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Polarização, atrasos e tráfico atrasam processo de paz na Colômbia

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BOGOTÁ E SÃO PAULO - Os colombianos só pensam na paz. Grafites coloridos que promovem uma nova Colômbia aparecem espalhados por toda Bogotá. A propaganda do governo e da inciativa privada é grande: a ideia é mostrar o quanto investidores podem ganhar com o país sem conflito, o quanto turistas podem se divertir nas florestas antes intocadas por conta da guerra com as Farc, que durou meio século. Na tradicional Feira do Livro de Bogotá, realizada no mês passado, o Alto Comissariado para a Paz (do governo colombiano) distribuía materiais didáticos, e havia palestras, lançamentos de livros por editoras grandes e independentes sobre o tema, além de apresentações culturais com ex-guerrilheiros. Num grande painel, os colombianos escreviam suas respostas sob as palavras “Qual é o seu sonho de paz?”. A pergunta vive seu momento mais oportuno. O celebrado acordo, que deu ao presidente Juan Manuel Santos o Nobel da Paz no ano passado, vive uma série de entraves. Os desafios são inúmeros e recaem basicamente sobre três fatores: polarização política, cumprimento de prazos e narcotráfico.

Encabeçados pelo ex-presidente linha-dura Álvaro Uribe, os colombianos desconfiados rejeitaram, por pequena margem, o acordo no plebiscito do final do ano passado — não concordam em temas como anistia a ex-guerrilheiros, tribunais especiais para julgar os crimes e desconfiam da incorporação de ex-combatentes à sociedade e à política. A equipe de Santos levou-o adiante mesmo assim, e conseguiu aprovar leis para implementá-lo porque tem maioria no Congresso. Na semana passada, a Corte Constitucional declarou inconstitucionais alguns mecanismos desta votação rápida adotada pelos aliados de Santos, o que representou um duro golpe no governo e nas Farc; a guerrilha está reunida em assembleias desde então para discutir a questão.

A crise pode se agravar mais ainda no ano que vem, quando haverá eleições gerais. Santos tem 26% de aprovação popular, e, de acordo com uma recente pesquisa do Gallup, 57% dos colombianos não estão satisfeitos com o acordo. Uribe deve apresentar um candidato, assim como Santos.

— O acordo de Havana corre risco se um presidente contrário a ele for eleito no ano que vem. Personagens vão tentar converter a paz numa bandeira política, estimulando essa polarização indevida, que desvia do foco principal do acordo que é refundar um país — salienta Eduardo Pizarro, sociólogo e diplomata colombiano, que esteve na mesa de negociações na capital cubana e acaba de lançar um livro chamado “Cambiar el futuro” (“Mudar o futuro”), que conta o histórico das conversas de paz na Colômbia.

Pizarro classifica o acordo como “a melhor notícia do mundo atual” e defende que ele seja um “acordo de Estado, e não de governo”, ou seja, permanente. Diz que alguns motivos de sua rejeição são “explicáveis, como as longas feridas deixadas pela violência”, mas outros são “inexplicáveis”, como este uso da paz como arma política.

Além da polarização e da economia (a Colômbia deve crescer apenas 1,8% em 2017), a popularidade baixa de Santos tem a ver com atrasos na implementação do acordo. As Farc têm, por exemplo, até 31 de maio para entregar suas armas. Não só o processo está atrasado, como foram descobertos mais de 900 esconderijos clandestinos de armas, explosivos e dinheiro da guerrilha. O governo e a ONU, para quem o arsenal será entregue, correm contra o tempo para cumprir esta parte do pacto. O governo brasileiro, antes de cair em seus muitos problemas internos, já havia demonstrado preocupação com a questão das armas colombianas, que podem ser contrabandeadas pela fronteira.

Há cerca de sete mil guerrilheiros desmobilizados espalhados pelo país, morando em acampamentos monitorados pelo governo. Existe uma preocupação real com o que será feito deles, “podendo ser recrutados pelo crime organizado, entre outros destinos”, avalia Pizarro. Afinal, apesar de as Farc terem renunciado ao narcotráfico como parte do pacto, a quantidade de áreas de cultivo de coca aumentou na Colômbia em 2015, segundo o governo americano. Em encontro com Santos na semana passada, o presidente dos EUA, Donald Trump, reiterou sua preocupação com a questão.

Santos, no entanto, recebeu com alívio o endosso de Trump aos acordos de paz. O Congresso americano já aprovou o envio de uma ajuda de US$ 450 milhões para a Colômbia ainda este ano, o que ajudaria na implementação do pacto.

O narcotráfico é sensível a toda a América Latina e está ligado ao fato de que, apesar de ter 9% da população global, é no local onde ocorrem 32% dos homicídios do mundo. A colaboração com os americanos é fundamental para o sucesso do plano.

— A fumigação de plantios implementada por Uribe não se justifica mais. Agora, com a paz, o Estado pode entrar nos territórios. Deve-se substituir as áreas de cultivo, estabelecer zonas de segurança e, principalmente, dar condições de subsistência para quem só tinha as Farc como meio de viver. O importante é corrigir os problemas que levaram à guerra — atesta Rodrigo Pardo Garcia, ex-chanceler e diretor da revista “Semana”.

Para ele, Santos pensava “que a paz era a assinatura do acordo” e está tendo problemas em comunicá-lo, deixando de abordar as dificuldades de forma criativa — enquanto seu rival Uribe comunica muito bem sobre a “ameaça terrorista” que acha que as Farc ainda representam.

— Santos é bom para fazer propaganda fora da Colômbia, mas é ruim fazendo o mesmo dentro. Já temos a paz, a guerra acabou. O perigo é essa paz ser limitada e, por falta de habilidade política, estarmos perdendo uma grande oportunidade.

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