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Vácuo de poder criado por Trump abre espaço para a China

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WASHINGTON - As decisões nacionalistas e isolacionistas de Donald Trump — não apenas na questão climática, mas também em tratados comerciais e no abandono dos organismos multilaterais — vêm dando uma oportunidade rara para que a China e, em menor escala, a União Europeia ampliem sua influência global. Analistas acreditam que a tendência deve continuar, o que reduz a liderança dos EUA em várias áreas. A falta de visão estratégica do presidente americano e a pouca confiabilidade em suas palavras e no rumo da política da maior economia do planeta agravam o cenário, mas também há desafios para chineses e europeus.

— Enquanto todo o mundo está jogando xadrez, Trump está jogando dominó — exemplifica Erick Langer, historiador da Universidade de Georgetown. — Trump não entende ou não gosta do multilateralismo, parece só acreditar em relações bilaterais, além de que seu slogan “American First” (Estados Unidos em primeiro lugar) tem tido resultado contrário, isolando o país.

O posicionamento chinês no último Fórum Econômico Global em Davos, na Suíça, indica que o país está pronto para preencher o vácuo deixado pelos EUA. Durante o encontro, Pequim defendeu o livre comércio, enquanto os EUA, o protecionismo e suas ideias de muro. O maior emissor mundial de dióxido de carbono provocado pelo homem — considerada uma causa fundamental para a mudança climática — também vem fazendo rápido progresso em direção à meta de impedir o crescimento das emissões até 2030.

E, embora a China continue fortemente dependente do carvão e a poluição ainda seja um problema grave, os governantes vêm se mostrando determinados a mudar. O compromisso fez com que grande parte do mundo voltasse seus olhos para Pequim, que mais do que nunca — mesmo antes da eleição de Trump — quer afirmar-se no cenário global.

— À medida que os EUA abdicam de sua responsabilidade de diminuir as mudanças climáticas nos próximos anos, o país fica mais suscetível em outras negociações internacionais, especialmente em relação ao comércio. A decisão também abre espaço para nossa retirada do espaço geopolítico — afirma Samantha Gross, da Brookings Institution, para quem a China pode estar de olho no papel de liderança dos EUA.

A emergência da China como uma nova força unificadora não está limitada ao meio ambiente. No mês passado, o presidente Xi Jinping recebeu mais de 20 líderes mundiais para apresentar a intenção de construir a infraestrutura necessária para ligar a Ásia e a Europa. No início deste ano, fez um discurso em Davos, Suíça, abraçando a causa de uma globalização econômica. Durante uma visita a Berlim, esta semana, o presidente chinês expressou sua vontade de reforçar laços com a Alemanha. Numa declaração conjunta, na sexta-feira, União Europeia e China reiteraram seu “maior compromisso político” com o Acordo de Paris e prometeram trabalhar juntas para fazer avançar a luta contra as alterações climáticas.

Trump, por outro lado, recebeu a condenação mundial pela saída do acordo climático; tem evitado defender enfaticamente violações de direitos humanos; retirou os EUA da Parceria Transpacífica (TPP, que seria o maior acordo comercial do mundo e uma forma de fazer frente à China); vem criticando a Otan e a ONU desde a posse; e tem posicionamento pouco claro em entidades como FMI, entre outros.

Langer lembra que a última vez que os EUA perderam tanto prestígio — e liderança — havia sido durante o governo de George W. Bush, durante sua polêmica Guerra ao Terror. Agora, além deste fenômeno estar mais intenso, há outras nações mais preparadas para ocupar o vácuo.

— Parece claro que os chineses têm a pretensão de, em algum momento, liderar o mundo. As ações de Trump podem ser vistas como uma forma de acelerar o processo — afirma, lembrando, contudo, que o país precisa resolver uma série de problemas internos. — Não basta discursos de seus líderes, são necessárias ações concretas.

 

Juan Carlos Hidalgo, analista de Políticas Públicas do Cato Institute, alerta, no entanto, que é preciso tomar cuidado com uma possível troca de liderança, apesar de concordar que há uma clara redução do prestígio americano com a atual Casa Branca. Mas lembra que isso pode ser passageiro: o mandato acaba em 2020, embora aumente a cada dia a possibilidade de um impeachment do republicano.

— A China tem vários problemas: não é uma democracia, não tem liberdade de expressão, conta com muitas políticas protecionistas, desrespeita propriedade intelectual. Mesmo na área ambiental, vai aumentar suas emissões, e continua aprovando fábricas a carvão, enquanto os EUA certamente vão continuar reduzindo suas emissões. Não vejo a China defendendo todos estes temas por convicção, mas por oportunidade — explicou.

Na Europa, onde os valores ocidentais estão mais fortes, o problema é interno: a UE vive uma ameaça da ruptura, por causa de movimentos como o Brexit e de grupos nacionalistas, além de desigualdades regionais, como a crise na Grécia deixou claro. A situação climática, o próprio temor de desunião e o medo do nacionalismo inspirado em Trump, por outro lado, podem reaproximar os países. (Com agências internacionais).

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