O que aconteceu após sua juramentação na Assembleia Nacional (AN)?
O assédio do Sebin (a polícia secreta chavista) foi total. Revistaram a casa de familiares e amigos tarde da noite, encapuzados e com armas para conferir se eu estava ali. Levaram alguns para interrogatórios para saber do meu paradeiro. Tudo isso é duro, e ainda mais quando você não cometeu crimes. Minhas contas estão bloqueadas, sem ordem judicial.
Eram conscientes do risco que estavam assumindo?
A maioria dos magistrados sabia dos riscos. Mas concordamos que, se não assumíssemos esse perigo, a Venezuela nunca teria uma Justiça transparente, idônea e hábil.
O que o senhor fez desde então?
Fiquei escondido na casa de amigos, familiares e pessoas próximas, até cruzar a fronteira com a Colômbia, onde tivemos uma acolhida enorme das autoridades de imigração. Aqui estão outros cinco magistrados na mesma situação, todos com visto de turista e não de refugiados ou asilados. Tivemos reuniões na Defensoria do Povo, aqui na Colômbia, com algumas instituições que abriram as portas com opções de trabalho, até que se supere a crise.
Se arrepende da decisão?
Nunca me arrependerei de nada porque não fiz nada de errado. Tudo o que fiz foi pelo meu país, que merece um Poder Judiciário transparente, independente.
Não esperam alguma blindagem política da AN?
Cada um tomou sua própria decisão e deve se proteger, assim como eles estarão se protegendo de qualquer ataque que possam receber. Não temos uma ordem de captura. Detiveram o magistrado Ángel Zerpa sem uma ordem. Depois a fabricaram. O que disse a Sala Constitucional do Supremo (TSJ) era que se tomássemos posse do cargo, o que não aconteceu, iríamos incorrer no delito de usurpação de funções.
O que fará agora?
Como magistrado do TSJ, estarei uns dias nos EUA, reunido com ONGs de direitos humanos, com o secretário-geral da OEA, Luis Almagro, e com o senador Marco Rubio.
O que pode ocorrer com a nova Assembleia Constituinte (ANC)?
Essa ANC maneja em suas bases a destituição de qualquer tipo de poder. Tem poderes onipotentes, plenipotenciários, para tomar qualquer decisão sem que ninguém possa controlá-la. Outro objetivo será tirar a AN do caminho, como tiraram (a procuradora-geral) Luisa Ortega.
O senhor é otimista?
O povo da Venezuela demonstrou historicamente que é lutador, cresce diante das situações adversas. E já despertou: mais de 80% não apoiam Nicolás Maduro. Os protestos são uma prova disso. Há esperanças.

