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Presidente do governo espanhol pode ser derrubado nesta sexta

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MADRI — Com os conservadores do Partido Popular (PP) enfraquecidos pela condenação de 30 pessoas ligadas à legenda no escândalo de corrupção conhecido como Caso Gürtel, a oposição espanhola conseguiu ontem o apoio necessário para a moção de censura contra o presidente de governo, Mariano Rajoy. Caso a moção seja aprovada na votação desta sexta-feira, Rajoy será o primeiro chefe de governo do país derrubado do cargo após a redemocratização do país em 1975. Em seu lugar assumiria Pedro Sánchez — líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e responsável pela apresentação da moção — que pode optar por tentar governar com minoria parlamentar ou convocar novas eleições.

Para que a moção seja aprovada e Rajoy deixe o governo, são necessários 176 votos no Parlamento — ontem, contabilizavam-se 180. À frente do principal partido de oposição, Sánchez foi estimulado a apresentar a medida por Pablo Iglesias, líder da coalizão Unidos Podemos, e ao longo da semana obteve o apoio de legendas menores, como a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), o Partido Democrata Europeu Catalão (PDeCat), além de representações regionais como a coalizão basca Bildu e o partido nacionalista Nova Canárias. O apoio decisivo para a moção veio nesta quinta-feira do Partido Nacionalista Basco (PNV), integrante da base parlamentar do governo do PP, que na última semana apoiara a legenda de Rajoy na votação sobre o Orçamento de 2018. Com cinco votos, o PNV fez a balança pender contra Rajoy.

— Não foi uma decisão fácil, mas tivemos que seguir a ética política e a responsabilidade — afirmou o líder dos nacionalistas bascos, Aitor Esteban, que citou a condenação do PP no Caso Gürtel como o divisor de águas em sua relação com o governo. — As moções se acumularão se o PP seguir no governo, por isso resolvemos apoiar essa medida.

Esteban, no entanto, não prevê um cenário tranquilo para Sánchez caso o socialista se torne o presidente de governo.

— Não será nada fácil governar com 84 deputados e com um PP enraivecido — afirmou. — Não me surpreende que nas fileiras do partido (PSOE) haja membros que não queiram a moção aprovada.

Para conquistar o apoio necessário, Sánchez — que levantou a possibilidade de retirar a moção caso Rajoy renunciasse — se comprometeu a governar com as contas aprovadas pelo PP e a abrir “uma nova etapa de diálogo com os catalães”. A Catalunha é uma das principais pedras no sapato de Rajoy, que acionou o Artigo 155 da Constituição espanhola e suspendeu a autonomia da região após a declaração unilateral de independência no ano passado. O porta-voz da ERC, Joan Tardà, justificou sua decisão:

— Preferimos apoiar Sánchez a manter Rajoy, ainda que o PSOE tenha se esforçado para agir como o PP ao dar apoio à aplicação do Artigo 155 — afirmou Tardà. — Nosso “sim” a Sánchez é um “não” a Rajoy.

Já a promessa de não mexer no Orçamento foi considerada um aceno aos nacionalistas bascos — na lei aprovada há dotação de quase € 500 milhões de investimentos no País Basco. Iglesias, por sua vez, criticou Sánchez por prometer manter as dotações orçamentárias, mas abriu uma janela para que seus partidos “ganhem juntos” as novas eleições.

— Sánchez deve aspirar a algo mais do que ser um mal menor — afirmou Iglesias.

Quarta força no Parlamento espanhol, com 32 deputados, o Cidadãos, principal aliado do PP até o início do mês, cortou os laços com Rajoy, mas não se somou à moção de censura. O líder do partido, Albert Rivera, afirmou que a corrupção “liquidou o mandato do presidente de governo e a confiança da população”, mas lamentou que o resultado da saída de Rajoy produza “um governo de Sánchez junto àqueles que, como os líderes independentistas catalães, querem destruir a Espanha”. Já contando com o apoio do PNV e com o número de votos necessários, o líder socialista rebateu, acusando Rivera de “viver bem às custas dos confrontos territoriais”.

Fruto de uma investigação iniciada em 2007, o caso Gürtel apontou a existência de uma rede de pagamentos de propinas, evasão fiscal e lavagem de dinheiro comandada pelo então tesoureiro do PP, Luis Bárcenas. Há uma semana, a Audiência Nacional condenou o ex-tesoureiro e outras 29 pessoas a penas que somam 351 anos de prisão. O PP também foi condenado como beneficiário de um caixa 2 existente desde o fim da década de 1980. Rajoy negou envolvimento com o escândalo e garantiu não renunciar. E respondeu a Sánchez, antes do anúncio do PNV:

— Você apresentou uma moção de censura aos espanhóis que não o escolheram nas urnas. Não pode governar, porque nunca ganhou eleições.

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