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Vitória dá respaldo para reformas de Macri e evidencia crise do peronismo

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BUENOS AIRES - Desde 1928, um presidente argentino não peronista não consegue terminar seu mandato. Até pouco tempo atrás, o atual chefe de Estado do país, Mauricio Macri, que fundou e lidera o partido Mudemos (uma aliança com a União Cívica Radical), governava com esse fantasma pairando sobre a Casa Rosada. Mas as eleições legislativas de domingo passado derrubaram definitivamente a especulações sobre uma eventual crise de ingovernabilidade, consolidaram o partido de governo como a principal força política do país, provocaram a maior crise já enfrentada pelo peronismo desde seu surgimento, em meados da década de 1940 e, de quebra, instalaram a sensação de que Macri tem grandes chances de buscar um segundo mandato nas presidenciais de 2019. Na segunda-feira, após comemorar a vitória da legenda em 12 das 24 províncias argentinas — muitas governadas pelo peronismo — e na capital, o presidente anunciou que o respaldo obtido nas urnas será usado para avançar na aprovação de profundas reformas.

— A Argentina não deve ter medo das reformas. As reformas nos darão alegria, isso é o que as pessoas votaram ontem — declarou.

Seu partido ganhou 22 cadeiras na Câmara e nove no Senado. Com 108 deputados — de um total de 257 — o Mudemos terá a maior bancada na Câmara, embora não seja maioria. No Senado, ganhou mais 9 cadeiras, ficando agora com 25 representantes, de um total de 72. Outra novidade é que na nova composição do Parlamento, o peronismo não controlará mais o Senado.

— Pesou muito o medo do passado. Muitas pessoas estão insatisfeitas com Macri, queriam mais resultados. Mas a chave desta eleição é o otimismo, os eleitores do governo acreditam que o presidente conseguirá melhorar a situação no futuro — explicou ao GLOBO Ignácio Labaqui, professor da Universidade Católica Argentina (UCA). — Com 42% do total de votos do país, o Mudemos passou a ser a única força política com presença nacional.

Macri derrotou o peronismo até nas terras natais dos ex-presidentes Carlos Menem e Néstor Kirchner, as províncias de La Rioja e Santa Cruz, respectivamente, sob comando de peronistas.

— O peronismo está fragmentado, e a presença de Cristina impede o surgimento de novas lideranças. Estão vivendo sua pior crise — disse Labaqui.

A ex-presidente foi eleita senadora e controlará uma bancada de 10 kirchneristas (contando aliados). Mas o fato de ter ficado em segundo lugar na província de Buenos Aires, principal distrito eleitoral do país, significou um revés duríssimo para Cristina, que, de acordo com analistas, praticamente enterrou seu sonho de retornar ao poder.

— Estamos observando o começo do fim de Cristina, que fez boa eleição, considerando que seu teto é baixo. Hoje é a peronista opositora com mais votos, mas não é suficiente para uma (eleição) presidencial — disse Carlos Fara, da Fara e Associados.

A própria Cristina admitiu, na noite de domingo, que os votos obtidos por seu partido, Unidade Cidadã, “não foram suficientes” para derrotar o macrismo em Buenos Aires. Seu lugar hoje é ser “a principal alternativa ao governo”.

Mas a diferença entre kirchnerismo e macrismo é expressiva, chegando a mais de 20 pontos percentuais, em votos nacionais. Neste momento, Macri domina a política nacional e, segundo Fara, já está se transformando num fenômeno inédito.

— Ele comanda o primeiro partido criado no século XXI; não é peronista nem radical; não vem da política (é empresário e foi presidente do Boca Juniors) e está a caminho de ser o primeiro presidente não peronista que conseguirá terminar seu mandato desde 1928 — lembrou Fara.

O primeiro ano de governo foi marcado pela implementação de medidas impopulares, entre elas a eliminação de subsídios nas tarifas públicas. A inflação continua acima de 20%, a economia não decolou — deu apenas os primeiros sinais de recuperação — os grandes investimentos estrangeiros não chegaram e o presidente não controla o Parlamento. Com esse pano de fundo, explicam-se a fraqueza inicial de Macri e os comentários sobre as dificuldades para governar e lidar com um peronismo, sobretudo um kirchnerismo, que claramente apostava em seu fracasso.

— O kirchnerismo errou, achou que Macri não conseguiria lidar com o país que herdou e acabaria como Fernando de la Rúa, que renunciou após dois anos de mandato — apontou Labaqui.

Fortalecido pelas legislativas, o presidente deverá defender reformas nos sistemas eleitoral e tributário, no mercado de trabalho e, talvez, na Previdência. Todos os governadores serão convocados e deverão negociar com um Macri muito diferente do que assumiu, em 2015, bem mais seguro e com um contundente respaldo das urnas.

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