Início Mundo Reino Unido viveu instabilidade inédita em 2022, em que até alface derrubou governo
Mundo

Reino Unido viveu instabilidade inédita em 2022, em que até alface derrubou governo

MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - Não foi um ano ameno para o Reino Unido. Seja na política, na economia ou na monarquia, 2022 será lembrado pela efervescência que se espalhou das mudanças climáticas às instituições, produzindo números e sentimentos negativos que devem permanecer ao longo de 2023 e podem influenciar o resultado das próximas eleições, em 2024.

Muitas das cifras foram recordes, como as registradas pelos termômetros durante o verão. Três ondas de calor atingiram o país entre junho e agosto, e pela primeira vez na história os britânicos enfrentaram um calor de 40,3°C, medidos em Coningsby.

O clima de fritura atingiu também a política, mas não se restringiu ao verão. Em maio, um relatório produzido pelo governo revelou detalhes das festas ocorridas no número 10 da Downing Street, casa oficial do primeiro-ministro em Londres, em 2020 e 2021, durante datas em que os britânicos enfrentavam restrições impostas para controlar o avanço do coronavírus.

Com 60 páginas, o documento mencionava a participação de mais de 80 pessoas ligadas ao governo em comemorações que se estenderam até a madrugada, deixaram paredes sujas de vinho e ocorreram inclusive na véspera do funeral do príncipe Philip.

O então primeiro-ministro Boris Johnson participou de ao menos oito festinhas, e o desgaste provocado pelo escândalo que foi chamado de "partygate" se somou a outras crises acumuladas em seus três anos no cargo. Em julho, depois de ter sobrevivido a um voto de desconfiança pouco antes, foi forçado a renunciar diante de uma debandada de ministros e funcionários.

A instabilidade política que rondava Londres se aprofundou. Em menos de quatro meses, o Reino Unido teve uma sequência de três primeiros-ministros, uma aberração até mesmo para os padrões da Itália, onde a queda do chefe de governo se tornou tão inerente à cultura local quanto a pizza.

Após a saída de Boris, o processo eleitoral interno do Partido Conservador terminou em setembro com a vitória de Liz Truss, então ministra das Relações Exteriores. Terceira mulher a assumir o posto, Truss lançou um plano econômico, chamado de miniorçamento, baseado em corte de impostos e aumento de empréstimos. Foi um desastre que abalou os mercados e levou a libra ao seu menor patamar em quase 40 anos em relação ao dólar.

Alvo de críticas de todos os lados, Truss passou a ser considerada altamente perecível, o que levou ao surgimento de um dos personagens mais surreais deste ano -a alface que sobreviveria à sua permanência no cargo.

Após a comparação entre longevidades ter sido feita pela revista The Economist, o tabloide Daily Star passou a transmitir em tempo real o apodrecimento de uma verdura, enquanto a situação de Truss ficava cada vez mais insustentável. Passados somente 44 dias desde a posse, Truss caiu --e a alface venceu.

O curtíssimo mandato não foi marcado só pelo caos econômico. Dois dias depois de assumir, Truss foi ofuscada pela morte da rainha Elizabeth 2ª, aos 96 anos, acontecimento que parou o país e o mundo. Em meio à inquietação política, o Reino Unido perdia um dos seus maiores símbolos de estabilidade.

A subida ao trono de Charles 3º, menos popular que a mãe e o filho William, deu novo fôlego ao movimento antimonarquia no país, que defende a substituição do regime pela escolha do chefe de Estado por meio de eleições. Seja como for, a coroação do rei e da rainha Camilla --uma virada e tanto para quem um dia já foi odiada pelos britânicos-- está marcada para maio de 2023.

No fim de outubro, o ex-ministro das Finanças Rishi Sunak tornou-se o terceiro premiê do ano, após ser indicado pelo Partido Conservador. Milionário, jovem e descendente de indianos, assumiu com a tarefa de tirar o país da crise política, econômica e social.

O ano britânico também foi de indicadores que há tempos não eram observados no país. O principal deles foi a inflação, que atingiu 11,1% em outubro, a maior taxa em 41 anos. A alta do custo de vida tem sido impulsionada pelos preços de alimentos (+16,4%) e de moradia (+11,7%), como eletricidade e gás, um reflexo direto da Guerra da Ucrânia.

O tema é, de longe, a maior preocupação da população. Em dezembro, pesquisa YouGov mostrou que para 66% dos britânicos a economia é o assunto mais importante, seguida pela saúde (47%). No fim de novembro, o desempenho de Sunak era reprovado pela maioria de 51%.

A insatisfação tanto com o custo de vida quanto com o governo se traduz, neste fim de ano, em uma série de greves de trabalhadores de serviços públicos, que pedem reajustes de salários que acompanhem a inflação. Pela primeira vez em mais de um século, até profissionais da enfermagem cruzaram os braços.

Enquanto tentava resistir à pressão dos sindicatos, Sunak anunciava um novo plano para frear a imigração ilegal, outra área que acumulou recordes em 2022 --o ano deve terminar com cerca de 50 mil pessoas chegando ao Reino Unido por barcos que atravessam o Canal da Mancha. Entre as medidas, um comando de militares para atuar na área.

A imigração é o assunto mais importante para apenas 33% dos britânicos, mas é um tema caro ao Partido Conservador e um dos combustíveis que levaram ao brexit. Concretizada em 2020, a saída da União Europeia é considerada um ponto-chave nas razões do ano turbulento por que passou o Reino Unido, e as explicações passam pela linha de que é ruim estar mal acompanhado, mas pior é estar sozinho.

Embora parte dos problemas sejam compartilhados com os vizinhos europeus, como a alta do custo de vida causada pela guerra, os britânicos colecionam desempenhos e perspectivas piores. Enquanto na UE o PIB cresceu 0,2% no terceiro trimestre, entre julho e setembro, no Reino Unido houve queda de 0,3%. A economia britânica vai terminar o ano ultrapassada pela Índia, que se tornará a quinta maior do mundo.

Para a maioria da população, 51%, a saída do bloco europeu foi uma decisão errada, enquanto 34% acreditam que a escolha foi certa --percentual bem inferior aos 52% que escolheram a saída no referendo de 2016.

Economistas preveem que os britânicos só devem sair da recessão na metade de 2024, ano em que as próximas eleições para o Parlamento devem ser realizadas. E, ao que tudo indica, o Partido Conservador, no comando do governo desde 2010, deverá ter dificuldades para manter sua maioria. Ainda segundo o instituto YouGov, 48% dizem que votariam hoje no Partido Trabalhista, a principal legenda da oposição, e somente 23% declaram intenção de voto na sigla dos conservadores.

Siga-nos no

Google News

Receba o Boletim do Dia direto no seu e-mail, todo dia.

Comentários (0)

Deixe seu comentário

Resolva a operação matemática acima
Seja o primeiro a comentar!