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Trump é acusado de incitar violência contra jornalistas após vídeo

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WASHINGTON — Em sua estratégia de fazer das redes sociais seu principal palanque, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apontou suas armas no domingo para a emissora CNN em mais uma investida contra a imprensa americana — e acabou criticado até por colegas de partido. Em sua conta pessoal (@realDonaldTrump) no Twitter, o republicano postou um vídeo de 28 segundos que o mostra nocauteando um homem com a logo da rede de notícias no lugar do rosto, voltando a chamá-la de “Fraud News Network”. Além das críticas pela falta de postura na internet, o magnata foi acusado de incitar a violência contra jornalistas, três dias após ridicularizar e menosprezar um casal de apresentadores de um noticiário matinal.

A montagem foi feita em cima de uma gravação de 2007, quando o bilionário participou do World Wrestling Entertainment (WWE), evento que promove a encenação de luta livre. Naquela noite, Trump entrou no roteiro e simulou ter derrubado Vince McMahon, diretor-executivo da WWE, empresa que promove o espetáculo. O vídeo ainda é acompanhado pela hashtag “#FraudNewsCNN”, que acusa a emissora de publicar notícias falsas.

Com o gesto, o que era para ser uma brincadeira na televisão se tornou material para mais um ataque do presidente à imprensa americana. E o alcance da mensagem foi amplo: a conta pessoal de Trump tem 33 milhões de seguidores. Não bastasse isso, o vídeo-montagem também foi republicado pelo perfil oficial da Presidência dos EUA (@POTUS), que chega a outros 19 milhões de seguidores, fora o compartilhamento em outras plataformas. Críticos da postura de Trump enfatizaram o viés institucional que o compartilhamento pela conta da Presidência traz à situação.

“É um dia triste quando o presidente dos Estados Unidos encoraja a violência contra jornalistas. Em vez de se preparar para sua próxima viagem à Europa e para o encontro com (Vladimir) Putin, assume posturas infantis que não estão à altura de seu papel. Continuaremos a fazer nosso trabalho. E ele deve começar a fazer o seu”, disse a CNN em comunicado.

A mensagem de Trump repercutiu negativamente entre veículos da imprensa e até mesmo entre partidários do presidente. O Comitê de Proteção a Jornalistas (CPJ) se mostrou preocupado com a rejeição de Trump a empresas de mídia que passou a ser transmitida pelo púlpito da Casa Branca:

“Mirar em jornalistas individuais ou veículos da mídia, on ou offline, cria uma efeito inibidor e fomenta um ambiente onde o assédio ou mesmo o ataque físico é considerado aceitável”, escreveu em nota a diretora legal do CPJ, afirmando que os comentários de Trump podem encorajar “líderes autocráticos pelo mundo”.

A Comissão de Repórteres pela Liberdade de Imprensa condenou o tuíte, classificando a publicação como uma “ameaça de violência física contra jornalistas”. O diretor-executivo da organização, Bruce Brown, considerou a atitude “abaixo do gabinete da Presidência”.

Alguns jornalistas consideraram o gesto de Trump perigoso. Carl Bernstein, cujo trabalho ao lado de Bob Woodward sobre o escândalo de Watergate resultou na renúncia do presidente Richard Nixon, em 1974, disse que se trata de um episódio contra a liberdade de expressão:

— É muito perturbador. Não há nada leve sobre esse assunto — avaliou o repórter, que também é analista político da CNN.

— Acho indecoroso que o presidente possa atacar jornalistas por fazer seus trabalhos, e encorajar tamanha raiva contra a mídia — sustentou Dean Baquet, diretor-executivo do jornal “The New York Times”.

No programa "This Week", da rede ABC, a estrategista republicana Ana Navarro disse que o tuíte de Trump é “uma incitação à violência”:

— Ele vai fazer alguém ser morto na mídia — declarou ela, que é uma comentarista de posicionamentos críticos ao republicano nas emissoreas CNN e ABC.

A Casa Branca não se manifestou sobre o episódio. Apenas o assessor de Segurança Interna, Thomas Bossert, comentou o caso, dizendo que ninguém poderia, de fato, considerar essa publicação uma ameaça.

— Eu espero que não. Mas realmente acho que ele está sendo tão massacrado nas plataformas que tem o direito de responder — ponderou. — Ele é um presidente genuíno se expressando genuinamente.

Pouco antes, durante um evento em Washington, o governante já havia acusado a imprensa de ter tentado impedir sua chegada à Casa Branca. Trump defendeu o uso das redes sociais como canal de comunicação com o povo, e garantiu que não mudará sua maneira de usá-las.

— A mídia falsa está tentando nos silenciar, mas não vamos deixar. As pessoas sabem a verdade — disse o chefe de Estado. — A mídia falsa tentou nos impedir de chegar à Casa Branca, mas sou o presidente; eles, não.

No Twitter, ele se direcionou aos que dizem que sua postura nas mídias sociais não é adequada para um chefe de Estado. A postagem foi feita após Trump retomar seus ataques pessoais aos apresentadores do programa de TV americano “Morning Joe” no sábado. Trump criticou Joe Scarborough e Mika Brzezinski, afirmando que “o louco Joe Scarborough e a burra como uma pedra Mika não são más pessoas, mas seu programa de baixa audiência é dominado por seus chefes da NBC”. O episódio se somou às insatisfações de milhares de americanos que protestaram em diversas cidades pelo país contra o presidente.

“Meu uso das mídias sociais não é presidencial, mas de um presidente moderno”, escreveu ele no Twitter, finalizando com o seu lema de campanha nas eleições: “Tornar a América grande outra vez.”

Trump já havia atraído críticas esta semana por outras publicações na rede social em que chamou Brzezinski de louca e com baixo Q.I., dizendo que ela estava “sangrando muito” por causa de uma operação estética no rosto quando os recebeu em um de seus resorts na Flórida, em dezembro passado. Em artigo no “Washington Post”, os apresentadores disseram que Trump mentiu sobre tal encontro, e questionaram sua “doentia obsessão” e capacidade mental para compreender o programa. Na publicação, eles afirmaram ainda ser “incrivelmente alarmante que um presidente se deixe provocar tão facilmente”.

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