WASHINGTON - Embora o discurso na campanha eleitoral indicasse uma ruptura absoluta com a gestão de Barack Obama, o início da era de Donald Trump à frente da Presidência americana tem enviado sinais confusos no campo da política externa. Por um lado, o novo governo manteve o discurso da campanha e anunciou sanções ao Irã e uma revisão da reaproximação diplomática com Cuba. Por outro, Trump, que alardeou suas boas relações com os governos de Rússia e Israel — duas nações com as quais Obama teve uma convivência bastante conturbada — manteve o espírito do antecessor ao criticar as intervenções russas no Leste da Ucrânia e a expansão de assentamentos judaicos na Cisjordânia.
O governo americano anunciou sanções contra 13 cidadãos iranianos e 12 companhias do país em resposta a um teste de míssil balístico pelo Irã e a um ataque de rebeldes houthis iemenitas, apoiados por Teerã, a um navio de guerra saudita. Trump, que durante a campanha eleitoral prometeu desfazer o acordo sobre o programa nuclear iraniano negociado por Obama, disse que o Irã “brincava com fogo”.
“Eles não valorizam o quão ‘bondoso’ o presidente Obama foi com eles”, alfinetou Trump no Twitter. “Eu não serei”.
No Irã, o ex-chanceler Ali Akbar Velayati, principal assessor do aiatolá Khamenei, o líder supremo do país, classificou o presidente americano como “marionete”, “novato” e “extremista”.
— Essa não é a primeira vez que um homem inexperiente ameaça o Irã — afirmou Velayati.
Em resposta às sanções americanas, o Ministério da Relações Exteriores do Irã — que integra a lista de países cujos cidadãos tiveram a entrada vetada nos EUA pelo governo Trump na semana passada — afirmou que irá impor “restrições legais a indivíduos e entidades americanos envolvidos no apoio e financiamento de grupos terroristas regionais”.
A Casa Branca também anunciou a revisão completa das políticas em relação a Cuba. Segundo o secretário de Imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, o foco da ação é reformular as políticas de direitos humanos, como parte de um compromisso global no tema por parte do governo.
Durante a campanha, Trump já havia ameaçado reverter o processo de reaproximação diplomática com Havana, iniciado por Obama e o presidente cubano, Raúl Castro, no fim de 2014. No ano passado, após a morte de Fidel Castro, Trump classificou o líder cubano como “um ditador brutal que oprimiu seu próprio povo por quase seis décadas”.
Se com Irã e Cuba não há nada de novo no roteiro da Casa Branca, com Rússia e Israel a situação se mostra diferente. Durante a campanha, Trump não escondeu sua admiração pelo presidente russo, Vladimir Putin, mas na noite de quinta-feira, a nova embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, condenou o que classificou como “recentes ações agressivas” da Rússia no Leste da Ucrânia.
— Queremos melhorar nossas relações com a Rússia, no entanto a situação no Leste da Ucrânia exige uma clara condenação das ações russas — afirmou Haley em seu discurso inicial na ONU. — A Crimeia é parte da Ucrânia, e nossas sanções permanecerão em vigor até que a Rússia devolva a península aos ucranianos.
Na relação com Israel, o governo também adotou uma atitude surpreendente. Depois de Trump afirmar durante a campanha que o país havia sido “destratado” pelo governo Obama, e anunciar a intenção de transferir a embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém — uma medida altamente polêmica — o governo se manifestou na quinta-feira sobre os planos do governo israelense de expandir assentamentos judaicos na Cisjordânia. Desde a posse de Trump na Presidência há duas semanas, o governo israelense anunciou a construção de mais de seis mil casas em territórios ocupados, e tais declarações foram recebidas com silêncio por parte de Washington. Na quinta-feira, mesmo sem condenar diretamente a política de colônias, Spicer afirmou que a construção de assentamentos além das fronteiras atuais pode dificultar a obtenção da paz na região. O porta-voz deixou claro, ainda, que Trump não tem uma posição oficial sobre o assunto e discutirá o tema com o premier israelense, Benjamin Netanyahu, no fim do mês.
“A declaração da Casa Branca nos diz que a oposição de Trump aos assentamentos dá continuidade à política americana de longa data”, escreveu no Twitter Dan Shapiro, embaixador americano em Israel durante a gestão de Obama.
Reunidos em Valetta, capital de Malta, líderes da União Europeia (UE) não pouparam críticas ao presidente americano. As manifestações se intensificaram depois que deputados do Parlamento Europeu revelaram seus planos de bloquear a indicação de Ted Malloch — que afirmou ter intenções de “domar” o bloco — como embaixador dos EUA na UE.
— O futuro da UE está em jogo — afirmou o presidente francês, François Hollande. — É inaceitável que haja, por meio de declarações do presidente americano, pressão para definir o que a Europa deve ou não ser. Não haverá futuro com Trump se não houver uma posição comum.

