MOSCOU — Foi uma versão “paz e amor” de Vladimir Putin que se apresentou no palco montado na Praça do Manege, na noite de domingo, e discursou como presidente reeleito da Rússia diante de milhares de pessoas. Após uma votação realizada em clima de desconfiança, em que a vigilância de observadores locais e internacionais contra fraudes emprestou tons de “Big Brother” ao processo eleitoral, Putin evitou a retórica afiada dos últimos tempos. Em vez de subir o tom contra ameaças aos interesses da Rússia, preferiu serenar os ânimos ao reconhecer a própria vitória. O presidente russo frisou sua gratidão aos eleitores, disse que “ninguém deve se sentir perdedor” e pregou relações diplomáticas baseadas no respeito mútuo.
O palco no qual Putin se dirigiu ao público havia sido montado nos arredores do Kremlin como parte das comemorações pelo aniversário de quatro anos da anexação da Crimeia. Quando o presidente russo assumiu o microfone, por volta das 23h de Moscou (17h de Brasília), menos da metade das urnas tinham sido apuradas. Mesmo assim, com ampla vantagem para a concorrência, Putin já tratou seus 75% de votos recebidos até o momento como certeza de vitória. Em rápido pronunciamento, agradeceu pelo resultado e interpretou a vitória como um voto de confiança de que o governo seguirá trabalhando duro, “com as mesmas responsabilidade e eficiência”.
— Minha principal emoção é de gratidão aos eleitores pela escolha que fizeram — diria Putin, minutos depois, em uma sala lotada de jornalistas. — É muito importante unir os esforços das pessoas, independentemente do candidato que elas apoiaram. As diferentes forças políticas não podem ser guiadas por vontades de clãs, e sim por interesses nacionais.
Embevecido pela vitória arrasadora, Putin evitou subir o tom contra a Ucrânia, onde milhares de russos foram impedidos por nacionalistas, ontem, de entrar em zonas de votação. O presidente reeleito disse que não responderá com sanções. Pelo contrário: garantiu que fará o melhor “para que os ucranianos sintam-se em casa na Rússia”. O presidente só deu uma resposta atravessada no final da entrevista coletiva, quando foi questionado se pensava em mudar a Constituição para se estender no poder — ou se pensa em concorrer novamente à após o fim deste novo mandato, em 2024.
— O que você está dizendo é ridículo. Basta fazer as contas. Você espera que eu fique aqui até fazer 100 anos? É claro que não — disse Putin, que completa 66 anos em outubro.
Comemoração à parte, um ponto sensível para o governo estava indefinido até ontem à noite: a taxa de abstenção que vem crescendo na Rússia, onde o voto é facultativo. A Comissão Eleitoral Central (CEC) atualizou o índice pela última vez às 18h de Moscou (12h de Brasília). Posteriormente, o canal RT indicava que o comparecimento nacional estava em 67%.
De acordo com o número parcial, o índice de abstenções em Moscou beira os 50%. Na república autônoma da Chechênia, que teve comparecimento de 99,59% na eleição de 2012 — com 99% desses votos para Putin — o percentual que foi às urnas neste ano não passava de 78% até a última parcial divulgada. Na Crimeia, que teve sua primeira eleição presidencial como parte da Rússia após a anexação de 2014, o comparecimento também não empolgava: 63,83%.
O crescimento do índice de ausentes na eleição era uma preocupação do governo, que fez campanha massiva para incentivar a população a ir às urnas. Não à toa, o ativista da oposição Alexei Navalny, que não conseguiu registrar sua candidatura, organizou um boicote à votação, numa tentativa de reduzir a legitimidade da vitória de Putin. Ontem, a equipe de Navalny ecoou nas redes sociais diversas denúncias de fraudes em zonas eleitorais — desde distribuição gratuita de comida até pessoas votando repetidas vezes. Várias dessas acusações foram desmentidas pela comissão eleitoral.
— Nenhum país do mundo tem o nível de transparência que nós mostramos hoje (ontem) — vangloriou-se o vice-presidente da CEC, Nikolai Bulaev.
Segundo a CEC, mais de 1,5 mil observadores internacionais fiscalizaram a votação. Além disso, as imagens de mais de 40 mil câmeras de vigilância instaladas nas zonas de votação podiam ser acessadas por qualquer cidadão. O acervo, inclusive, serviu como ponto de partida para boa parte das denúncias de fraude feitas por opositores.
— No geral, não percebi violações nesta votação — afirmou o fiscal eleitoral Vitaly Makhov, de 32 anos, que mesmo assim fez críticas à campanha eleitoral. — O verdadeiro problema é que as pessoas mais velhas acreditam nas informações falsas que recebem da TV aqui na Rússia. Acreditam no governo atual porque não têm acesso a outras fontes de conteúdo.
Nas áreas periféricas de Moscou, a entrada das zonas eleitorais tinha música típica russa, feira de alimentos e, para as crianças, bolas de futebol e tacos de hóquei. O aposentado Anatoly Cheban saiu com dois balões coloridos em mãos ao deixar sua zona de votação no Parque da Vitória, no sudoeste da capital russa.
— Votei em Putin, claro — afirmou Cheban, que elogiou o clima da eleição. — Você vê que as pessoas estão sorridentes, vieram votar com vontade. Ninguém veio obrigado.

