Taleban dá mais um passo para voltar a ser governo com apoio da China

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

28/07/2021 10h36 — em Mundo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A retirada acelerada das tropas americanas do Afeganistão segue chacoalhando a geopolítica da região, com China e Rússia tomando atitudes rápidas na esteira do avanço do Taleban de volta ao poder.

O grupo fundamentalista islâmico, que governou de 1996 até ser expulso pela invasão dos EUA em 2001, deu um passo importante na consolidação de sua posição política e militar nesta quarta (28).

Uma delegação de nove membros de sua cúpula, liderada pelo negociador-chefe mulá Abdul Ghani Baradar, um dos fundadores do grupo, encontrou-se com o chanceler chinês, Wang Yi, em Tianjin (norte da China).

Wang falou o que os visitantes queriam ouvir. "O Taleban é uma força política e militar central para o Afeganistão, e vai exercer um importante papel no processo de paz, reconciliação e reconstrução do país", disse.

Em outras palavras, a China está pronta para apoiar os talebans caso venham a desalojar o governo central em Cabul, que tem suporte dos americanos e dos aliados ocidentais.

O chanceler também apresentou o seu pedágio: que o Taleban pare de apoiar o grupo terrorista islâmico Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, que age contra alvos chineses na região de maioria muçulmana uigur de Xinjiang.

"O grupo é listado como terrorista pelo Conselho de Segurança da ONU. Espero que o Taleban corte seus laços com terrorista como ele e tenha um papel ativo na estabilidade regional", disse Wang, segundo as agências chinesas.

A esperança chinesa é integrar Cabul à sua zona de influência asiática, que já conta com o Paquistão, país vizinho onde o grupo terrorista foi formado nos anos 1990 para combater na guerra civil afegã que seguiu a retirada soviética de 1989.

Os paquistaneses já integraram suas redes de transporte à Iniciativa Cinturão e Rota de comércio chinês, e para Pequim a adição de um novo aliado ainda teria o peso de espicaçar os rivais EUA, que dominaram os rumos afegão por 20 anos.

Negociar com o Taleban não é, claro, exclusividade de Pequim. A retirada americana ocorreu após o governo de Joe Biden cumprir o acertado entre seu antecessor, Donald Trump, e o grupo --que aproveitou o fato de ela não ocorrer em maio, como inicialmente previsto, para manter uma posição de desafio.

Com efeito, nas últimas semanas Washington autorizou bombardeios aéreos a posições do Taleban, em apoio ao Exército afegão, que ajudou a montar desde que instalou-se no país após a queda dos extremistas religiosos que haviam dado guarida à rede terrorista Al Qaeda --autora dos ataques do 11 de setembro de 2001 nos EUA.

A derrota dos americanos em sua mais longa guerra se cristalizou com o avanço dos talebans em vários distritos afegãos desde o anúncio da retirada das forças da Otan (aliança militar liderada pelos EUA), efetuada a partir do mês passado.

Um mapa elaborado pelo serviço afegão da rede britânica BBC mostra a maior parte do país tomada pelo Taleban ou sob ameaça de capitulação, com o governo mantendo alguns pontos, como o estratégico corredor central de Cabul à fronteira paquistanesa a leste.

Hoje os fundamentalistas cercam cidades importantes como Kunduz, Herat e Kandahar, e trechos importantes como a fronteira com Xinjiang, o que levou a delegação à China, e com o Tadjiquistão.

Neste último ponto, o entrechoque geopolítico é com Moscou, que sempre teve uma atitude ambígua em relação aos talebans --sendo acusada pelos EUA até de pagar pela morte de soldados americanos no país asiático, o que nega.

Também nesta quarta, o ministro da Defesa russo, Serguei Choigu, visitou o Tadjiquistão e prometeu reforçar militarmente o aliado para conter a "deterioração da situação no Afeganistão".

Desde o mês passado, tropas afegãs invadiram o território tadjique fugindo da ofensiva taleban que ora ocupa os principais pontos de passagem de fronteira entre os dois países.

Em resposta, mais de 200 mil homens de países da Ásia Central e da Rússia fizeram exercício de mobilização militar na região e, na semana que vem, forças do Kremlin vão coordenar uma simulação de guerra fronteiriça com os tadjiques e os uzbeques.

A preocupação imediata de Moscou é com a instabilidade em sua fronteira na Ásia Central, uma das grandes rotas estratégicas históricas de invasões, com eventual infiltração de elementos radicais islâmicos.

O Tadjiquistão é seu principal aliado por lá, onde mantém a maior base militar remanescente dos tempos em que tudo aquilo era a União Soviética.

Essa unidade, na capital tadjique, Dushanbe, tem 7.000 homens, 100 tanques, 300 blindados e até uma pequena esquadrilha com 5 aviões de ataque ao solo e 8 helicópteros. Ela também, segundo Choigu, será reforçada.

Fora da equação, até aqui, está a situação dos direitos humanos no Afeganistão, caso os talebans voltem a governar. O país não é exatamente um exemplo de abertura, mas vive uma situação escandinava se comparado aos anos do Taleban no poder, quando mulheres e minorias eram tratadas brutalmente.


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