WASHINGTON - Após semanas de negociações sigilosas, os senadores republicanos apresentaram na manhã desta quinta-feira uma proposta de reforma de saúde, com o objetivo de acabar com o maior legado de Barack Obama, seu programa de saúde conhecido como Obamacare. Embora tenha sido considerada um pouco mais moderada que o projeto aprovado pelos deputados, a proposta dos senadores já enfrenta críticas por cortar fortemente recursos para medicamento e por ter o potencial de prejudicar pessoas mais pobres e vulneráveis, como idosos e crianças, além de atingir diretamente programas para viciados em drogas e saúde feminina — para coibir o aborto, prática condenada pelos republicanos. Por outro lado, conservadores acreditam que a proposta não acaba totalmente com o Obamacare.
O documento de 142 páginas foi divulgado na manhã desta quinta-feira e as lideranças do partido de Donald Trump pretendem votá-lo já na próxima semana. Mas, ao mesmo tempo, admitem que modificações podem ser necessárias, o que pode alongar o período de negociações. O grande esforço é obter 50 votos entre os 52 republicanos — muitos senadores do partido se posicionaram previamente contra qualquer reforma de saúde que resultasse em redução de cobertura. O projeto da Câmara previa que mais 23 milhões de americanos perderiam planos de saúde em dez anos e ainda não há estimativas para este projeto do Senado. Todos os 48 senadores democratas são contra o fim do Obamacare.
— Nós estamos falando sobre esses conceitos há muito tempo. Esta é uma tentativa de nos levar a um acordo, de como resolvemos as diferenças e conseguimos o consenso — disse John Cornyn, senador republicano do Texas, afirmando que acredita que obterá os votos necessários.
Para dobrar os senadores mais moderados, que temem perder seus cargos em locais onde a votação é mais acirrada, o projeto mantém a base do grande objetivo dos republicanos — acabar com a lei que tenta obrigar a todos os americanos a ter um plano de saúde —, mas cria condições para que os mais pobres recebam subsídios se quiserem manter seu seguro saúde. O projeto cria um sistema de créditos tributários federais para ajudar as pessoas mais pobres a comprar planos de saúde, mas ao mesmo tempo oferece aos estados a possibilidade de reduzir grande parte dos benefícios oferecidos pelo Obamacare, o que deve impactar principalmente questões sobre saúde sexual (onde o aborto encontra abrigo), serviços de emergência e tratamento para enfermidades mentais.
De acordo com a análise da NPR, a agência pública de notícias dos EUA, o projeto do Senado mantém a atual estrutura do Obamacare e é mais moderada que o projeto da Câmara dos Representantes por dar um pouco mais de assistência financeira aos mais pobres, mas, assim como o projeto dos deputados, retira grande parte do dinheiro federal do Medicaid — ou US$ 800 bilhões em dez anos —, o programa de saúde social para pessoas de mais baixa renda.
Por outro lado, senadores mais conservadores, como Ted Cruz e Rand Paul, já se mostraram contra o projeto por acreditar que ele não acaba “suficientemente” com o Obamacare. Este é o grande desafio do partido, neste momento. Especialistas lembram que, após a Câmara aprovar o fim do Obamacare, a aprovação popular dos deputados chegou a 17% — a mais baixa da história recente e menos da metade da popularidade de Donald Trump, o mais impopular presidente dos EUA em seu primeiro ano de mandato. Este cálculo político poderá impactar na análise deste tema no Senado.
De acordo com o “Guardian”, estima-se que 220 mil toxicodependentes em recuperação dependem do Medicaid para tratamento de drogas, o que poderia prejudicar a crise de opióides nos EUA, que matou cerca de 50 mil pessoas por overdose nos EUA no ano passado. O projeto de lei também proibiria Planned Parenthood de participar no Medicaid por um ano, forçando centenas de milhares de mulheres a encontrar uma nova fonte de cuidados de saúde reprodutiva.

