Por Jekaterina Golubkova
27 Ago (Reuters) - Pavel Talankin, que filmou como uma escola russa tentou justificar a guerra na Ucrânia para seus alunos em um projeto clandestino para o documentário vencedor do Oscar “Um Zé Ninguém Contra Putin”, foi acusado de traição por sua ex-professora em declaração à TV estatal russa.
O documentário, de Talankin e David Borenstein, foi baseado em dois anos de filmagens que Talankin registrou em uma escola onde trabalhava na região de Chelyabinsk, a cerca de 1.500 km a sudeste de Moscou.
Proibido pelas autoridades russas, o documentário mostra como a escola mudou depois que Moscou enviou suas tropas para a Ucrânia em 2022 e como alguns professores — por meio de aulas de história e atividades como as recém-introduzidas “horas patrióticas” — justificavam a guerra e buscavam incutir o patriotismo.
Talankin, que fugiu da Rússia em 2024, afirmou que era importante contar ao mundo como as crianças em idade escolar russas estavam sendo doutrinadas. Ele defendeu o filme como um registro para a posteridade, a fim de mostrar como “uma geração inteira se tornou raivosa e agressiva”.
Mas, em entrevista ao programa de TV “Vesti”, Nina Zabugornova — descrita pela emissora como a primeira professora de Talankin em sua cidade natal, Karabash, também na região de Chelyabinsk — disse que ele era um menino comum, não muito diferente dos outros.
“Eu queria assistir ao documentário, para ver o que Pashka filmou”, disse Zabugornova, em frente a uma igreja ortodoxa em Karabash, onde ela trabalha como sineira.
“Mas acabou que Pashka decidiu virar as costas para sua pátria. Isso não é uma traição? Isso não é uma maldade?”
Em março, a Rússia designou Talankin como agente estrangeiro. Quem recebe esse rótulo está sujeito a exigências burocráticas rigorosas.
Zabugornova, que disse ter sido professora por quatro décadas, culpou a si mesma pelo fato de Talankin ter cometido “uma traição”.
“Então, acho que, quando ele era pequeno, quando todas essas coisas estavam se formando nele, devo ter deixado passar alguma coisa por algum lugar, não lhe dei lições boas o suficiente”, declarou ela ao Vesti.
(Reportagem de Jekaterīna Golubkova em Tóquio)



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