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Trump usa massacre para minar inquérito sobre interferência russa

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WASHINGTON - Acuado pelo rápido avanço das investigações sobre a interferência russa na eleição de 2016 à Casa Branca, que colocam vários de seus ex-assessores sob suspeita de conluio com emissários de Moscou, o presidente Donald Trump usou o massacre que deixou 17 mortos numa escola da Flórida para tentar minar a credibilidade do FBI e de seus adversários políticos. Em mais uma série de ataques pelo Twitter, que começou na noite de sábado e se estendeu até domingo, o chefe de Estado americano afirmou que a Rússia alcançou “seus sonhos mais loucos” ao semear a discórdia no país.

O presidente disse ser inaceitável que o FBI tenha “perdido todos os muitos sinais” dados por Nikolas Cruz, o atirador que usou um fuzil para matar ex-colegas e professores da escola Marjory Stoneman Douglas, em Parkland, na quinta-feira.

“Eles estão gastando tempo demais tentando provar um conluio russo com a campanha de Trump — não há conluio. Voltem ao básico e nos deixem orgulhosos!”, escreveu o presidente.

Após a chacina em Parkland, o FBI reconheceu ter recebido uma chamada em janeiro de uma pessoa que alertava sobre as intenções de Cruz, mas que a informação não foi transmitida ao escritório de Miami. A revelação provocou mal-estar no comando da agência, que recebeu críticas do secretário de Justiça, Jeff Sessions, e do governador da Flórida, Rick Scott, aliado de Trump, que pediu a renúncia do atual diretor, Christopher Wray.

Liderado pelo promotor especial Robert Mueller — indicado após a controversa demissão do então diretor do FBI, James Comey, em maio —, o inquérito sobre a interferência russa apura também se a campanha de Trump pode ter cooperado com Moscou para favorecer o então candidato republicano. Trump já chamou o caso de “caça às bruxas”.

Na sexta-feira, Mueller anunciou acusações formais contra 13 cidadãos e três empresas da Rússia, suspeitos de fraudar identidades para realizar campanhas pagas nas redes sociais, passando-se por cidadãos americanos, buscando influenciar o eleitorado em estados sem afiliação partidária definida. Algumas das figuras-chave destes esforços que levaram aos indiciamentos são diretamente ligadas ao governo de Vladimir Putin, como a empresa Agência de Pesquisa em Internet (IRA), que presta serviços para o Kremlin.

A Inteligência dos EUA crê que a interferência russa continua e que provavelmente vai mirar as eleições legislativas de novembro. Na Conferência de Segurança de Munique, o assessor de Segurança Nacional, H.R. McMaster, qualificou no sábado a evidência de intromissão como “irrefutável”. Ao que Trump rebateu:

“McMaster esqueceu de dizer que os resultados das eleições de 2016 não foram modificados pelos russos e que o único conluio foi entre a Rússia e a Desonesta H, o Comitê Nacional Democrata e os democratas”, tuitou Trump, fazendo referência à sua rival derrotada, Hillary Clinton.

Em outro tuíte, Trump assegurou que “nunca disse que a Rússia não se intrometeu nas eleições”. Ele ainda garantiu que “Barack Obama era presidente, sabia da ameaça e não fez nada” e acusou seu antecessor de dar US$ 1,7 bilhão em espécie para o Irã como parte do acordo nuclear de 2015.

“Se foi o objetivo da Rússia criar discórdia, perturbação e caos dentro dos EUA, então, com todas as audiências de comissões, investigações e ódio entre os partidos, eles tiveram sucesso além de seus sonhos mais loucos”, tuitou: “Estão morrendo de rir em Moscou. Sejam inteligentes, EUA!”

Em checagem, o “Washington Post” contradisse Trump ao lembrar que ele abertamente afirmara, em entrevistas e debates de 2016, que achava “ridículas” as acusações de interferência, e que, já presidente, tratou as investigações como “falácias”. O jornal reiterou também que as equipes de investigação do caso da Rússia nada tinham a ver com a atuação sobre as ameaças do atirador da Flórida. E ainda citou que o valor dado a Teerã era uma verba pertencente ao Irã que estava congelada e foi reavida ao regime com o levantamento de sanções em troca da redução de seu programa nuclear.

Sem se referir aos ataques de Trump, o ex-diretor de Inteligência Nacional James Clapper, que em 2016 jogou luz sobre os esforços russos, disse no domingo à CNN que Mueller poderia estar analisando crimes financeiros, como lavagem de dinheiro.

— Acho que há outras revelações a vir sobre as relações da Organização Trump antes da eleição e da campanha — afirmou.

Ainda no domingo, o “Los Angeles Times” revelou que o ex-vice-chefe da campanha de Trump, Rick Gates, que foi indiciado por crimes paralelos de fraude descobertos com o inquérito, chegou a um acordo com Mueller para admitir culpa e cooperar com sua equipe ao depor contra o ex-gerente da campanha, o lobista Paul Manafort. Os dois são os principais alvos até o momento da investigação, que também ameaça assessores e familiares de Trump, como o filho Don Jr. e o genro Jared Kushner.

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