WASHINGTON - Junto com a comoção nacional pelo maior masacre da História moderna dos EUA ressurgiu com força o debate sobre o controle de armas. A hashtag #guncontrol (controle de armas) foi a segunda mais usada no mundo ontem no Twitter, atrás apenas do nome do local da tragédia, Las Vegas. Mas a resistência ao tema é grande no país que possui mais armas do que carros — 265 milhões de armas, contra 263,6 milhões de veículos, segundo levantamento do “Guardian” e informações do Departamento de Transporte dos EUA. Ontem, a Casa Branca afirmou que “é prematuro” reabrir a discussão agora, e a postura do presidente Donald Trump sobre o caso — sua primeira grande chacina como presidente — foi criticada por pacifistas, que lembraram que ele foi apoiado formalmente nas eleições pela Associação Nacional de Rifles (NRA), principal lobista de armamento nos EUA.
— Há um momento e um lugar para o debate político, mas agora é o momento de nos unirmos como país. Seria prematuro discutir política quando ainda não conhecemos todos os fatos — afirmou Sarah Huckabee Sanders, porta-voz da Casa Branca, que reafirmou a defesa de Trump pela Segunda Emenda, que garante o direito ao porte de armas.
Mais cedo, Trump anunciou que viajará a Las Vegas amanhã — ele manteve a viagem a Porto Rico hoje, onde vem sendo muito criticado pela falta de apoio após a passagem do furacão Maria — e adotou um tom comedido em todas as suas manifestações, principalmente, a primeira, no Twitter. A resposta foi muito criticada por pacifistas e democratas. Seu posicionamento contrastou com as declarações de Barack Obama em tragédias semelhantes, quando aproveitava para lembrar como a facilidade de comprar armas ampliava o problema.
Ontem, Obama condenou novamente a tragédia “sem sentido”, mas coube a Hillary Clinton, candidata derrotada por Trump, reabrir o debate: “Nossos lamentos não são suficientes. Temos que colocar a política de lado e enfrentar a NRA e trabalhar juntos para evitar que isso se repita”, tuitou.
Seu forte posicionamento contra as armas pode ter feito com que, em 2016, fosse registrado um recorde na venda de armas, pelo temor de que Hillary chegasse à Casa Branca. Segundo dados de consulta de antecedentes criminais do FBI, nos oito primeiros meses do ano passado foram registrados 17,9 milhões de consultas, contra 14,3 milhões de janeiro a agosto deste ano. Mas, mesmo diminuindo, os números indicam que ao menos 59.779 pessoas tentaram comprar armas por dia em 2017.
Ontem, os democratas voltaram ao debate, capitaneados pela ex-deputada Gabby Giffords, do Arizona, que quase morreu baleada em campanha em 2011. Giffords disse que está rezando tanto pelas vítimas e familiares como pelos líderes eleitos para que eles “tenham a coragem necessária” para mudar as leis. Já o ex-vice-presidente Joe Biden afirmou “não há desculpa para a inação”. Mais enfático, o senador Richard Blumenthal disse estar “furioso” de que o Congresso “se recuse a agir”. Já o senador Chris Murphy instou o Congresso a “levantar a bunda da cadeira e fazer algo”.
— Em nenhum lugar do mundo há ataques de massa em grande escala com esse grau de regularidade como nos EUA — lembrou Murphy.
Mas, mesmo quando os democratas estavam na Casa Branca, o tema não avançou. Após o massacre em Orlando, quando 49 pessoas foram assassinadas na boate Pulse, os partidários de Obama tentaram aprovar algumas medidas, como a proibição da venda de armas para pessoas que estejam na lista de observados por ligação com o terrorismo, e restrições para que consumidores com problemas mentais comprem. Mas os republicanos impediram que os projetos avançassem.
E a chegada de Trump à Casa Branca alterou o jogo de forças. Sua secretaria de Educação, Betsy DeVos, defende armas na escolas, por exemplo, para prevenir eventuais ataques de ursos, algo que nunca ocorreu. A NRA, não se pronunciou sobre o caso, nem mesmo pelas redes sociais. Mas decidiu adiar um anúncio que começaria nesta segunda-feira nas emissoras de TV do estado de Virgínia, onde apoiaria candidatos republicanos que defendem o livre porte de armas nas eleições de novembro.

