afp.com / Paolo Cocco
Cidade do Vaticano (AFP) - As críticas da ONU ao Vaticano por encobrir por décadas os padres pedófilos, embora se refiram a uma grave realidade, "pertencem ao passado" e não levam em conta os avanços feitos até agora pela Igreja para combatê-la, afirmou o vaticanista Andrea Tornielli.
AFP: Parecem-lhe fundamentadas as críticas do Comitê das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança contra a atitude da Igreja diante dos padres pedófilos?
TORNIELLI: "O que escreveram é verdade, mas são assuntos que pertencem ao passado. Por anos, a fórmula era de transferir o autor dos abusos, razão pela qual voltava a cometer o abuso. Além disso, as vítimas acabavam traumatizadas, sentiam roubada a sua alma, as distanciavam também porque atacavam a honra da Igreja. Esse sistema não existe mais, foram feitos avanços significativos".
AFP: Quais avanços?
TORNIELLI: "Sob (o pontificado de) João Paulo II, graças ao então cardeal Joseph Ratzinger (futuro papa Bento XVI), foram promulgadas normas precisas para que os casos fossem julgados em Roma. Criou-se uma força especial da Congregação para a Doutrina da Fé (chefiada pelo monsenhor Charles Scicluna). As modificações no direito canônico, adotadas em 2010 após os informes na Irlanda, correspondem a uma legislação de emergência porque permitem expulsar da ordem um padre, sem processo, se houver provas".
"Do ponto de vista legislativo, fizeram tudo. A propósito da denúncia às autoridades civis, a Igreja diz que os episcopados devem agir segundo as normas em vigor em cada país".
AFP: O que o Vaticano pode fazer agora?
TORNIELLI: "O mais importante é mudar a mentalidade. As normas não podem ser cumpridas se as mentalidades não mudarem. Têm que tomar consciência de que se tratam de atos muito graves e não temer o escândalo. O Vaticano reagiu também pela ingerência da ONU sobre assuntos relacionados com a família e o aborto. A Igreja não aceita que a apresentem como uma entidade que descrimina os homossexuais porque defende o casamento fundamentado em um homem e uma mulher. A ONU pediu à Igreja que revise as normas canônicas sobre seus ensinamentos morais. Isto é inaceitável para ela".



