Mario Draghi entregou um pedido de demissão ao presidente italiano, Sergio Mattarella, na quinta-feira, 14, após perder a confiança do Movimento Cinque Stelle (M5S, ou Cinco Estrelas) - partido antissistema mais votado nas últimas eleições nacionais - em uma votação no Senado. O pedido foi negado por Mattarella, que indicou que o premiê voltasse ao Parlamento para discutir com líderes partidários a possibilidade de continuidade do governo, sem a necessidade de convocação de uma nova eleição antes do fim do mandato, em 2026.
O premiê só deve comparecer ao Parlamento na próxima quarta-feira, dia 20, após uma viagem oficial de dois dias à Argélia, na segunda e terça-feira. Mas as negociações para formar uma nova maioria no governo já começaram e devem ocupar todo o fim de semana, já que os cenários e as possibilidades são muito variados.
Para muitos observadores, é possível que Draghi aceite um segundo mandato com uma maioria diferente, excluindo o M5E da coalizão. Mas isso teria consequências políticas, pois excluiria o vencedor das eleições legislativas de 2018. Por enquanto, nada vazou sobre a posição dos antissistemas. Apesar do líder do partido, o ex-premiê Giuseppe Conte, ter afirmado que a porta para o diálogo continua aberta: "discutimos, tomamos nota da renúncia de Draghi e continuaremos discutindo", disse.
Dentro da ampla coalizão que forma o governo Draghi, que vai de partidos de direita à esquerda, também não há uma posição clara e unificada, apesar das manifestas preocupações de enfrentar uma eleição e uma troca de governo em um momento delicado para o país, principalmente envolvendo as consequências energéticas e geopolíticas da guerra na Ucrânia,
"Em Moscou, estão brindando, serviram a (Vladimir) Putin a cabeça de Draghi em uma bandeja", ironizou o ministro das Relações Exteriores da Itália, Luigi Di Maio, que abandonou o M5E há um mês, levando com ele cerca de 50 parlamentares para um novo partido, o Juntos pelo Futuro (IPF).
O Partido Democrático (PD), sigla mais tradicional da esquerda italiana e um dos principais integrantes da coalizão que apoia Draghi, prometeu trabalhar para uma solução rápida. "Temos cinco dias para o Parlamento confirmar a confiança no Executivo de Draghi e para a Itália sair deste momento dramático", escreveu seu líder, Enrico Letta, no Twitter.
O maior temor dos partidos de esquerda e de centro é que as eleições legislativas sejam antecipadas, já que quase todas as pesquisas apontam a direita e a extrema-direita como favoritas. Mesmo entre partidos de direita, que integram e que estão fora da coalizão, há certo receio sobre realização de eleições neste momento.
Os partidos Forza Italia, de Silvio Berlusconi, e Liga, de Matteo Salvini, têm dificuldades em explicar os motivos para retirar o apoio a Draghi enquanto o país atravessa um aumento da inflação, uma nova onda de covid-19 e enfrenta as consequências da guerra na Ucrânia. Enquanto o direitista Salvini pede eleições antecipadas, Berlusconi se limita a manifestar sua preocupação com a situação econômica e social do país.
"Vários líderes políticos acreditam que eleições antecipadas seriam um resultado desejável, porque o governo praticamente perdeu sua capacidade de adotar novas reformas e tomar decisões politicamente difíceis", afirmou Lorenzo Codogno, economista e professor visitante da London School of Economics em entrevista à France-Presse . "Uma eleição antecipada encurtaria uma campanha eleitoral que, de outra forma, seria dolorosamente longa e impediria o governo de funcionar normalmente", ressaltou.
A grande beneficiada por um novo pleito, no entanto, seria a líder de extrema direita, Giorgia Meloni, do Fratelli d'Italia (Irmãos da Itália), que sempre se manteve na oposição, conquistando, assim, históricos 25% de apoio do eleitorado, de acordo com pesquisas. (Com agências internacionais).



