WASHINGTON — O encontro entre os líderes da Coreia do Norte, Kim Jong-un, e da China, Xi Jinping, em Pequim, foi encarado pelo governo americano como um passo adiante na tentativa de desnuclearização da Península Coreana. Nesta quarta-feira, no Twitter, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contou ter recebido um telefonema positivo de Xi, e demonstrou boas expectativas para seu encontro com Kim, embora tenha destacado que a postura dura em relação ao regime norte-coreano não mudará tão cedo.
“Recebi uma mensagem na noite passada de Xi Jinping, da China, dizendo que seu encontro com Kim Jong-un correu muito bem, e que Kim está ansioso para se encontrar comigo”, escreveu o presidente. “Até lá, infelizmente sanções e pressão máximas devem ser mantidas custe o que custar.”
Na opinião de analistas internacionais, a nova postura do líder norte-coreano aponta possíveis direções para as tão esperadas negociações entre Washington e Pyongyang. Na opinião de Adam Mount, do Projeto de Postura de Defesa da Federação de Cientistas Americanos, Pequim está se reposicionando numa tentativa de pautar a agenda dos próximos encontros. Principal parceira comercial da Coreia do Norte, ao adotar sanções, a China foi peça fundamental nas iniciativas internacionais contra o programa nuclear de Kim.
— As desavenças entre Pequim e Pyongyang foram um grande elemento na campanha de pressão de Trump — afirmou Mount ao “Washington Post”. — Um reforço de seus laços enfraqueceria Trump nas negociações, diminuindo a eficácia das ameaças militares. O simples fato de o encontro ter acontecido eleva as vantagens diplomáticas de Kim para as próximas negociações e mostra que a Coreia do Norte tem um amigo em Pequim, e que o governo americano não terá tanta liberdade de manobra.
Desde a Guerra da Coreia, nos anos 1950, os EUA mantêm forte presença militar na Coreia do Sul, e não têm relações diplomáticas com o Norte. Exercícios militares regulares entre americanos e sul-coreanos vêm ajudando a elevar as tensões, assim como testes nucleares e de mísseis balísticos feitos por Pyongyang. O desenvolvimento do programa de mísseis levou Washington a aplicar fortes sanções ao país, e deu a Trump munição para seus ataques no Twitter, incluindo uma ameaça a Kim na qual afirmou ter “um botão nuclear muito maior” que o do norte-coreano.
O princípio de degelo das relações começou no início do mês passado durante as Olimpíadas de Inverno, realizadas na cidade sul-coreana de PyeongChang. Apesar das crescentes tensões, a Coreia do Norte enviou uma delegação, que marchou ao lado dos atletas sul-coreanos e integrou o time feminino de hóquei da Coreia Unificada. No evento, a irmã do líder norte-coreano, Kim Yo-jong, encontrou o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, e entregou uma mensagem de seu irmão. Desde então, os dois países concordaram em sediar juntos os Jogos Asiáticos de Inverno de 2021, e no início deste mês uma delegação sul-coreana viajou a Pyongyang e levou uma mensagem de Kim a Washington. Uma cúpula entre os líderes das duas Coreias está sendo preparada e deve acontecer antes da reunião de Kim com Trump — nesta quarta-feira, uma delegação do Norte seguiu para a zona desmilitarizada que separa a península para encontrar representantes do Sul.
Enquanto isso, a mensagem que chega à capital americana após as fotos do encontro, mostrando apertos de mãos efusivos entre Xi e Kim, é que qualquer ação em relação à Coreia do Norte terá que ser previamente aprovada por Pequim. Para Ni Lexiong, especialista da Universidade de Xangai, Kim se aproveita dos conflitos entre China e EUA para “obter benefícios de ambos os lados”. Já Cheong Seong-chang, especialista em liderança norte-coreana no Instituto Sejong, em Seul, crê que o fato de a China ter se tornado mais disposta a agir, reforçando sanções e cortando a importação de produtos norte-coreanos, ajudou a levar Kim Jong-un a negociar.
— A China está dizendo aos Estados Unidos e ao resto do mundo: “Quem quiser negociar qualquer coisa relativa ao futuro da Península Coreana deve saber que não poderá fazê-lo sem nós” — afirmou o ex-primeiro-ministro australiano Kevin Rudd ao “New York Times”.
Trump disse ter esperanças de que Kim faça “a coisa certa pelo seu povo e pela Humanidade”. Apesar disso, há poucos relatos das discussões entre Xi e Kim para dar suporte às esperanças do presidente americano. A agência chinesa Xinhua afirma que o líder norte-coreano se mostrou aberto a dialogar com Trump e comprometido com a desnuclearização. No entanto, a imprensa estatal norte-coreana não fez qualquer menção semelhante.
A Xinhua afirma que Kim mencionou “medidas graduais e sincronizadas” com as de Coreia do Sul e os EUA, o que poderia sugerir uma disposição de Pyongyang de reduzir progressivamente seu arsenal em troca de contrapartidas do lado oposto — uma posição adotada sem sucesso pelo país no passado. O novo conselheiro de Segurança Nacional de Trump, John Bolton, já indicou ter pouca paciência para negociações longas com o Norte.
Caso se concretize, o encontro de Trump e Kim será o primeiro entre líderes dos dois países. Mas aliados dos EUA estão inquietos. Nesta quarta, o premier japonês, Shinzo Abe, expressou temores de que Trump se concentre no perigo dos mísseis de longo alcance, que poderiam atingir os EUA, e deixe de lado os de curto alcance, que ameaçam o Japão.

