LIMA — A fratura no partido Força Popular, escancarada no processo que quase removeu o presidente peruano, Pedro Pablo Kuczynski, no ano passado, consolidou-se ontem com a saída de Kenji Fujimori e outros nove parlamentares. A iniciativa foi anunciada em entrevista coletiva um dia depois da revelação de que o comitê de disciplina do partido recomendara a expulsão do filho do ex-presidente Alberto Fujimori. Como dois parlamentares eleitos pelo Força Popular haviam renunciado, o partido ficou reduzido a 61 cadeiras, perdendo sua maioria de 73 assentos no Congresso (de 130 lugares).
— Agradeço aos membros do grupo por sua valentia e coragem, por suas fortes convicções democráticas e sua clara e firme decisão de dar esse passo e renunciar à bancada da Força Popular — afirmou Kenji, cujo grupo ofereceu um “pacto de governabilidade” ao presidente.
Ele aproveitou para criticar as ações da direção do partido, controlado por sua irmã Keiko, contra membros do grupo e seu pai.
— Fomos vítimas de constantes atropelamentos por parte da cúpula do Força Popular, e acreditamos que, como parlamentares, somos livres para dizermos o que pensamos.
Há duas semanas, a bancada alinhada a Keiko abriu um processo disciplinar contra Kenji, por não ter apoiado a votação contra Kuczynski — que foi salvo pela ausência dos dez votos sob controle do filho do ex-presidente Fujimori — no dia 21 de dezembro. Três dias depois, Fujimori ganhou perdão presidencial, numa decisão que levou a protestos no Peru contra Kuczynski, acusado de barganhar a liberdade do ex-chefe de Estado pelos votos de Kenji e seus apoiadores. A decisão de se abster da votação de impeachment fez com que todo o grupo fosse marginalizado no partido.
Kenji criticou os principais assessores da irmã, que o aconselharam a não tentar uma libertação de seu pai — que cumpria pena de 25 anos por corrupção e crimes contra a Humanidade — para não contrariar a liderança de Keiko, principal nome do Força Popular. Ele também justificou a decisão do grupo afirmando que os parlamentares foram ignorados ao pedirem um processo de renovação dentro da legenda, após duas derrotas de Keiko em eleições presidenciais.
— É saudável que os quadros do partido e sua estrutura orgânica se modifiquem, mas isso nunca aconteceu — afirmou.
Questionado sobre a possibilidade de formar uma nova legenda, Kenji explicou que os “Vingadores” — como o grupo de dissidentes fujimoristas se autointitulou — aguardam um pronunciamento do Tribunal Constitucional. A corte decidirá sobre um pedido para que a lei que proíbe a formação de novos grupos parlamentares no Congresso seja considerada inconstitucional.
Keiko e Kenji são investigados pelo Ministério Público por lavagem de dinheiro. A líder do partido testemunhou a respeito de depósitos não declarados da empreiteira brasileira Odebrecht, e autoridades suspeitam que o Força Popular tenha cometido crime de caixa 2 na campanha. Já Kenji e outros dois irmãos são investigados por suspeitas de narcotráfico. Em 2013, a polícia encontrou 91 quilos de drogas num armazém de sua empresa de transportes.

