MADRI — O grupo separatista basco Euskadi Ta Askatasuna (Pátria Basca e Liberdade, em basco) conhecido como ETA, anunciou oficialmente nesta quinta-feira, em um comunicado divulgado pela imprensa espanhola, sua dissolução e o fim de “toda sua atividade política”, cumprindo a promessa divulgada no fim do mês passado. Após o anúncio, no entanto, o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, afirmou que o fim das atividades da organização não significa que seus membros estarão impunes, e destacou que a política antiterrorista do país continuará a ser a aplicação da lei “que está aí para isso”.
— Que ninguém se engane. Em meio a tantos ruídos e comentários, a única verdade que prevalece é que os únicos que merecem ser chamados de artífices da paz são os milhares de guardas civis, policiais, juízes e promotores que encurralaram esse grupo terrorista, obrigando-o a reconhecer seu fracasso — afirmou Rajoy. — Não devemos nada ao ETA e não temos motivo algum para agradecer-lhes. Haja o que houver, o ETA não vai encontrar brecha alguma para a impunidade de seus crimes.
No documento, o grupo afirma que decidiu dar fim a seu “ciclo histórico e sua função”, mas destaca que o conflito que a região do País Basco mantém com a Espanha e a França “não teve início com a formação do ETA e não terá fim com sua dissolução”.
“Não fomos capazes de chegar a acordos, nem entre o ETA e o governo, nem entre os agentes do País Basco. Essa é uma responsabilidade compartilhada e o ETA assume a parte que lhe corresponde”, afirmou o grupo na declaração, lida pelos dirigentes históricos Josu Urrutikoetxea e María Soledad Iparraguirre, e divulgada nos jornais bascos “Gara” e “Berria” e também na Fundação Henri Dunant, em Genebra. “A falta de vontade para solucionar o conflito e as oportunidades perdidas provocaram o alongamento do conflito e multiplicaram o sofrimento das diferentes partes envolvidas. De qualquer forma, o ETA reconhece o sofrimento provocado como consequência de sua luta”.
Os principais partidos políticos do País Basco e da Espanha celebraram o anúncio, afirmando que o grupo — considerado uma organização terrorista pela União Europeia — “foi derrotado pela democracia”, e classificando a decisão como “uma vitória do laço azul”, em referência ao símbolo usado para expressar a condenação à campanha violenta do ETA.
— O ETA tenta aparecer como aqueles que nos concederam generosamente a paz e diz que sua existência era justificada por um conflito — disse o ex-presidente de governo basco Patxi López, do Partido Socialista. — A paz e a liberdade conseguimos nós, que resistimos à violência. O povo basco nunca precisou de salvadores da pátria sanguinários.
Já Pablo Iglesias, líder do Podemos, criticou a postura do grupo.
— O fim do ETA chega tarde e desprovido de autocrítica, mas nos alegra — afirmou Iglesias. — Que se calem para sempre as pistolas e que fale a política.
Arnaldo Otegi, coordenador do EH Bildu, coalizão de partidos nacionalistas associados ao ETA, afirmou que, apesar de erros, consolidou-se o caminho desejado pela maioria da população.
— Continuamos a ser um povo que ainda não conhece a paz ou a liberdade, e não deixaremos de buscá-las — afirmou Otegi.
Fundado em 1959, durante a ditadura de Francisco Franco, o ETA iniciou sua campanha armada em 1968, e ganhou notoriedade cinco anos mais tarde, com o assassinato do primeiro-ministro Luis Carrero Blanco, apontado como o sucessor do ditador. Nas décadas seguintes, o grupo deu sequência a uma campanha de sequestros, atentados e assassinatos que deixaram 853 mortos e cerca de 2.600 feridos. Em 2011, a organização anunciou um cessar-fogo definitivo e, no ano passado, entregou suas armas a autoridades francesas e espanholas.
Na semana passada, a imprensa espanhola relatou que um grupo separatista, operando sob o nome de ATA (Anistia e Liberdade), teria se separado do ETA e roubado armas. Gaizka Fernández, do Centro Espanhol de Memória das Vítimas do Terrorismo, não acredita, no entanto, num retorno do terrorismo basco:
— O apoio social que o grupo teve já não existe mais — argumenta ele.

