Trump e Biden trocam ataques pessoais e mantêm civilidade em último debate duro

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

22/10/2020 23h04 — em Mundo

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Donald Trump e Joe Biden se enfrentaram na noite desta quinta-feira (22) no segundo e último debate antes da eleição, num duelo menos agressivo e mais controlado do que o primeiro encontro, no fim de setembro, mas que não deixou de ser marcado por ataques pessoais e críticas duras entre os dois candidatos.

Após um primeiro debate caótico, lembrado pela agressividade e interrupções contínuas, houve mudanças nas regras para esta quinta, incluindo a possibilidade de a moderadora, a jornalista Kristen Welker, desligar o microfone dos candidatos durante a resposta inicial de dois minutos do adversário em cada um dos temas.

A pandemia do coronavírus e acusações mútuas sobre possíveis ligações obscuras dos dois políticos com negócios no exterior foram a tônica da primeira hora do debate.

Em um dos ataques mais agudos sobre a condução errática e ineficaz do presidente diante da pandemia que já matou mais de 222 mil pessoas nos EUA, Biden afirmou que o povo americano não está aprendendo a lidar com o vírus, como diz o republicano, mas a morrer com ele, e pediu a responsabilização do presidente.

"Ele [Trump] diz que estamos aprendendo a viver com isso, mas as pessoas estão aprendendo a morrer com isso", afirmou o democrata.

Trump respondeu que acatava a responsabilidade, para em seguida repetir a ideia de que o vírus veio da China, e não tem culpa sobre a tragédia de saúde pública. "Assumo total responsabilidade. Não é minha culpa que esse vírus chegou, é culpa da China", disse o presidente.

Biden subiu ao palco com a missão de não deslizar ao defender sua ampla liderança na corrida, que chega em média a dez pontos, enquanto Trump buscava o que poderia ser sua última chance de mudar a narrativa da campanha e conseguir uma virada histórica rumo à reeleição.

"Vocês sabem quem eu sou, sabem quem ele é, conhecem meu caráter e minha reputação por falar a verdade", Biden resumiu sua estratégia. Trump rebateu: "Vocês sabem que ele é um político corrupto".

A 12 dias do pleito, não deve haver outro momento em que os poucos eleitores ainda indecisos --menos de 5%-- se voltarão com tanta atenção às mensagens do presidente e de seu adversário, em uma disputa polarizada, na qual cerca de 47 milhões de pessoas já votaram de forma antecipada.

Segundo o site FiveThirtyEight, que compila as principais pesquisas dos EUA, Biden tem 52,1% ante 42,2% de Trump. O democrata também lidera em vários estados considerados chave para a vitória no Colégio Eleitoral, sistema indireto que escolhe o presidente americano.

Em contrapartida nos ataques mais severos no âmbito da pandemia, Trump acusou Biden de enriquecer de forma ilícita e se esconder no porão durante os picos da crise, enquanto o democrata disse que nunca pegou dinheiro de países estrangeiros e atacou o presidente por não divulgar suas declarações de imposto de renda ou esclarecer seus negócios com a China.

"Acabei de pagar bilhões de dólares à China", disse Trump, falando sobre regulações de comércio exterior. "Dinheiro do contribuinte", retrucou Biden, sem perder tempo.

"Nunca peguei dinheiro de nenhum país", disse Biden, defendendo. "Você não mostrou nenhum ano da sua declaração de impostos. O que está escondendo? Os países estão te pagando muito, a China está te pagando, a Rússia está te pagando, a China está te pagando."

O presidente disse ainda que a família do democrata "era como um aspirador de pó, pegando dinheiro de todo lado", e Biden respondeu: "Isso não é sobre a família dele ou minha família. É sobre a sua família".

"Divulgue suas declarações de impostos de renda ou pare de falar sobre corrupção", completou o ex-vice-presidente.

Auxiliares diziam que Trump não deveria repetir o desempenho raivoso do primeiro debate, que não agradou para além de sua base eleitoral cativa, e o presidente chegou a dizer que poderia mudar a postura.

Mas mesmo seus assessores não acreditavam que ele abriria mão de sua habitual estratégia diversionista, defendendo seu governo com informações falsas e ataques pessoais para desconcentrar Biden --aos 74 anos, o republicano costuma questionar a idade e a capacidade mental do rival para governar. Biden completa 78 anos no próximo mês.

Trump explorou mais uma vez o envolvimento de um dos filhos do democrata, Hunter Biden, em uma empresa de gás na Ucrânia. Como era esperado, o presidente incluiu no bojo de seus ataques a reportagem do tabloide New York Post, divulgada na semana passada e envolta em controvérsias.

O artigo sugere que Biden usou o cargo de vice-presidente para enriquecer seu filho Hunter. O tabloide, que pertence a Rupert Murdoch desde 2007, baseou o texto em fotos e documentos que, segundo a publicação, foram tirados de um laptop que supostamente pertencia a Hunter.

O jornal The New York Times, por sua vez, revelou que a reportagem foi escrita por um repórter do tabloide que se recusou a assiná-la porque tinha dúvidas sobre a credibilidade da apuração.

Em sua espiral ofensiva, Trump insistiu na tese de que Biden é ligado ao que chama de esquerda radical do Partido Democrata, apesar de o ex-vice de Barack Obama ser um candidato moderado. O presidente vocifera que o adversário vai levar o socialismo aos EUA caso vença em novembro, numa tentativa de assustar eleitores moderados dos subúrbios, que costumam variar o voto entre democratas e republicanos nas eleições.

Realizado em Nashville, o debate desta quinta ocorreu em meio a dois temas cruciais para o presidente: o aumento de casos do coronavírus nos EUA --a pandemia já matou mais de 222 mil americanos e tem piorado as transmissões com a chegada do clima mais frio-- e a confirmação pelo Senado da juíza conservadora Amy Coney Barrett para uma vaga na Suprema Corte.

Como o voto não é obrigatório nos EUA, o candidato precisa motivar mais eleitores às urnas para vencer, e Trump conta com a indicação de Barrett como trunfo entre os mais conservadores. A pandemia, porém, é o calcanhar de aquiles do presidente, e o esforço de Biden sempre foi deixar o tema no centro da discussão.

O desafio do democrata era mais uma vez centrar a pauta na condução errática e ineficaz de Trump diante da pandemia, enquanto evitava cair nas provocações do presidente. No primeiro debate, Biden perdeu a paciência logo início, ao ser interrompido diversas vezes por Trump, e o mandou calar a boca.

Levantamentos mostraram que a postura agressiva de Trump naquele duelo e seu diagnóstico de Covid-19, divulgado dois dias após o debate, prejudicaram o republicano, e Biden abriu boa vantagem nas principais pesquisas nas últimas semanas.

Os temas do embate desta quinta, moderado pela jornalista Kristen Welker, da NBC News, eram: luta contra a pandemia, famílias americanas, questão racial nos EUA, mudanças climáticas, segurança nacional e liderança. Essa foi a segunda vez na história que uma mulher negra mediou um debate entre os candidatos --a primeira foi em 1992. Antes do evento, transmitido ao vivo pela TV americana, Trump atacou a moderadora, acusando-a de ser parcial.

A campanha de Trump criticou a escolha dos assuntos, feita pela jornalista, argumentando achar que o debate seria sobre política externa. O presidente se esforça para desviar a pauta de terrenos nos quais ele tem sido mal avaliado, como a pandemia, e sempre que pode vira os holofotes para sua postura anti-China, que tem ressonância entre boa parte dos americanos.

Assim como no primeiro debate, o encontro desta quinta teve plateia reduzida, de 80 a 90 pessoas, todas precisavam usar máscaras e fazer teste para o diagnóstico de Covid-19 previamente. As duas campanhas, porém, concordaram em eliminar a separação de vidro que haveria entre os candidatos após ambos terem teste negativo para Covid-19.

No duelo de setembro, familiares de Trump retiraram a proteção facial ao chegarem ao estúdio, o que gerou críticas inclusive por parte do moderador, o jornalista Chris Wallace. Desta vez, a regra passou a ser: se não usasse máscara, seria retirado do local.

Havia ainda um debate marcado para o dia 15 de setembro, que teria sido o segundo encontro entre os candidatos, mas o evento foi desmarcado depois que Trump disse que não participaria virtualmente, como havia proposto a comissão --o presidente ainda estava no prazo de quarentena após ter sido infectado pelo coronavírus.