MADRI — O governo do presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, deseja eleições regionais na Catalunha para acabar com a crise entre a Generalitat (governo catalão) e Madri, afirmou nesta sexta-feira seu porta-voz, Íñigo Méndez de Vigo. As últimas eleições regionais na Catalunha aconteceram em setembro de 2015. Os separatistas apresentaram a votação na ocasião como um plebiscito sobre o processo de soberania e conquistaram a maioria na Câmara regional, de 72 deputados sobre um total de 135.
— Seria bom começar a fechar esta fratura pelo Parlamento da Catalunha através de eleições autônomas — disse o porta-voz em uma entrevista coletiva após o conselho de ministros semanal.
Mais cedo, o delegado do governo espanhol na Catalunha, Enric Millo, pediu desculpas nesta sexta-feira pelos 800 feridos na repressão de policiais que, no domingo, tentavam impedir o polêmico referendo independentista realizado na região. As imagens das agressões aos eleitores que saíam às ruas correram o mundo, evidenciando a brutalidade dos agentes de segurança de Madri contra cidadãos comuns. A Espanha considera a consulta popular ilegal, enquanto os líderes catalães separatistas mantém a resistência e prometem declarar a independência unilateralmente nos próximos dias.
— Quando vi essas imagens, e sei que há gente que foi golpeada e empurrada, inclusive há uma pessoa que ainda está hospitalizada, não pude fazer nada mais do que lamentar e pedir desculpas em nome dos agentes — disse Millo em uma entrevista na televisão pública catalã TV3.
Líderes independentistas catalães comparecem nesta sexta-feira à justiça espanhola para prestar depoimento pela acusação de sedição, o que deve aumentar a tensão entre Madri e a Catalunha, que avança em seu projeto de declaração de independência. A pior crise política em décadas na Espanha não dá trégua. Enquanto as autoridades da Catalunha mantêm o projeto de secessão após o referendo de independência de domingo, que afirmam ter vencido, o governo central de Rajoy descarta qualquer diálogo até que os independentistas abandonem suas ambições.
Neste contexto, o comandante da polícia catalã, Josep Lluís Trapero, e os líderes de duas associações independentistas importantes, Jordi Sánchez e Jordi Cuixart, comparecem à Audiência Nacional de Madri. Eles chegaram ao local acompanhados por um pequeno grupo de deputados catalães independentistas e do País Basco, tanto nacionalistas de direita como da esquerda separatista. Os deputados não foram autorizados a entrar no edifício. Um deles exibiu a cédula de votação do referendo de autodeterminação aos policiais que protegiam o local.
A vice-comandante de Trapero, Teresa Laplana, comparecerá por videoconferência, por questões de saúde. Os quatro prestam depoimento ao tribunal por suposta sedição, delito que pode resultar em uma pena de prisão de 10 anos para cidadãos comuns e 15 anos no caso de autoridades. A investigação está relacionada com as manifestações realizadas diante de uma dependência do governo catalão em Barcelona nos dias 20 e 21 de setembro, quando a Guarda Civil realizava uma operação no local. Os manifestantes danificaram veículos da Guarda Civil estacionados diante do prédio e impediram a saída dos agentes por várias horas.
Jordi Sánchez, da Assembleia Nacional Catalã, e Jordi Cuixart, da Omnium Cultural, discursaram, em cima de um dos veículos, para a multidão e pediram uma mobilização permanente, de acordo com o documento da Audiência Nacional que admite a denúncia por sedição. O conselheiro regional do Interior, Joaquim Forn, afirmou que Trapero tem o apoio do governo independentista da Catalunha e disse ter certeza que não há nenhum tipo de delito e muito menos de sedição.
A justiça espanhola atua sem hesitar contra os independentistas, sobretudo o Tribunal Constitucional, que proibiu o referendo de independência e que na quinta-feira suspendeu a sessão prevista para segunda-feira no Parlamento regional, que poderia proclamar a secessão unilateral. Assim como a Generalitat ignorou o tribunal e realizou a votação, embora sem as garantias habituais como uma junta eleitoral ou a possibilidade de um voto secreto, a presidente do Parlamento catalão, Carme Forcadell, deu a entender que a agenda estava mantida. Ao chamar a decisão do TC de ato de extrema gravidade que enfraquece a liberdade de expressão dos deputados, Forcadell disse que o Parlamento regional, dominado pelos independentistas, não permitirá a censura.

