BUENOS AIRES - Desde 2009 exilada na Argentina, a médica Hilda Molina, de 73 anos, relembra como foi perseguida pelo regime castrista e diz que abertura na ilha é econômica, mas não política.
Fidel tinha 90 anos, sua morte não me surpreendeu. A vida me ensinou a respeitar a forma de atuar de todas as pessoas. Perdi minha liberdade e sofri com a intolerância dos outros. Por isso, hoje estou rezando pela alma de Fidel Castro, como faria por qualquer pessoa. Quero que ele descanse em paz.
A liberdade de nosso país não depende da vida ou morte de ninguém, e sim dos cubanos. Podemos estar recuperando investimentos, hotéis, voos, mas não a liberdade. Há 58 anos vivemos em condições anormais, estamos doentes, temos o que chamo de dano antropológico. Enquanto não nos recuperamos desse dano, aprendemos a viver sem violência, a exigir o respeito de nossos direitos, os problemas vão continuar. Temos investimentos, mas não liberdade, direitos trabalhistas. Os direitos são para os estrangeiros, não para os cubanos.
A morte dos líderes chineses mudou algo na China? A resposta é “não”. E nós já somos uma pequena China. Estamos caminhando nesse sentido, no sentido de um capitalismo selvagem, mas sem liberdades. Teremos uma economia aberta, mas um regime fechado. E o dinheiro não é para os cubanos.
Enorme. Muitos acham que as mudanças são iniciativa de Raúl Castro, mas Fidel esteve por trás de tudo nos últimos anos.
Gostaria de lutar pelo povo de meu país em Cuba, mas não sei se será possível. Acreditei nesse sistema por muito tempo, mas me decepcionei. A clínica onde eu trabalhava foi dolarizada, pensando nos estrangeiros, e não nos cubanos. Mas não fugi, fiquei em Cuba e disse o que pensava. O custo disso foi ser considerada traidora à pátria e passar 16 anos vigiada. Minha casa foi expropriada. Tudo isso dói muito. Mas amo minha pátria e, enquanto viver, vou defender os direitos dos cubanos.
Tínhamos um trato direto. Tudo começou em 1986, quando ele mandou me buscar e, durante horas, praticamente me interrogou. Contei sobre meu projeto de construir um centro de neurociências internacional, com cientistas estrangeiros. Ele se interessou muito, ia à obra toda semana e conversávamos bastante. O problema surgiu quando o centro abriu e o governo tirou os cubanos para dar prioridade a pacientes estrangeiros, que pagavam em dólares. Fidel tinha me dado sua palavra de que isso não aconteceria. Renunciei por questões éticas. Me acusaram de desobedecer a revolução e trair a pátria.
Teremos, cada vez mais, uma ditadura com dinheiro. As pressões vão continuar contra os dissidentes. O ambiente repressivo não mudou. Este regime é uma dinastia militar e vai continuar assim, sem liberdade para o povo.

