Quais estados você deve prestar atenção na noite da eleição nos EUA

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

30/10/2020 10h34 — em Mundo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em 2000, foi a Flórida. Em 2004, Ohio. Em 2008 e 2012, o Colorado. E em 2016, foi a vez da Pensilvânia. Na próxima terça (3), o mundo estará atento para saber que estado vai decidir a eleição americana neste ano.

Apesar da vantagem nas pesquisas nacionais que o democrata Joe Biden tem sobre o seu rival republicano, o presidente Donald Trump, a disputa pela Casa Branca segue em aberto.

Isso ocorre devido às peculiaridades do modelo eleitoral do país, em especial por causa do Colégio Eleitoral --nome do sistema indireto que define o presidente dos Estados Unidos.

Assim, a votação que define o presidente é, na verdade, um conjunto de 51 pleitos que ocorrem de maneira simultânea, um para cada estado mais o do Distrito de Columbia, onde fica a capital, Washington.

Isso porque cada estado tem número de votos proporcional à população. A Califórnia, com 39,51 milhões de habitantes, por exemplo, tem direito a 55 representantes. A Dakota do Sul, com 884,6 mil, a 3.

O vencedor em um estado leva todos os votos dele, com exceção de Maine e Nebraska, que se subdividem em distritos. Quem ganha em cada distrito leva um delegado. Quem ganha no geral do estado leva o resto.

No fim do processo, é eleito quem conquistar mais da metade dos votos no Colégio Eleitoral --270 dos 538 votos possíveis. Assim, a senha para vencer é conquistar os estados onde a disputa é mais apertada.

A partir das pesquisas de intenção de voto e do histórico de votação de cada estado, os analistas costumam dividir os estados de acordo com a chance de ele ir para um candidato ou para outro.

Estados considerados seguros são aqueles em que o candidato na liderança tem mais de 95% de chance de vencer, de acordo com a classificação do boletim The Cook Political Report, que serve como modelo para a imprensa americana. Já nos prováveis, o líder tem entre 75% e 95% de chance de vitória.

Ambos, seguros e prováveis, recebem menos atenção durante a eleição porque na prática a disputa neles já está decidida e seria necessária uma surpresa muito grande para o rival vencer.

Ninguém espera, por exemplo, que Biden derrote Trump no republicano Oklahoma, da mesma maneira que a possibilidade de o presidente vencer na Califórnia é quase zero.

Atualmente, o democrata tem em sua coluna de seguros ou prováveis 17 estados mais o Distrito de Columbia: Califórnia, Connecticut, Delaware, Havaí, Illinois, Colorado, Maine (e mais um de seus dois distritos), Virgínia, Maryland, Massachusetts, Nova Jersey, Novo México, Nova York, Oregon, Rhode Island, Vermont e Washington. Juntos, eles totalizam 212 votos no Colégio Eleitoral.

Já Trump conta atualmente com 125 votos, com 20 estados nos quais lidera com folga: Alabama, Arkansas, Idaho, Kentucky, Louisiana, Mississippi, Nebraska (e mais dois de seus três distritos), Dakota do Norte, Oklahoma, Dakota do Sul, Tennessee, Virgínia Ocidental, Wyoming, Alaska, Indiana, Kansas, Missouri, Montana, Carolina do Sul e Utah.

Restam, então, 13 estados em disputa, que podem ser divididos entre aqueles com tendência pró-Biden ou pró-Trump (o líder tem entre 60% e 75% de vitória) e os indefinidos (ninguém chega a 60% de chance).

Deve ser desse bolo que sairá o estado que o estatístico Nate Silver, do site FiveThirtyEight, classifica como "tipping point" (ponto da virada), isso é, o que dará número de votos suficientes para o candidato superar os 270 votos no Colégio Eleitoral.

Existe um terço de chance da Pensilvânia ser novamente esse estado decisivo, como já aconteceu na eleição de 2016. Isso significa que, se vencer ali e em todos os estados no qual tem um desempenho melhor, Biden será eleito, independentemente do que acontecer no resto do país.

Já se o republicano vencer o estado e todos os outros onde vai melhor que o democrata, aumentam as chances de alcançar os 270 delegados e ser reeleito.

A vantagem, nesse ponto, é de Biden, já que ele lidera na Pensilvânia e até mesmo em estados nos quais não precisa dos votos, como a Carolina do Norte e o Arizona. Na prática, se vencer em seis dos sete estados com inclinação a seu favor (e confirmar o favoritismo nos outros 18), o democrata estará eleito.

Com menos votos seguros e prováveis, Trump também precisa de um resultado melhor que o rival nos estados ainda em disputa para conseguir a vitória. Para ser reeleito, o republicano tem de confirmar a liderança no Texas, vencer todos os indefinidos e roubar dois estados com inclinação pró-Biden.

Pode-se dizer que o cenário lembra o de 2016, quando Hillary Clinton também chegou ao dia da eleição em vantagem e acabou tomando a virada do republicano. Por isso, na noite do dia 3 e na madrugada do dia 4 de novembro todas as atenções estarão voltadas para esses 13 estados.

ESTADOS COM INCLINAÇÃO PRÓ-BIDEN

Pensilvânia (Biden lidera com 5,1 pontos de vantagem), Michigan (Biden 8,6) e Wisconsin (Biden 8,6)

Apesar de algumas diferenças demográficas, são estados semelhantes. Todos têm histórico industrial, ficam relativamente próximos e votaram em Barack Obama em 2008 e 2012, mas surpreenderam quatro anos depois e deram a vitória a Trump.

Juntos, a chance de um deles ser o estado decisivo nesta eleição supera 55%, o que demonstra a importância para a corrida. O problema é que eles não devem definir um vencedor no dia 3.

Isso acontece porque as regras locais determinam que os votos enviados por correspondência só podem começar a ser contados após o fechamento das urnas, o que deve atrasar a divulgação do resultado.

O governo do Wisconsin já afirmou que espera anunciar o resultado na manhã de quarta, enquanto Pensilvânia e Michigan já avisaram que só devem terminar a apuração na sexta (6).

Mesmo assim, a apuração de votos nos três estados pode ser o indicativo do que vai acontecer na eleição.

Como a previsão é que Biden vá melhor que Trump nos votos enviados pelo correio, uma disputa acirrada na contagem dos votos presenciais será boa uma notícia para o democrata. Se o presidente abrir uma larga vantagem no início, as chances de ele vencer os três estados --e se reeleger-- crescem bastante.

Arizona (Biden 3)

Uma vitória de Biden no estado eleva as chances de o democrata ser eleito para 97%, de acordo com o modelo do site especializado FiveThirtyEight. Já se Trump vencer, suas chances de reeleição sobem dos atuais 12% para 32% (semelhante a que tinha em 2016). As urnas fecham às 22h de Brasília.

O Arizona não vota em um candidato democrata à Presidência desde 1996, mas isso pode mudar graças ao aumento da população latina --que tende a votar mais em democratas do que em republicanos.

Assim, a chave para vencer no estado será o comparecimento desse segmento, que tradicionalmente vai menos às urnas que brancos e negros. Uma vitória de Biden provavelmente significará que ele conseguiu convencer a minoria a votar, o que pode significar vantagem para ele também em outros estados com grande população latina, como a Flórida.

O Arizona conta os votos enviados pelo correio antes dos votos presenciais. Isso significa que Biden deve começar a apuração na frente, mas Trump deve diminuir essa vantagem quando começar a contagem dos votos presenciais.

New Hampshire (Biden 11,4)

É uma espécie de Arizona invertido, um estado historicamente democrata, mas que os republicanos sonham virar. Há quatro anos, Hillary venceu Trump por apenas 0,3 ponto percentual, e o presidente indicou que uma vitória ali em 2020 seria uma de suas prioridades.

Nesses quatro anos de mandato, porém, o republicano viu seu apoio entre moradores do subúrbio (um grupo crucial em New Hampshire) se esvair e Biden abrir uma ampla vantagem nas pesquisas. Ainda que essa margem pareça maiúscula, o boletim Cook Political Report classificou o estado com "inclinação pró-Biden" porque também leva em conta outros aspectos, como liderança sustentável durante a disputa.

De qualquer forma, a chance de Trump ir bem no estado depende de ele conseguir estancar essa sangria.

Minnesota (Biden 8,2) e Nevada (Biden 6,1)

Uma vitória de Trump em qualquer um dos dois estados seria considerada uma surpresa e transformaria o republicano em favorito para a reeleição. A expectativa é a de que ambos divulguem os resultados relativamente cedo, o que pode ser uma sinalização para o que acontecerá no resto do país.

Importante em ambos os estados é acompanhar o comparecimento de negros e latinos, porque esse dado pode indicar o que vai acontecer em outros locais em que o voto de minorias será importante, como Carolina do Norte e Flórida.

Indefinidos

Flórida (Biden 2)

O estado fecha as urnas às 21h (horário de Brasília), então o anúncio do vencedor pode ser a primeira grande notícia da apuração. A última vez que um republicano chegou à Casa Branca sem ganhar a Flórida foi em 1924, e essa tendência não deve se alterar neste ano: se Biden vencer, a chance de ele se tornar presidente supera os 99%.

Trump, portanto, depende de uma vitória para continuar na disputa. Como mostram as pesquisas, a corrida está bastante acirrada e não há um favorito claro. Dois grupos demográficos serão essenciais para vencer no estado: os latinos (26% da população) e os idosos (17,6%).

A lei local permite que a contagem dos votos por correspondência seja feita conforme eles chegam. Assim, quando as urnas fecharem, é possível que o estado já tenha uma apuração adiantada --e com vantagem de Biden.

Geórgia (Biden 1,7)

Assim como o Arizona, é um estado tradicionalmente republicano, mas que tem se movido ao centro devido ao aumento da presença de uma minoria --nesse caso, os negros, um terço da população.

Na noite da eleição é importante acompanhar qual será o comparecimento do grupo, já que a definição do vencedor pode demorar dias para acontecer. De qualquer forma, é outro dos estados em que Trump joga sua sobrevivência, já que suas chances de reeleição caem para menos de 1% caso ele perca a Geórgia.

Iowa (Biden 0,3) e Ohio (Trump 1)

Os dois estados do Meio-Oeste são cruciais para as pretensões de Trump. Uma derrota em qualquer um deles também coloca suas chance de ser reeleito abaixo de 1%.

Os resultados também devem servir como indicação do que pode acontecer em Wisconsin, Michigan, Minnesota e até na Pensilvânia, já que todos têm certa proximidade geográfica e demográfica. Ambos também podem anunciar o resultado antes da meia-noite, ajudando a esclarecer o cenário final.

Carolina do Norte (Biden 2,1)

Com grande população de negros (22% do total) e de moradores de subúrbios, é um dos estados mais importantes para acompanhar na noite da eleição, já que servirá de indicativo para o que pode acontecer em diversas outras regiões.

Ao lado da Flórida, deve ser o estado para o qual todas as atenções estarão viradas no início da apuração, já que autoridades locais afirmaram que pretendem anunciar o vencedor ainda na terça. Uma derrota aqui praticamente enterra as chances de Trump.

Texas (Trump 1,3)

O maior pesadelo republicano será uma vitória de Biden no estado que desde 1976 não premia um democrata. A chance de Trump ser reeleito sem vencer no Texas é praticamente nula --ele não teria nem sido eleito em 2016 se tivesse perdido para Hillary ali em 2016.

Assim, uma vitória no estado não apenas garantiria a Casa Branca aos democratas como ainda deve significar que Biden terá a maior margem de vitória democrata no Colégio Eleitoral desde 1964.

As urnas fecham às 22h e, como o estado dificulta o voto por correspondência, é possível que os resultados saiam cedo. A grande maioria dos votos antecipados no estado foi feita de maneira presencial.

Distritos 2º distrito de Nebraska e 2º distrito do Maine (não há dados específicos confiáveis)

Ambos são diametralmente opostos: Nebraska tem um distrito que reúne o voto democrata em um estado majoritariamente republicano, enquanto o distrito do Maine concentra os apoiadores de Trump em um local que Biden deve levar com facilidade.

Com um voto em cada apenas, eles devem servir mais como indicativo de qual candidato é capaz de roubar votos mesmo em uma área dominada pelo rival, mas tem pouca importância para a disputa geral.