A possível venda da Warner Bros. Discovery para um grupo de streaming, como Netflix ou Paramount, pode aprofundar a crise das redes de cinema e gerar efeitos em cadeia sobre o fluxo de consumidores nos shoppings brasileiros. Especialistas apontam que a concentração de conteúdo nas plataformas digitais tende a reduzir a atratividade das salas de exibição, hoje um dos principais chamarizes para visitas aos centros de compras.
A proposta mais recente partiu da Netflix, que sinalizou interesse nos estúdios de produção, na HBO e no HBO Max, enquanto a Paramount apresentou uma oferta não solicitada pela totalidade dos ativos da Warner. Diante desse cenário, representantes do setor exibidor no Brasil reagiram com preocupação. Em nota, a Associação das Empresas Operadoras de Multiplex (Abraplex) e a Federação das Empresas Cinematográficas (Feneec) alertaram para o avanço da consolidação global e o risco de as plataformas passarem a controlar o ritmo de lançamentos e a duração dos filmes nas salas.
Segundo as entidades, a tendência é de queda na bilheteria, com menos títulos destinados ao circuito tradicional e janelas de exibição cada vez mais curtas antes da migração para o streaming. Hoje, o intervalo médio entre a estreia nos cinemas e a chegada às plataformas é de cerca de 45 dias. O setor defende uma regulamentação que estabeleça ao menos nove semanas, na tentativa de preservar a viabilidade econômica das salas.
A redução do público nos cinemas afeta diretamente os shoppings, que dependem do entretenimento para manter a recorrência de visitas. Dados da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) indicam que a visitação ainda está 22% abaixo do nível pré-pandemia, enquanto a bilheteria dos cinemas caiu 37% no mesmo período. Para consultorias do setor, há correlação entre esses indicadores, já que menos estreias de peso resultam em menos consumidores circulando pelos corredores.
Apesar do cenário desafiador, especialistas ponderam que o impacto pode ser limitado no médio prazo, uma vez que os shoppings vêm diversificando suas atrações, com foco em gastronomia, serviços e lazer. A avaliação é que, embora o cinema siga relevante, o modelo de negócios dos centros de compras tende a se adaptar às mudanças no comportamento do consumidor, reduzindo a dependência exclusiva das grandes estreias cinematográficas.

