Trump revelou o plano de paz, que chamou de "acordo do século", após três anos de gestação e muitos adiamentos, parte deles devido à indefinição em Israel que levou à terceira eleição em menos de um ano.
Ao lado do premiê israelense, Binyamin Netanyahu, o presidente americano propôs a criação de um Estado palestino. O plano, no entanto, reflete a postura pró-Israel de seu governo e faz importantes concessões ao país, como o reconhecimento da soberania israelense sobre seus assentamentos na Cisjordânia e sobre o vale do rio Jordão.
Trump afirmou que a capital do Estado palestino seria em Jerusalém Oriental, onde os EUA abririam uma nova embaixada.
A declaração, porém, não é clara, uma vez que, segundo Trump, a cidade será mantida como "capital indivisível de Israel". Para aumentar a confusão, comunicado divulgado no site da Casa Branca afirma que a capital do Estado da Palestina "incluirá áreas de Jerusalém Oriental".
Depois do anúncio conjunto, Netanyahu afirmou a repórteres que a capital palestina ficaria em Abu Dis, um bairro localizado nos subúrbios de Jerusalém, a leste da cidade.
Em troca do Estado palestino, haveria o reconhecimento dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, considerados ilegais por palestinos e por grande parte da comunidade internacional.
Resoluções da ONU têm reiteradamente decidido pela ilegalidade dessa política israelense com base na Quarta Convenção de Genebra, que proíbe a deportação ou a transferência de partes da população civil de um país para um território ocupado por ele.
O plano prevê ainda que futuras ocupações sejam congeladas durante quatro anos, enquanto ocorrem as negociações da criação do novo Estado, previsto com o dobro do tamanho da área atualmente controlada pelos palestinos.
O premiê isralense disse que levará à análise de seus ministros já neste domingo (2) um projeto de lei para autorizar o exercício da jurisdição de Israel sobre os assentamentos localizados no vale do rio Jordão, na Cisjordânia e no norte do Mar Morto.
O republicano, aliás, anunciou a divulgação de um mapa com a divisão dos territórios, algo nunca antes autorizado por Israel.
"Hoje, Israel dá um grande passo em direção à paz", disse o americano, muito aplaudido durante a fala, que também incluiu uma espécie de ultimato aos palestinos, para quem, segundo Trump, o plano de paz seria "a última oportunidade". "Minha visão é uma oportunidade em que os dois lados ganham."
Netanyahu classificou o dia do anúncio como histórico e comparou a proposta de Trump à do ex-presidente Harry Truman, em 1948, que reconheceu o estado de Israel. "Neste dia, você se tornou o primeiro líder a reconhecer a soberania de Israel sobre Judeia e Samaria, vitais para nossa segurança e central para nossa herança", acrescentou o premiê, utilizando os nomes bíblicos para a Cisjordânia.
O anúncio desta terça ocorre praticamente à revelia das autoridades palestinas, que cessaram qualquer diálogo com os EUA desde o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e a transferência da embaixada americana de Tel Aviv para a cidade, em 2018.
O status de Jerusalém, reivindicada pelos dois lados como capital, é uma das questões que tornou um acordo de paz na região tão complexo quanto desejado por presidentes americanos, que tentaram ao longo das últimas décadas conquistar o mérito de ter solucionado as tensões no Oriente Médio.
Na Faixa de Gaza, Sami Abu Zuhri, porta-voz do Hamas, grupo considerado uma organização terrorista pelos EUA, afirmou que o plano para Jerusalém não tem sentido.
"A declaração de Trump é agressiva e provocará muito ódio", disse o porta-voz à agência Reuters. "Jerusalém sempre será a terra dos palestinos (...) Os palestinos vão contestar esse acordo e Jerusalém permanecerá uma terra palestina."
Antes do pronunciamento em Washington, milhares de palestinos protestaram em Gaza, e tropas israelenses reforçaram suas posições entre a cidade palestina de Ramalá e o assentamento judeu de Beit El, na Cisjordânia.
O momento do anúncio do plano é oportuno tanto para Trump quanto para Bibi, como Netanyahu é conhecido.
O americano passa por um julgamento de impeachment no Senado, no qual seu partido, o Republicano, tem maioria razão pela qual as chances de o processo resultar em sua saída do cargo são pequenas.
No entanto, as audiências dão oportunidade e palanque a seus rivais democratas para expor falhas de seu governo, principalmente na condução da política externa as acusações do processo envolvem tratativas do presidente americano com seu par ucraniano, Volodimir Zelenski.
Nesse contexto, o anúncio do plano é uma forma de Trump retomar o foco do noticiário com uma agenda positiva e sensível a grande parte de sua base dias antes da primeira fase das primárias, nas quais será escolhido o nome democrata que disputará as eleições de 3 de novembro.
Já Bibi, ao mesmo tempo em que enfrenta mais um pleito, prepara-se para ser julgado por acusações de corrupção. Também nesta terça (28), ele retirou um pedido de imunidade que havia feito ao Parlamento israelense se concedida, a medida teria protegido o premiê até a eleição, em 2 de março. O gesto abre caminho para que ele seja julgado por denúncias de fraude, abuso de poder e quebra de confiança.
NEGOCIAÇÕES LIDERADAS PELOS EUA
O democrata Bill Clinton (1993 - 2001) intermediou em 2000 as negociações de Camp David (EUA), em 2000, vistas como as mais detalhadas já realizadas até então.
Nos encontros, o palestino Yasser Arafat e o então premiê de Israel, Ehud Barak, tentaram chegar a um consenso sobre a forma de implementar pontos dos Acordos de Oslo (1993) o instrumento rendeu o prêmio Nobel da Paz de 1994 a Arafat e aos ex-premiês israelenses Shimon Peres e Yitzhak Rabin.
Embora o diálogo não tenha gerado frutos, Clinton é lembrado por sua contribuição às negociações de paz, principalmente por causa da icônica foto em que Rabin e Arafat se cumprimentam no jardim da Casa Branca ao anunciar os Acordos de Oslo.
O republicano George W. Bush é outro líder americano que, durante seus dois mandatos à frente da Casa Branca, tentou costurar um acordo de paz para o Oriente Médio. Em 2003, ele se tornou o primeiro presidente dos EUA a pedir a criação de um Estado palestino.
O predecessor de Trump, Barack Obama, conseguiu, em 2009, que Israel suspendesse sua política de assentamentos na Cisjordânia pelo período de dez meses "um significativo primeiro passo na direção da paz", nas palavras de Netanyahu.
Depois de meses de conversas intermediadas pela então secretária de Estado, Hillary Clinton, o premiê israelense e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, não conseguiram avançar nas negociações.
Findo o prazo, Israel retomou os assentamentos e o diálogo foi suspenso.
