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A metamorfose de Arthur Neto


Por Elizabeth Menezes

27/02/2024 19h40 — em
Ombudsman



Ainda se discute a consequência da manifestação pró-Bolsonaro na Avenida Paulista no último domingo 25. Também restam dúvidas sobre o número de manifestantes. Isso porque a Secretaria de Segurança paulista estimou o número entre 600 mil a 750 mil, enquanto o Monitor Político no Meio Digital da USP (Universidade de São Paulo) calculou em apenas 185 mil, na hora do pico, por volta das 15h. A olho nu, milhares de pessoas podiam ser vistas, usando camisas verde e amarela, muitas exibindo a bandeira de Israel. E no meio da multidão se encontrava o ex-senador do Amazonas, Arthur Neto, que também foi prefeito de Manaus. Ele não esteve no trio elétrico alugado pelo pastor Silas Malafaia, e onde Bolsonaro fez discurso que teve mais de uma interpretação.

 Arthur Neto recebeu críticas de veículos de comunicação do Amazonas e não faltou quem lembrasse da ofensa que Bolsonaro fez  contra ele, durante a pandemia da Covid-19, quando da abertura de covas coletivas nos cemitérios (em 2020). Na época, Arthur era prefeito e respondeu a Bolsonaro, usando termos nada lisonjeiros. Definiu os insultos como “strip-tease moral” de um presidente que não tinha mais “a mínima condição de governar o Brasil”. "Não gosta de mim? Que bom. Sinal de que estou no lado certo da vida. Também não gosto da ditadura que já nos massacrou e que ele gostaria de reviver. Daqui a pouco mais de dois anos, o país estará livre de tão diminuta e mesquinha figura", declarou em nota distribuída à imprensa.

O ex-senador mudou de opinião nos últimos anos, em relação a Bolsonaro. Ao site Metrópoles, declarou:  “Nesse clima de polarização, não dá para ficar ao lado de um governo cheio de ministros acusados de corrupção e de um presidente que fala bobagem sobre o Holocausto. A manifestação vai além da defesa de Bolsonaro. É um evento em prol do Estado democrático e das instituições”. 

Na sua página no Facebook, Arthur Neto escreveu sobre ato de domingo. “Parecia o início das Diretas Já. Será um movimento crescente. Se esse governo não meditar e não mudar o comportamento, cara Eliane, enfrentará dificuldades internas que se juntarão à política econômica, que fracassará, e à política externa nanica que está inimizando o Brasil com todo o mundo democrático! Restam-lhe as ditaduras, que fazem os ditadores ricos e matam o povo de fome!”

 A comparação  do ato pró-Bolsonaro com o movimento das Diretas Já foi usada na coluna Expressão, do portal Amazonas Atual. Sob o título “A decadência de Arthur Virgílio”, o veículo afirma que o ex-senador “desceu ao fundo do poço”, depois de “momentos memoráveis no Congresso Nacional” e “se transformou em uma figura irreconhecível”. O texto termina com um “recado”.  “A única semelhança do ato de domingo é com as manifestações pró-ditadura militar, em 1964, senhor Arthur Virgílio”.

“NÃO ESTAMOS AGUENTANDO MAIS” 

Na segunda-feira 26, Arthur Neto divulgou um vídeo no X (ex-Twitter), em que “traduz” a presença do povo no evento da Avenida: “Chega, basta, não estamos aguentando mais”. E completou:“ Chega de elogios a terroristas”, “Chega de prisões injustas”, “Chega de tantos ministros do presidente Lula acusados diretamente pelo Ministério Público de corrupção”.   Como se percebe, Arthur Neto aderiu ao discurso bolsonarista, esqueceu os xingamentos do ex-presidente e se posiciona frontalmente contra o governo Lula. A metamorfose surpreende alguns.

Sobre o que aconteceu no domingo, há quem entenda que Lula e aliados ficaram surpresos; que “a direita está mais viva do que nunca”; que Bolsonaro, no discurso, acabou confessando que conhecia a “minuta do golpe” e, ao pedir anistia para os presos que invadiram a sede dos Três Poderes, estava falando dele também. Nas redes sociais, a polarização política continua. “Sem anistia para golpista” ganhou grande espaço, rivalizando com apoio ao impeachment de Lula. “Bolsonaro preso”, também se pode ler nos comentários. 

O nome de Arthur Neto é citado dentre os que podem ser candidatos à prefeitura de Manaus. Sendo a capital do Amazonas considerada bolsonarista, esse fervoroso apoio ao Bolsonaro ajudaria numa possível campanha do ex-senador? Mesmo que, num recente passado, o segundo tenha chamado o primeiro de “diminuta e mesquinha figura”? 

É uma sugestão da coluna à  Redação deste portal.

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Elizabeth Menezes, jornalista formada pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas), repórter em jornais de Manaus, a exemplo de A Notícia, A Crítica e Amazonas em Tempo. Também trabalhou na assessoria de Comunicação da Assembleia Legislativa.

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