SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Um duro golpe para os russos, "um dano que foi mais psicológico do que material". Assim tem sido classificado o naufrágio do cruzador de mísseis Moskva, principal navio da frota russa do mar Negro, depois que foi atingido por uma explosão na quarta-feira (13).
Com 12.500 toneladas, é o maior navio de guerra russo afundado em combate desde a Segunda Guerra Mundial. A embarcação com capacidade para 510 tripulantes era um símbolo do poder militar e liderou a parte naval do ataque russo à Ucrânia.
Embora Vladimir Putin insista em dizer, em várias ocasiões, que sua "operação militar especial" na Ucrânia avança com sucesso, "conforme planejado", "é uma perda simbólica muito grande", disse o almirante francês reformado, Pascal Ausseur, diretor-geral do centro de análise Fundação Mediterrânea de Estudos Estratégicos (FMES).
"É uma embarcação de 12.000 toneladas que afundou em 12 horas [...] Isso não é normal", falou ele à AFP.
Jenny Hill, correspondente da BBC em Moscou, diz que o naufrágio do Moskva é uma perda "significativa e humilhante" para o presidente russo. "O que antes era um símbolo do poder e da ambição da Rússia, agora está no fundo do mar", disse a jornalista.
Mas, para Mykola Bielieskov, do Instituto Nacional de Estudos Estratégicos da Ucrânia, o dano é "mais psicológico do que material".
"Os navios russos agora serão forçados a se afastar da costa ucraniana, onde não podem mais se sentir seguros", explica ele. Mas o naufrágio "não vai acabar completamente com o bloqueio naval da Rússia à Ucrânia", explicou ele, que assessora o governo ucraniano em estratégia militar.
O Moskva não disparou mísseis contra alvos terrestres ucranianos, porém especialistas militares disseram à BBC que a embarcação forneceu apoio crucial a outras embarcações que fizeram isso.
Ele era o único navio da frota a ter defesas aéreas de longo alcance a bordo, explicou Sidharth Kaushal, especialista em energia marítima do Royal United Services Institute, em Londres.
Com isso, os outros navios da frota russa agora estarão mais vulneráveis a ataques aéreos embora não esteja claro se as forças da Ucrânia, que sofreram inúmeras baixas desde o início da guerra, têm recursos para tirar proveito da situação.
"O Moskva foi uma pedra no sapato dos ucranianos desde o início desse conflito", disse Michael Petersen, do Instituto Russo de Estudos Marítimos. Por muitos anos, foi um símbolo do poder naval russo no mar Negro.
Com seu armamento, o cruzador protegia integralmente um diâmetro de 150 quilômetros a seu redor, explicou Nick Brown, especialista do instituto privado de informação britânico Janes.
"Com a Turquia bloqueando os navios russos nos estreitos de Bósforo e Dardanelos, será difícil para a Rússia substituir sua capacidade de defesa aérea", afirmou. Porém, "o restante da frota do mar Negro continua sendo uma força importante."
Sobretudo com as modernas fragatas de tipo Almirante Grigorovich, equipadas com defesas antiaéreas mais avançadas que as do Moskva, apesar de um alcance mais curto, e com mísseis de ataque terrestre Kalibr.
Na avaliação do Reino Unido, o naufrágio de Moskva é a segunda perda considerável pela Rússia durante a guerra na Ucrânia, o que pode obrigá-la a "rever sua postura marítima".
A inteligência britânica destaca que, em 24 de março, o navio Saratov, da classe Alligator, também foi inutilizado. O Saratov foi atingido por um grande incêndio e destruído, mas não chegou a afundar.
De acordo com o jornal The New York Times, o naufrágio de Moskva é a perda naval mais importante desde 1982, quando a Argentina afundou o navio militar britânico Sheffield e atingiu outras embarcações na Guerra das Malvinas.
Impacto nuclear
Além da perda política e militar, não foi descartado um possível impacto nuclear.
No Facebook, Andrii Klymenko, gerente de projetos do Instituto de Estudos Estratégicos do Mar Negro, chamou a atenção para a possibilidade de duas ogivas nucleares estarem a bordo do Moskva.
"Isso pode ser novidade para muitos, mas é um navio que carrega armas nucleares", ressaltou.
Klymenko chama a atenção para a necessidade de encontrar as supostas ogivas e entender onde exatamente houve explosão no navio.
De acordo com a inteligência britânica, o Moskva era um dos três únicos cruzadores da classe Slava na marinha russa.
O Moskva, de 186 metros de comprimento, portava 16 mísseis antinavio, mísseis Fort (a versão marítima dos S-300 de longo alcance) e mísseis de curto alcance Osa, além de lança-foguetes, canhões e torpedos.
Para Maia Otarashvili, do Instituto de Pesquisa de Política Externa (FPRI, na sigla em inglês) em Washington, o envolvimento da marinha russa na guerra era bastante limitado. E agora a Ucrânia pode ter demonstrado que possui capacidades de defesa naval que não foram consideradas por Moscou. "Que tipo de mísseis antinavio a Ucrânia conseguiu recentemente?", ressaltou ele.
"É um mar bastante pequeno, tudo está ao alcance dos mísseis antinavios, e sua detecção é muito simples", acrescentou Ausseur. Por isso, a perda do Moskva "revela uma vulnerabilidade verdadeira" da marinha russa.
Rússia intensifica ataques
Após perder seu principal navio, a Rússia prometeu intensificar os ataques à capital ucraniana, Kiev. Os ataques russos na região têm sido raros desde o final de março, quando as tropas saíram da capital para se concentrar no leste ucraniano.
"O número e a magnitude dos ataques com mísseis em locais de Kiev aumentarão em resposta a todos os ataques e sabotagens do tipo terrorista realizados em território russo pelo regime nacionalista de Kiev", disse ontem o Ministério da Defesa da Rússia.
Desde então, explosões têm sido registradas no entorno da cidade. Uma oficina e fábrica de mísseis antiaéreos e antinavio foram bombardeadas no distrito de Vasilkiv, sudoeste de Kiev.
A tripulação
No sábado (16), o Ministério da Defesa da Rússia apresentou um vídeo que, segundo diz, mostra o encontro entre o chefe da marinha e 30 tripulantes resgatados do cruzador Moskva vestidos com uniformes da marinha russa, aparecem alinhados diante de Nikolai Yevmenov.
Estas são as primeiras imagens divulgadas de supostos tripulantes do Moskva desde que a embarcação naufragou na última quinta-feira e muitos especialistas questionaram sobre o que teria acontecido com a tripulação.
A Rússia declarou que os homens foram retirados do barco antes que ele afundasse, sem que o incidente tivesse provocado vítimas.



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