WASHINGTON - O dia seguinte às revelações de que Donald Trump Jr. — filho do presidente americano, Donald Trump — se encontrou com uma advogada russa em busca de informações contra a candidata democrata, Hillary Clinton, durante a campanha de 2016 foi marcado pelo contra-ataque do mandatário, que voltou a classificar a cobertura das investigações pela imprensa como “notícias falsas”, e pela movimentação das comissões responsáveis pelos inquéritos sobre o caso. Apertando o cerco à Casa Branca, elas agora querem levar, além de Trump Jr., o então chefe de campanha de Trump, Paul Manafort, e o genro e principal assessor do presidente, Jared Kushner, para depor sobre o encontro com a advogada Natalia Veselnitskaya, ao qual ambos compareceram.
“Meu filho teve um belo desempenho ontem à noite”, escreveu o presidente no Twitter, em referência à entrevista de Trump Jr. à rede Fox News, na qual reafirmou que o encontro com a advogada foi motivado pelo que classificou como “pesquisa política”, e declarou que talvez devesse ter “agido de maneira diferente”. “Ele foi aberto, transparente e inocente. Essa é a maior caça às bruxas de nossa história política. Que tristeza!”.
Em entrevista à Reuters, o presidente afirmou que só soube do encontro entre seu filho e a advogada nos últimos dias, repetindo o discurso adotado pela Casa Branca desde a revelação da reunião, e aproveitou para minimizar o incidente:
— Acho que muita gente teria ido a uma reunião como essa.
Trump Jr. aceitou receber a advogada que lhe foi apresentada como representante do governo russo após ser-lhe dito que ela teria informações passadas por altas fontes de Moscou que comprometeriam Hillary. “Se é o que você diz, eu adoro”, respondeu ele por e-mail ao interlocutor, o promoter britânico Rob Goldstone, que falava em nome de um cantor russo, filho de um magnata ligado ao Kremlin. Em Bruxelas, o chanceler russo, Serguei Lavrov, respaldou as acusações de que a imprensa americana está explorando um escândalo inexistente:
— Recebi com surpresa a notícia de que uma advogada russa é acusada de ter se comunicado com Trump dentro da jurisdição de Trump — afirmou Lavrov. — Alguém falou com um advogado... que espécie de problema ou ameaça isso constituiu para qualquer pessoa? É impressionante como pessoas sérias estão fazendo uma tempestade em copo d’água, ainda que talvez nem mesmo haja um copo d’água.
Apesar das palavras de Trump e do governo russo, o Partido Republicano demonstrou hesitação em defender a reunião entre Trump Jr. e a advogada, especialmente após a revelação de que Veselnitskaya teria afirmado ter informações comprometedoras contra Hillary Clinton para garantir um encontro com o filho do presidente. A imprensa e vários analistas ressaltaram que tal fato teria posto por terra o principal argumento da Casa Branca sobre a possível interferência russa nas eleições — de que mesmo que ela tenha ocorrido, não teria havido coordenação com a campanha de Trump.
O senador Lindsey Graham, que comanda uma investigação paralela na Comissão Judiciária do Senado sobre os supostos laços entre a campanha de Trump e a Rússia, classificou os e-mails revelados por Trump Jr. como “perturbadores” e afirmou que o empresário, de 39 anos, deve ser chamado para testemunhar. Por sua vez, John McCain, senador pelo Arizona, afirmou tratar-se de “um escândalo clássico”. Já Orrin Hatch, senador republicano por Utah, acusou a imprensa de superdimensionar o incidente, mas se viu obrigado a responder que não aceitaria participar de um encontro semelhante caso estivesse em campanha.
O líder da Câmara, o republicano Paul Ryan, exortou as comissões e o procurador especial Robert Mueller a “seguirem os fatos até onde eles levarem e chegarem ao fundo dessa questão”. Mueller afirmou ter planos de analisar os e-mails de Trump Jr. e investigar as circunstâncias de seu encontro com a advogada.
Do outro lado, democratas nas comissões que investigam as ligações da campanha de Trump com o Kremlin se mobilizam para levar Manafort e Kushner a deporem. Na audiência de quarta-feira de Christopher Wray, indicado pelo presidente para comandar o FBI (a polícia federal), a senadora Dianne Feinstein afirmou a repórteres que o senador republicano Chuck Grassley, presidente da Comissão Judiciária do Senado, pretende convocar o ex-chefe de campanha de Trump a depor sobre o encontro, e que estaria disposto a intimá-lo judicialmente se necessário.
Já Kushner não é, diretamente, alvo de investigações, mas dois de seus encontros são analisados pelas comissões: o primeiro, com Sergei Gorkov, presidente do banco estatal russo Vnesheconombank, sob sanções desde julho de 2014. O segundo, com o embaixador russo nos EUA, Sergey Kislyak, no qual teria discutido a criação de um canal secreto de comunicação entre a Casa Branca e o Kremlin. No formulário para a obtenção de acesso a informações confidenciais do governo, preenchido por Kushner em dezembro do ano passado, os dois encontros, assim como a reunião com Veselnitskaya, foram omitidos.
Wray, indicado para substituir James Comey, demitido por Trump do comando do FBI no início de maio, foi questionado sobre sua independência para ocupar o cargo. Falando a congressistas, Wray afirmou que, se fosse pressionado pela Casa Branca para abandonar uma investigação, tentaria convencer o presidente a mudar sua abordagem e, caso falhasse, renunciaria ao cargo. Trump é acusado de ter tentado convencer Comey a abandonar uma investigação sobre o ex-conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, um ato visto por muitos como uma tentativa de obstrução de Justiça. O indicado do presidente também respondeu sobre o incidente do encontro de Trump Jr. com a advogada russa, dizendo não acreditar que Mueller comande uma caça às bruxas contra o presidente, e recomendando a qualquer nome que receba uma proposta semelhante que notifique o FBI.
A suposta tentativa de obstrução de Justiça por parte de Trump foi a motivação para que o congressista democrata Brad Sherman apresentasse um pedido de impeachment do presidente, uma atitude que não conta com o respaldo da maioria do seu partido. O único apoio ao pedido veio de seu colega na Câmara, Al Green.
Em artigo publicado pelo “New York Times”, os advogados Norm Eisen e Richard Painter, presidente e vice-presidente do grupo Cidadãos pela Responsabilidade e a Ética em Washington (Crew, na sigla em inglês), afirmaram que Donald Trump Jr. violou a lei ao se encontrar com Veselnitskaya. “Os ‘documentos e informações’ prometidos teriam sido uma contribuição ilegal de um governo estrangeiro”.
— Se esse cenário não configura traição, ao menos se aproxima muito disso — afirmou Painter, que trabalhou durante o governo do ex-presidente republicano.

