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Sob ceticismo de críticos, Trump tenta tirar governo da paralisia

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WASHINGTON - O surpreendente discurso de Donald Trump na noite de terça-feira, em uma sessão conjunta do Congresso americano, pode significar um recomeço de seu governo, marcado por polêmicas e baixa aprovação até agora. Seu tom mais ameno, esperançoso e presidencial animou republicanos. Mas alguns especialistas afirmam que ainda é cedo para saber se Trump vai adotar de vez um perfil mais “estadista”. E sua proposta de fazer uma reforma migratória, algo que nem mesmo Barack Obama conseguiu aprovar, divide opiniões e pode se tornar o grande tema do país nos próximos dois anos.

Democratas e críticos de Trump afirmam que ele apenas provou ser capaz de ler um discurso de uma hora no teleprompter sem ofender ninguém, mas que, mesmo com roupagem mais palatável, suas propostas controversas estavam presentes. E lembram ainda que, horas antes do evento, Trump ofendeu a líder democrata na Câmara, Nancy Pelosi, e acusou, sem provas, o ex-presidente Obama de estar por trás dos vazamentos de informações da Casa Branca. Também relembram que ele mostrou posições diversas: no mesmo dia em que defendeu uma reforma que poderá legalizar milhões de imigrantes, fez pronunciamento duro e voltou a falar do muro na fronteira com o México.

Embora membros da Casa Branca tenham dito que o discurso sobre o Estado da União de terça-feira não representa um relançamento do governo Trump, o presidente mudou de atitude. Não publicou nada no Twitter desde o evento, exceto um educado “muito obrigado”, decidiu adiar sua nova versão da polêmica ordem para banir a chegada aos EUA de pessoas de alguns países de maioria muçulmana — a primeira foi suspensa pela Justiça — fará viagens para falar com militares e colocou seu vice, Mike Pence, para fazer um périplo em mais de dez entrevistas a TVs e rádios.

— O que o povo americano viu na noite de terça-feira é o presidente que eu sirvo todos os dias, de ombros largos e grande coração — afirmou Pence à MSNBC.

O presidente da Câmara, Paul Ryan, disse que o discurso prova que Trump é um presidente sério e tem projetos para o país, enquanto o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, afirmou que o evento mostrou o verdadeiro Trump.

Uma pesquisa da CNN apontou que 78% dos americanos aprovaram o discurso de Trump. Sua fala de uma hora foi vista por 43,4 milhões de americanos, número maior que a audiência de 21,3 milhões do Oscar — no qual ele foi muito criticado no domingo — mas aquém dos 52,4 milhões que assistiram ao pronunciamento de Obama ao Congresso, em 2009.

Chuck Schumer, líder da minoria democrata no Senado, partiu para o ataque:

— O discurso do presidente foi descolado da realidade deste presidente. Ele fala como um populista — disse, referindo-se a uma série de dados desfiados por Trump e que são mentiras ou exageros, segundo verificadores da imprensa americana.

Em editorial, o “New York Times” afirmou que o discurso repetiu a “Trumptopia”, ou seja, uma fantasia irrealizável que o presidente vende a seus eleitores. “Ele não explicou como conseguiria fazer tudo o que promete, muito menos pagar por qualquer proposta. Na verdade, parecia às vezes como se ainda estivesse concorrendo à Presidência, ao invés de estar sendo confrontado com a realidade de fazer as coisas”, disse o jornal.

— Talvez Trump tenha se olhado no espelho e tentado fazer algo diferente — disse ao GLOBO Aaron Kall, diretor de debates da Universidade de Michigan e autor de um livro sobre os discursos dos presidentes no Congresso, referindo-se aos insucessos que o presidente obteve em seus primeiros 40 dias na Casa Branca. — Ele pode continuar por um tempo com esta nova postura, mas talvez não resista muito e volte a atacar pessoas pelo Twitter e comprar brigas com a imprensa.

Apesar das incertezas das estratégias do republicano — que sempre se considerou um bom negociador — este novo “Trump paz e amor” poderá render frutos. Kall afirma que ficará muito mais fácil para ele negociar com seu próprio partido temas complexos como o fim do Obamacare, a reforma tributária, o Orçamento e seu plano trilionário de investimentos em infraestrutura — que até agora não tem um detalhe sequer divulgado.

Um capítulo à parte será a reforma migratória. Em seu discurso, Trump disse que pretende adotar um sistema para facilitar a chegada de pessoas de maior qualificação, apesar de insistir na construção do muro e nas ordens executivas que estão ampliando as deportações.

— É mais ou menos o que ocorreu com o governo de Richard Nixon. Apenas um republicano (muito mais contrários à reaproximação com Pequim) teve a condição de restabelecer relações com a China — exemplificou Ann Lin, professora da Universidade de Michigan e estudiosa sobre questões migratórias.

A especialista afirma que uma reforma como esta dominaria a agenda política dos EUA nos próximos dois anos e teria que ser aprovada até as eleições de novembro de 2018 — quando há grande renovação da Câmara e de um terço dos senadores — do contrário voltará à estaca zero com novos congressistas.

— Apesar de acreditar que Trump tem a possibilidade de avançar numa reforma, criando um ambiente adequado para isso, hoje sinto que as chances reais políticas de algo assim passar são extremamente baixas — disse.

O senador Marco Rubio, republicano da Flórida, afirmou que “tem esperanças” de fazer avançar um projeto bipartidário sobre imigração:

— Eu acredito que se os democratas estiverem dispostos a aceitar essa direção, podemos fazer algo — disse.

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