BELGRADO, 28 Ago (Reuters) - O presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, acusou nesta sexta-feira um tribunal de crimes de guerra da ONU de “comportamento incivilizado” por não ter permitido que o ex-comandante do Exército sérvio-bósnio, Ratko Mladic, morresse na Sérvia, e afirmou que Belgrado ainda aguarda uma resposta sobre se o corpo será devolvido.
Mladic, que cumpria pena de prisão perpétua após ter sido condenado por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra cometidos durante a guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995, morreu na quinta-feira em um centro de detenção da ONU em Haia. Ele tinha 83 anos.
“Não recebemos nada de Haia”, disse Vucic aos repórteres, acrescentando que as autoridades sérvias ajudariam a providenciar um enterro digno para Mladic na Sérvia, caso sua família solicite.
No mês passado, o tribunal negou o pedido de Mladic para que lhe fosse permitido retornar à Sérvia para morrer. O tribunal afirmou que seu estado de saúde era precário, mas estável e bem controlado no centro de detenção.
“Vimos agora que Haia queria que Mladic morresse atrás das grades”, disse Vucic. “Eles não permitiram que o general morresse na Sérvia, onde ele queria morrer. Esse é um comportamento incivilizado, sem precedentes nem justificativa.”
O órgão da ONU encarregado de supervisionar os casos pendentes do tribunal de crimes de guerra da Iugoslávia não respondeu às perguntas da Reuters sobre uma possível transferência dos restos mortais de Mladic para a Sérvia.
A mídia sérvia informou que Mladic havia expressado o desejo de ser enterrado em um cemitério em Belgrado ao lado de sua filha Ana, que morreu em 1994.
TRIBUNAL INVESTIGA A MORTE DE MLADIC
O tribunal abriu uma investigação sobre as circunstâncias da morte de Mladic. Um juiz designado para supervisionar a investigação passou cerca de três horas no centro de detenção na sexta-feira, mas não fez declarações à imprensa.
Vucic, um ex-ultranacionalista que atuou como ministro no governo do falecido líder sérvio Slobodan Milosevic na década de 1990, reinventou-se nos últimos anos como um reformista pró-europeu, mantendo, ao mesmo tempo, laços estreitos com a Rússia e a China.
Mladic foi considerado culpado de genocídio por seu papel no massacre de Srebrenica, em 1995, no qual cerca de 8.000 homens e meninos muçulmanos bósnios foram mortos depois que as forças sérvias da Bósnia invadiram o enclave designado pela ONU.
Ele também foi condenado pelo cerco de 43 meses a Sarajevo, durante o qual cerca de 10 mil pessoas foram mortas.
No entanto, Mladic continuou sendo uma figura reverenciada entre muitos sérvios na Sérvia e na República Sérvia, região autônoma da Bósnia.
Os sobreviventes do massacre de Srebrenica tinham opiniões muito diferentes.
“Ele nunca deveria ter saído da prisão”, disse Meira Djogaz, cujo marido, três filhos e neto foram mortos durante a guerra e que voltou a morar em Srebrenica após o conflito.
“Gostaria que ele tivesse vivido ainda mais tempo para que pudesse sofrer mais na prisão”, disse ela.
(Reportagem de Ivana Sekularac, em Belgrado; Stephanie Van Den Berg, em Haia, e Amel Emric, em Srebrenica)



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