TEERÃ — Um dos símbolos mais importantes do regime teocrático estabelecido no Irã com a Revolução Islâmica em 1979, a imposição do uso do véu em público às mulheres tornou-se um instrumento do presidente Hassan Rouhani em sua luta por reformas. Em confronto com a linha-dura que comanda setores-chave do país, o mandatário mandou divulgar uma pesquisa indicando que 49,8% dos iranianos — homens e mulheres — são contra a obrigatoriedade do hijab, considerando seu uso uma decisão de caráter privado.
Embora a pesquisa seja de 2014, a iniciativa de divulgá-la — pelo Centro para Estudos Estratégicos, ligado à Presidência — ganha importância por indicar de que lado Rouhani se posiciona num momento em que quase 30 mulheres foram detidas por tirarem o véu em público. A campanha de desobediência à proibição foi iniciada em dezembro por uma jovem que subiu numa estrutura elevada em Teerã, tirou o véu e ficou agitando-o no ar amarrado a um bastão. Ela foi presa posteriormente — e já teria sido liberada — mas desde então seu desafio motivou outras mulheres a fazerem o mesmo. Somente na capital, 28 foram presas.
POSSÍVEL AGRADO AOS DOIS LADOS
O movimento ocorre após uma série de manifestações contra o regime no fim do ano passado, desencadeadas por descontentamento com a má situação econômica do Irã — afetado por uma inflação crescente e uma economia estagnada.
— Esta pode ser a tentativa de Rouhani de ser visto como alguém que consegue escutar o povo iraniano, em contraposição a outros políticos que talvez estejam impingindo sua vontade ideológica ao povo — disse à CNN Sanam Vakil, pesquisador de Irã do centro de estudos Chatham House, de Londres. — As pessoas podem apreciar que ele esteja divulgando essas informações, mas também perguntam se isso vai resultar realmente em alguma coisa.
Os atos mostram inspiração na campanha “Quartas-feiras Brancas”, iniciada pela jornalista e ativista Masih Alinejad, que vive nos EUA, pregando o uso de véus brancos ou a retirada dos tradicionais em protestos. O atual desafio feminino foi minimizado pelo procurador-geral, Mohammad Jafar Montazeri, que o descreveu como “infantil” e “emocionalmente carregado”, além de alegar que foi “instigado do exterior”. Montazeri é expoente da linha-dura do regime, numa aliança que inclui também o Judiciário, a Guarda Revolucionária e uma parcela do Parlamento.
Apesar do apoio de Rouhani a reformas sociais, o fim do véu obrigatório é improvável. Por sua vez, há quem acredite que o presidente esteja jogando para os dois lados, tentando agradar a progressistas e conservadores.
— Nas aparências, Rouhani sinaliza apoio à liberdade das mulheres. Mas quando você vê que metade do país está a favor da lei, é um apoio dado indiretamente ao regime — afirmou a historiadora Nina Ansary. — Rouhani tem que caminhar numa corda bamba com os aiatolás.

