Por Brad Brooks e Helen Coster e Joseph Ax
13 Abr (Reuters) - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou no domingo uma imagem gerada por inteligência artificial em que é retratado como uma figura semelhante a Jesus, atraindo críticas generalizadas até mesmo de alguns conservadores religiosos que normalmente o apoiam, antes de excluir a publicação nesta segunda-feira.
A publicação na plataforma Truth Social, de Trump -- posteriormente ele disse que foi feita para retratá-lo como um médico --, ocorreu em meio à escalada de sua rixa com o papa Leão, que criticou a guerra entre EUA e Israel contra o Irã. Pouco antes de postar a imagem, o presidente publicou um longo discurso contra o pontífice, chamando-o de "FRACO no crime e péssimo para a política externa".
Leão, o primeiro papa nascido nos EUA, disse em resposta aos ataques do presidente norte-americano não ter "medo" do governo Trump e que continuaria a se manifestar. Em um discurso vigoroso nesta segunda-feira em Argel, Leão denunciou as potências mundiais "neocoloniais" que estão violando o direito internacional, sem se referir especificamente aos Estados Unidos.
A postagem de domingo, retratando Trump vestido de túnica branca com a mão -- em gesto aparentemente de cura -- na cabeça de um homem deitado, pode criar uma fissura entre Trump e a direita religiosa, cujo apoio foi fundamental para sua vitória na eleição de 2024.
Na imagem semelhante a uma pintura, Trump segura um globo brilhante em uma mão e usa a outra para tocar na testa de um homem aparentemente doente. Ao fundo, podem ser vistos a Estátua da Liberdade, fogos de artifício, aviões de combate e águias.
Trump negou nesta segunda-feira que a imagem tivesse a intenção de mostrá-lo como uma figura semelhante a Jesus, chamando-a de "notícia falsa".
"Supõe-se que eu, como médico, esteja fazendo as pessoas melhorarem, e eu faço as pessoas melhorarem", disse ele a jornalistas na Casa Branca, logo após a exclusão da imagem.
Brilyn Hollyhand, que atuou como copresidente do Conselho Consultivo da Juventude do Comitê Nacional Republicano, escreveu no X: "Isso é uma blasfêmia grosseira. A fé não é um adereço. Você não precisa se apresentar como um salvador quando seu histórico deveria falar por si só".
Riley Gaines, ex-nadadora universitária e crítica declarada de atletas transgêneros em esportes femininos que já apareceu com Trump em comícios, escreveu no X que não conseguia entender por que Trump publicou a imagem.
"Será que ele realmente pensa assim?", escreveu ela. "De qualquer forma, duas coisas são verdadeiras. 1) um pouco de humildade lhe faria bem; 2) não se pode zombar de Deus."
Os eleitores cristãos, incluindo os católicos, integram uma parte essencial da base política de Trump, que não frequenta a igreja regularmente, mas conquistou grandes maiorias de eleitores cristãos na eleição de 2024, inclusive católicos, que antes estavam mais divididos.
Após Trump sobreviver por pouco a uma tentativa de assassinato em julho de 2024, alguns apoiadores evangélicos disseram que isso era prova de que ele havia sido abençoado por Deus.
MOMENTO DECISIVO
David Gibson, diretor do Centro de Religião e Cultura da Universidade de Fordham, uma escola católica, disse que era difícil entender o motivo de Trump para atacar Leão e postar a imagem, mas também avaliou como difícil prever se os católicos norte-americanos se voltariam contra ele.
"Será que essa ação cruzará uma linha vermelha para eles? Será que eles finalmente punirão Trump e o Partido Republicano nas urnas?", questionou. "Este é um momento decisivo -- os católicos nos Estados Unidos escolherão o papa ou o presidente?"
O bispo Robert Barron, que atua em uma comissão de liberdade religiosa criada por Trump, disse no X que o presidente devia a Leão um pedido de desculpas por suas declarações "inapropriadas" nas redes sociais. Mas também elogiou Trump na mesma postagem por sua aproximação com os católicos.
Trump disse a jornalistas nesta segunda-feira que não tinha "nada pelo que pedir desculpas" ao papa.
Nas últimas semanas, Leão se tornou um dos críticos mais proeminentes da guerra no Irã, até mesmo fazendo um apelo direto incomum a Trump e pedindo-lhe para encontrar uma "saída".
Leão também disse que Jesus não pode ser usado para justificar a guerra e que Deus rejeita as orações daqueles que iniciam conflitos.
As falas foram amplamente vistas como uma repreensão a autoridades do governo Trump, como o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, que citou as escrituras para justificar o uso de "violência avassaladora" contra os inimigos e comparou o resgate de um aviador norte-americano no Irã à ressurreição de Jesus Cristo.
Trump também brigou algumas vezes com o antecessor de Leão, Francisco, que se opôs publicamente à campanha de deportação de imigrantes por considerá-la não cristã. No ano passado, após a morte de Francisco, Trump postou uma imagem mostrando a si mesmo como papa, o que provocou a indignação de muitos católicos.
Pelo menos oito membros do gabinete de Trump são católicos, incluindo o vice-presidente, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio.
(Reportagem de Brad Brooks, Helen Coster, Joseph Ax e Jarrett Renshaw; reportagem adicional de Joshua McElwee, Gram Slattery e Trevor Hunnicutt)



