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Sonho do Brasil de ter lavouras de cacau em escala fica distante após queda do preço

Sonho do Brasil de ter lavouras de cacau em escala fica distante após queda do preço
Sonho do Brasil de ter lavouras de cacau em escala fica distante após queda do preço

Por Marcelo Teixeira e Oliver Griffin e May Angel

SÃO PAULO, 12 Mar (Reuters) - Os produtores de cacau no Brasil frearam os novos projetos de plantio após uma queda de 70% nos preços em relação ao recorde de 2024, paralisando um crescimento que os investidores esperavam que tornasse o país um importante fornecedor do principal ingrediente do chocolate.

Com os preços atuais de cerca de US$3.000 por tonelada métrica, fazendeiros e analistas disseram à Reuters que esperavam que cerca de metade dos projetos de cultivo de cacau em escala industrial no Brasil poderiam ser cancelados.

Os projetos, concentrados no Nordeste do Brasil, teriam acrescentado pelo menos 75.000 hectares de área de cultivo, de acordo com uma estimativa da prestadora de serviços de cadeia de suprimentos Czarnikow, o suficiente para suprir quase 5% da demanda global por cacau.

"Acho que os planos de expansão do Brasil sofreram um enorme banho de água fria", disse Paulo Torres, consultor do setor de cacau em Londres e produtor de cacau na Bahia. O próprio Torres cancelou um plano de mais 30 hectares de cacau em sua fazenda na Bahia.

Os preços atuais não cobrem o investimento ou os custos de produção de novos campos, tornando os projetos brasileiros inviáveis, disse ele.

Os fazendeiros e investidores que planejaram as gigantescas fazendas de cacau no Brasil, apoiados por grandes empresas do setor, como a Cargill e a Barry Callebaut, viram nelas uma solução para os anos de escassez de oferta que levaram à disparada dos preços.

As fazendas planejadas teriam fornecido uma alternativa para a principal região de cultivo na África Ocidental. Gana e Costa do Marfim produzem quase 50% do cacau global, o que deixou o mercado vulnerável aos problemas de produção nessa região.

Clima desfavorável, mineração ilegal e doenças reduziram a produção da África Ocidental em 2023 e 2024, fazendo com que os preços subissem de uma média de US$2.500 por tonelada para mais de US$11.000 por tonelada e gerando pânico no setor.

Os comerciantes de cacau se esforçaram para obter amêndoas. O contrabando aumentou drasticamente na África, com pessoas contornando as compras oficiais do governo para vender através da fronteira a preços mais altos. O setor de chocolate aumentou os preços para compensar os custos de produção em espiral.

Desde então, a produção africana se recuperou e outras regiões, como o Equador, aumentaram a produção. Ao mesmo tempo, os consumidores reduziram a compra de chocolates caros, e os pequenos produtores de cacau no Brasil não estão ganhando dinheiro. No mês passado, um grupo deles bloqueou uma estrada que levava ao porto de Ilhéus, na Bahia, incendiando pneus velhos, para protestar contra a chegada de cacau importado da África.

Depois disso, o governo brasileiro suspendeu todas as importações de cacau da Costa do Marfim.

Os remédios para perda de peso reduziram ainda mais a demanda, e o setor reduziu o tamanho das embalagens e passou a usar ingredientes que não são derivados do cacau, como a manteiga de óleo de palma com sabor artificial, o que afetou a demanda por grãos e exacerbou a queda do preço do cacau.

ATRASOS E REAVALIAÇÕES

Moises Schmidt, um dos maiores produtores de cacau do Nordeste do Brasil, disse que o preço atual do cacau não cobriria os investimentos em irrigação e máquinas para cuidar da colheita e do processamento pós-colheita, típicos das fazendas da região.

"Se o mercado se mantiver abaixo de US$5.000 por tonelada, mais de 50% dos projetos já eram", disse ele.

Schmidt esperava supervisionar até 10.000 hectares de plantações de cacau, aproximadamente o tamanho de Manhattan. Ele se recusou a comentar o que a queda dos preços significa para seus próprios planos.

Duas fontes, uma delas um grande fazendeiro da região e a outra um executivo de um fornecedor de equipamentos agrícolas, disseram à Reuters que um grande projeto da empresa de investimentos NewAg Partners, sediada na Suíça, para até 8.900 hectares de campos de cacau, havia sido suspenso.

"Neste momento, preferimos não comentar", disse o chefe-executivo da NewAg, Detlef Schoen.

Há outras iniciativas na área cujo futuro é incerto.

A Copa Investimentos, uma gestora de ativos sediada em São Paulo com investimentos em agricultura e silvicultura, também estava planejando uma fazenda de cacau em escala industrial, mas um de seus sócios, Apolonio Sales, disse que agora está "avaliando" o investimento.

Sales disse que visitou algumas das novas fazendas de cacau e também conversou com comerciantes de cacau e empresas de chocolate, mas a empresa ainda não chegou a uma conclusão sobre a possibilidade de ir adiante.

CRESCIMENTO EM RITMO LENTO

A produção de cacau no Brasil ainda pode crescer, segundo os especialistas, mas em um ritmo muito mais lento, principalmente como uma estratégia de diversificação em fazendas onde as árvores cresceriam junto com outras culturas.

As grandes fazendas brasileiras, no entanto, tinham a intenção de proporcionar um crescimento rápido e maciço da produção. Uma área adicional de 75.000 hectares de campos irrigados poderia produzir 225.000 toneladas de grãos em quatro anos, ou 4,5% da produção global.

"Se uma grande fazenda tinha planos para 400, 500 hectares, agora ela terá 80 ou 100, apenas para começar a aprender sobre a cultura", disse Emerson Silva, executivo de vendas da Netafim, fabricante de equipamentos de irrigação.

A cooperativa brasileira Cooabriel, que anunciou uma iniciativa de cacau com a Cargill no ano passado, disse que continuaria a desenvolver seu projeto de pequena escala.

Os projetos do governo do Estado de São Paulo, que incluem o uso de cacaueiros para reflorestar partes degradadas de fazendas, também seguirão em frente, disse o coordenador Ricardo Pereira.

"Em algumas áreas, já temos mudas quase prontas para ir para o campo", disse ele, acrescentando que, como em qualquer mercado de commodities, os preços do cacau acabarão se recuperando.

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