SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A política japonesa, de códigos tão impenetráveis para o público ocidental quanto, digamos, a brasileira, viveu um período de rara estabilidade sob Shinzo Abe. Seus quase oito anos no poder de forma ininterrupta formam o maior tempo em que um primeiro-ministro do país permaneceu no cargo no pós-guerra. Ele agora deixará o cargo por motivos de saúde. Abe é a figura dominante no Japão das duas últimas décadas, e herda isso de seu sangue. Na segunda-feira (24), ele havia ultrapassado seu tio-avô, Eisaku Sato, que governou de 1964 a 1972. Seu avô, Nobosuke Kishi, foi premiê de 1957 a 1960. Com algumas exceções, premiês no Japão duram pouco. Foram 33 do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, para cá. Ainda assim, o sistema político é bastante funcional, e nada disso impediu que o país chegasse a ser a segunda maior economia do mundo --hoje o posto é da China. Passadistas apontam para a monarquia decorativa como fator desse sucesso, e é inegável o peso simbólico do imperador no país. Abe já havia sido premiê de 2006 a 2007, quando a mesma colite ulcerativa que o abateu agora cobrou seu posto. Ainda assim, permaneceu como figura forte e principal rosto do Japão no Ocidente. Em seu segundo período no poder, estabeleceu um delicado equilíbro com a China, o ameaçador gigante comunista logo depois das exíguas faixas de terra russa e norte-coreana com as quais o país divide o mar do Japão. Aproximou-se politicamente, sem deixar de manter boa relação com Taiwan, de Pequim. Ao mesmo tempo, seu polêmico nacionalismo o fez embarcar em um programa de expansão de gastos militares e de reinterpretação do caráter pacifista da Constituição imposta em 1947 pelos americanos. Essa assertividade poderá ser o maior legado de Abe, ao fim, e o que mais preocupa seus vizinhos --notadamente a Coreia do Sul, que sofreu tanto quanto a China nas mãos do imperialismo japonês da primeira metade do século 20. Abe é membro da maior confraria nacionalista, associada à extrema direita do país, a Nippon Kaigi (Conferência do Japão). Visitou várias vezes o santuário Yasukuni, onde há centenas de criminosos de guerra homenageados. Esse nacionalismo revigorado se insere na grande disputa entre EUA e China em curso, com o Japão por um lado ainda parceiro de Washington, mas por outro buscando tornar sua defesa e capacidade ofensiva mais independentes --o governo de Donald Trump não deixou nenhum de seus aliados asiáticos confiantes no engajamento em crises. Por ora, contudo, não são esperadas grandes guinadas. Na economia, deverá prevalecer o modelo atual, o chamado Abenomics, que privilegiou fortes estímulos fiscais e tirou o Japão de seu período de deflação. Há desafios colocados, muitos ligados à criticada gestão da pandemia do novo coronavírus no país, que entrou em recessão. O Japão não viveu uma catástrofe como Brasil ou EUA, mas o governo foi acusado de tibieza e demora na implantação de medidas restritivas à circulação do patógeno. A transição até a eleição de outubro de 2021 deverá ser tranquila. O principal candidato a esquentar a cadeira nestes meses, segundo a imprensa japonesa, é Yoshihide Suga, braço-direito de Abe. Taro Aso, ex-premiê, talvez possa entrar no jogo, mas há más memórias de seu governo, que levaram à perda da hegemonia do Partido Liberal Democrático de Abe em 2009. Para a disputa real, emergem também segundo analistas japoneses os nomes de Fumio Kishida, ex-chanceler e ex-ministro da Defesa sob Abe, e de Shigeru Ishiba, este um rival derrotado pelo agora futuro ex-premiê na briga pelo comando do seu partido em 2012 que acabou acomodado com cargos.