WASHINGTON - Com um discurso em tom beligerante em Miami, Donald Trump congelou na sexta-feira a reaproximação entre os Estados Unidos e Cuba, condicionando novos avanços à abertura política na ilha, e, com isso, atendendo a um pleito dos republicanos mais linha-dura. O discurso, no entanto, pode ter resultados contrários em Havana, segundo especialistas. E, apesar dos novos desafios políticos, as restrições que revertem parte das políticas adotadas pelo governo de Barack Obama foram consideradas moderadas: voos, remessas e embaixadas estão mantidos, com algumas alterações.
— Estou cancelando completamente o acordo de Obama com Cuba — disse Trump ao lado de líderes cubano-americanos do Sul da Flórida. — O alívio da gestão anterior sobre restrições a respeito de viagens e comércio não ajuda o povo cubano, apenas enriquece o regime cubano.
Trump, que falou no Teatro Manuel Artime — nome de um dos líderes da brigada que desembarcou na Baía dos Porcos na década de 1960, em um dos maiores momentos de tensão entre os dois países — condicionou uma possível reaproximação com a ilha à ampliação das liberdades do povo cubano. Ele afirmou que não vai suspender sanções contra Cuba até que o governo liberte todos os presos políticos, legalize todos os partidos e organize eleições livres, algo que é rechaçado pelo governo de Raúl Castro.
Usando a defesa dos direitos humanos como argumento para a mudança, Trump atende um pleito da ala mais radical dos cubano-americanos do Sul da Flórida. As medidas práticas, anunciadas na véspera pela Casa Branca, visam a limitar as viagens pessoais de americanos a Cuba e a proibir qualquer relação comercial com empresas ligadas a militares cubanos — que representam cerca de 60% da economia da ilha — e ainda atendem o discurso de que o governo está preocupado com o povo cubano, mas não quer beneficiar o regime castrista.
— Não apoiaremos o monopólio militar que oprime os cubanos — disse, ovacionado.
Trump, contudo, não retomou a política “pés secos, pés molhados”, que garantia asilo aos cubanos que chegassem aos EUA, de qualquer maneira. A medida, um incentivo aos dissidentes do regime, foi muito criticada durante o governo de Fidel Castro, sendo removida apenas no último ano de Barack Obama na Casa Branca.
A professora de Sociologia Silvia Pedraza da Universidade de Michigan — cubana radicada nos EUA desde os 12 anos — não vê grandes impactos na remessa de recursos para familiares em Cuba e nem no turismo. Mas acredita que, politicamente, o discurso deve afetar a ilha:
— Retornamos à situação anterior, onde as peças do xadrez dos dois países voltaram a ser congeladas — afirmou. — Acredito que Obama tinha realmente exigido pouco do regime de Raúl Castro quando fez sua reaproximação, mas congelar totalmente os avanços não é a melhor solução.
Mas Arturo López-Levy, da Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Denver, vê o risco de uma reação contrária à esperada:
— Havana está se preparando para a saída de Raúl Castro do poder e a chegada do primeiro presidente civil em décadas, mas essas restrições podem dar mais força aos militares — disse o especialista. — Além disso, as lentas mudanças que o governo cubano estava fazendo em direção a uma economia de mercado tendem a perder a força, e o governo pode adotar ainda mais cautela.
López-Levy afirma que Trump não está realmente pensando em Cuba, mas sim em sua ligação com os republicanos do Sul da Flórida, que recentemente votaram a favor de sua proposta de reforma de saúde na Câmara dos Representantes. Ele considera parte das medidas sem efeito prático pois, em sua opinião, será muito difícil controlar os gastos dos americanos na ilha. E, lembra, as medidas de Trump são injustas:
— As viagens familiares seguem sem alterações, ou seja, as pessoas que defenderam restrições às viagens à Cuba continuarão indo livremente para lá.
Segundo ele, os impactos no setor turístico não deverão ser muito fortes. Mesmo assim, empresas aéreas que fazem as rotas entre os dois países se mostraram apreensivas na sexta-feira, esperando alguma redução. No acumulado deste ano, 285 mil americanos foram à ilha — mesma quantidade de todo o ano passado — e esperava-se que chegariam a 400 mil até dezembro. Uma quantidade relevante para um país de 12 milhões de habitantes.

