Compartilhe este texto

Pragmática, Meloni passa de ameaça à UE para aliada da chefe executiva do bloco

Por Folha de São Paulo

13/04/2024 23h00 — em
Mundo



MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - "Un bacetto", um beijinho, disse a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, enquanto transformava um aperto de mãos cerimonioso em uma troca de beijos entre duas colegas sorridentes. Um pouco travada com a informalidade, a outra protagonista rapidamente cedeu. Era a alemã Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia.

A cena, ocorrida em janeiro em Forli, na Itália, durante uma visita de Von der Leyen às áreas afetadas pelas enchentes do ano passado, não passou despercebida por analistas e políticos, mas também não causou estranhamento. Àquela altura, as relações entre a anfitriã ultradireitista e a convidada de centro-direita estavam sintonizadas havia alguns meses.

Se um dia Meloni praguejou contra o euro, como na campanha para as eleições europeias de 2014, ou afirmou que a mamata iria acabar para a Europa quando ela chegasse ao poder, como disse semanas antes de ser eleita, em 2022, ninguém ali parecia se lembrar.

A dois meses da votação para o Parlamento Europeu, que pode abrir mais espaço para o grupo político de Meloni (Conservadores e Reformistas) e dar a ela mais relevância na definição da próxima Comissão Europeia, a líder italiana conseguiu, ao longo de um ano e meio, dissipar a imagem que a rodeava antes de assumir o cargo --a de uma ameaça às instituições da União Europeia, como Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria.

A desconfiança, em especial na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, tinha como base as raízes pós-fascistas do partido fundado por ela, o Irmãos da Itália, os discursos inflamados dos anos de oposição e seus parceiros na coalizão de governo, Matteo Salvini (Liga) e Silvio Berlusconi (Força Itália), morto em 2023. O primeiro é declaradamente antieuropeísta, e ambos nutriram bom relacionamento com o russo Vladimir Putin.

Logo na chegada, Meloni mostrou alinhamento na defesa da Ucrânia contra a Rússia. "Os EUA e os europeus pediam que ela não rompesse essa frente de apoio, e ela não o fez. Ela entende os mecanismos de política internacional e viu que para a Europa se trata de uma batalha existencial", diz Arturo Varvelli, diretor do escritório em Roma do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR).

Outro momento importante foi o posicionamento em relação à China, com a decisão de Meloni de tirar a Itália da Nova Rota da Seda. Único país do G7 a aderir à iniciativa, em 2019, a saída era um passo diplomático delicado a ser realizado, pelo temor de possíveis retaliações econômicas do país asiático.

"Foi algo administrado de forma muito discreta, longe da cobertura mediática, sem propaganda. Exatamente para não irritar Pequim. Foi uma gestão cautelosa que parece ter dado resultados", afirma Leo Goretti, chefe do programa de política externa italiana do Instituto de Assuntos Internacionais (IAI).

Para Varvelli, foi por meio desses episódios que Meloni se posicionou, no nível internacional, mais como conservadora do que populista. "Apesar de algumas tendências, ela nunca se afastou ideologicamente da tradição italiana em política externa, em temas como Rússia, China e outros. É muito mais tradicionalista do que imaginávamos", diz.

Entre os motivos, segundo ele, estão uma visão política amadurecida ao deixar de ser oposição, o aconselhamento de aliados mais experientes no plano internacional e o trabalho do corpo diplomático. "Apesar de jovem, ela é uma política experiente, está envolvida nisso há 30 anos e sabe fazer política, apesar das orientações que possa tomar."

Meloni, 47, entrou na adolescência para a Fronte della Gioventù (frente da juventude), seção juvenil do Movimento Social Italiano, partido criado em 1946 por integrantes dos últimos anos do regime fascista. Aos 29 anos, foi eleita deputada.

Como num equilíbrio de posições, Meloni mantém seu lado mais populista em temas internos caros à direita, como decisões em relação à comunidade LGBTQIA+ e à área de segurança. "São bandeiras que são agitadas como para dizer 'somos realmente de direita', o que lhe dá crédito nas franjas mais radicais", diz Vervelli.

Eleita com 26%, Meloni mantém sua popularidade e detém atualmente 27% de intenções de voto, isolada em primeiro lugar caso as eleições gerais italianas fossem agora --o próximo pleito está previsto para 2027.

Em relação à Europa, Goretti vê semelhanças entre a política externa de Meloni e a de Berlusconi, de centro-direita, que foi premiê em três períodos entre 1994 e 2011. Ambos, em teoria, defendem uma abordagem "euro-realista", em que há o reconhecimento da importância da dimensão europeia como processo de integração, mas que é mais focada na negociação entre os governos nacionais e menos no fortalecimento das instituições da UE, como o Parlamento e a Comissão Europeia.

"Na prática, porém, essa visão de Meloni colidiu com dificuldades nas relações com França e Alemanha, enquanto se criou uma forte relação com Von der Leyen, ligada à disputa eleitoral de junho", avalia Goretti. "Desse ponto de vista, ela foi forçada a adotar uma linha moderada porque se deu conta de que pragmaticamente, para a Itália, há uma série de temas, da economia à imigração, que o país não tem como enfrentar sozinho."

Nicola Procaccini, eurodeputado do Irmãos da Itália e um dos líderes do grupo Reformistas e Conservadores, afirma que Meloni tem uma abordagem crítica em relação ao trabalho feito pela Comissão Europeia, como em pontos relacionados ao Green Deal, mas que isso não a impede de trabalhar com o órgão para levar adiante suas propostas.

"Neste um ano e meio, Meloni conseguiu levar a Comissão rumo a algumas posições suas, como na imigração. Finalmente, agora existe uma abordagem muito mais severa na luta contra a imigração ilegal, que incorpora ideias nossas", afirma Procaccini, em referência ao novo pacto de migração aprovado nesta semana pelo Parlamento Europeu. "Até há dois anos, eram propostas consideradas xenofóbicas e racistas, mas na realidade eram simplesmente de bom senso."

Enquanto a convergência de interesses entre Meloni e Von der Leyen será colocada à prova nas eleições de junho, com a primeira em busca de mostrar forças dentro e fora da Itália e a segunda atrás do segundo mandato, existe fora do continente um fator que pode desequilibrar a imagem de pragmatismo construída por Meloni.

Desde que chegou ao governo, a primeira-ministra tem procurado redimensionar seu relacionamento com Donald Trump, com quem compartilha valores conservadores, tendo já discursado na conferência americana CPAC. Ao mesmo tempo, mantém boa relação com o atual presidente americano, Joe Biden, por quem já foi recebida duas vezes na Casa Branca.

"O Irmãos da Itália teve relações bastante estreitas com a direita republicana. Uma eventual vitória de Trump, que tem uma visão sobre a Guerra da Ucrânia muito diferente daquela do governo Biden, poderia ter um impacto sobre a posição italiana", diz Leo Goretti, do IAI. "Aí, veremos se essa virada moderada de Meloni é ligada a uma mudança de posições políticas de princípio ou se foi uma movimentação tática, que pode ser seguida por um reposicionamento radical em caso de mudança do panorama internacional."


Siga-nos no
O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

ASSUNTOS: Mundo

+ Mundo