em plenário.

Entre as testemunhas, estavam ex-funcionárias de Cury, colegas de faculdade e até a diretora de sua escola. Todas afirmaram não ter visto assédio ou malícia no vídeo em que ele toca o corpo de Isa.

Segundo as testemunhas, o deputado nunca sofreu queixas por assédio e tem um jeito carinhoso de abraçar pessoas. Elas culparam a mídia pela proporção que o caso tomou.

Em contraponto, Malunguinho e o advogado de Isa, Francisco Almeida Prado, ressaltaram que as testemunhas tinham relação com o deputado e, portanto, não estranhavam seus abraços.

Uma das testemunhas, a chefe de gabinete de Cury, Regiane Mendes, afirmou, porém, que os deputados não eram desconhecidos. “Eles podem não ser próximos, porque são 94 deputados, mas isso não significa que é um total desconhecido. [...] Não foi um ato de assédio”, disse.

O depoimento das testemunhas, que não presenciaram o fato, chegou a ter sua utilidade questionada por Munhoz, mas o argumento da presidente do conselho, Maria Lúcia Amary (PSDB), foi o de que deveriam ser ouvidas para que não houvesse acusação de cerceamento de defesa.

Prestou depoimento ainda, a pedido da defesa, o perito Edmundo Braun, que analisou o vídeo e concluiu que não é possível afirmar que houve toque de Cury em Isa —tese contestada pela deputada.

Em sua fala, o perito retomou seu laudo para afirmar que há uma sobreposição de imagem da mão de Cury e do corpo de Isa, mas não necessariamente o toque. Braun, no entanto, não exclui a possibilidade de que o toque existiu.

Como procuradora especial da Mulher, órgão da Casa, a deputada Marina Helou (Rede) acompanhou a sessão e declarou ao Conselho de Ética que o fato de Isa só ter se manifestado na tribuna no dia seguinte não tem relevância, uma vez que é comum em casos de assédio que a reação proporcional leve algum tempo.

Helou afirmou ao jornal Folha de S.Paulo que, embora seja necessário que Cury tenha ampla defesa, “seu comportamento passado não está em julgamento”. Também considerou infeliz “a tentativa da defesa de Cury de calar Isa, típica nesses casos” e o fato de a perícia afirmar não haver toque, sendo que o deputado já admitiu o que chamou de abraço.

Em paralelo, o Ministério Público de São Paulo também investiga o deputado por importunação sexual. A defesa de Cury questionou a abertura da investigação sem que ele fosse ouvido e pediu sua suspensão ou paralisação, mas até agora não há decisão da Justiça.

A Procuradoria marcou o depoimento de Cury para o próximo dia 2, de forma virtual.

Há ainda um procedimento interno do Cidadania para expulsar Cury, mas a defesa do deputado conseguiu suspender a tramitação na Justiça, alegando irregularidades no procedimento e cerceamento de defesa. O partido recorreu e aguarda decisão.

O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

+ Política